Fiquei sem munição
* Por
Fernando Yanmar Narciso
Oque conseguiríamos se pegássemos um comercial de alistamento, o
esticássemos por cerca de uma hora e meia, o puséssemos num contexto fajuto do
final da Guerra Fria e, só de brinde, ele fosse estrelado por um astro em
ascensão de filmes de ação baratos? Eis um portfólio de toda a filmografia do
queridinho da internet e, atrevo-me a dizer, porta-voz do Divino na Terra,
SENHOR Chuck Norris.
Oriundo de Oklahoma, Carlitos Rey Norris é um tipo de John Wayne que
luta caratê e é garoto-propaganda das Forças Armadas estadunidenses. Ao
contrário de seus conterrâneos de filmes de ação como Stallone, Schwarzenegger
e Van Damme, que só fingem saber o que estão fazendo, Norris é um fuzileiro de
verdade e herói de guerra condecorado, entendendo do manejo de armamento pesado
como poucos. Pena ele ter desperdiçado boas décadas de sua carreira como
“roteirista” e astro de seus próprios filmes ao lado de Aaron, seu irmãozinho
caçula, puxa- saco e“diretor” de quase todos eles, e se subordinando à maior
produtora de filmes B da década de 80, a Cannon Films.
As principais características de qualquer filme dele são o excesso de
testosterona, adrenalina e tiros, enredos que mal chegariam a encher meia
página A-4 e aproximadamente 90% das cenas não fazem o menor sentido. Seria um
erro chamá-lo de canastrão (ele me mataria), pois antes de sê-lo, o homem
precisaria ser um ATOR, coisa que Cel. Braddock sequer sonha em ser. Ele
simplesmente diz suas falas como se o script tivesse uma boca. E não há melhor
exemplo de tais ingredientes trabalhando em perfeita harmonia como em seu filme
mais famoso, a película de ação mais aleatória já feita e o 2º VHS mais vendido
da história da MGM, perdendo apenas para E o Vento Levou...Invasão
USA, de 1985.
Dirigido por Joseph Zito, o primeiro diretor a estourar uma cabeça em
close diante das câmeras, aqui temos o espião soviético Mikhail Rostov (Richard
Lynch, figurinha carimbada de filmes B daquela década) coordenando a, segundo
ele, primeira invasão de solo norte-americano em 200 anos. Financiado pelo narcotráfico,
ele comanda o desembarque de centenas de milhares de terroristas soviéticos nas
encostas ianques para espalhar o caos e a loucura pelo país. O problema é que
Rostov tem uma logística incompreensível, pois em vez de seguir uma agenda
clássica de terrorismo como invadir a Casa Branca, seqüestrar e torturar o
presidente ou bombardear algum prédio importante, ele prefere usar
bombas-relógio e lança-mísseis para dinamitar inocentes subúrbios, pequenos
shopping centers, guetos chicanos e igrejinhas de bairro, sem nenhuma vítima
específica. Provavelmente isso era tudo o que o orçamento da produção
permitia...
E para combater a esse ataque retardado ao solo americano, quem você
chamaria? O Exército? A SWAT? Superman? Não! Eles são para os fracos... O ex-
agente antiterrorismo da CIA e mestre em artes marciais Chuck Norris (Eu sei
que o personagem dele tem nome, mas todos vão chamá-lo de Chuck Norris mesmo) é
o homem adequado para trazer a paz de volta ao país. Porém, ele já está
aposentado e prefere passar o resto de seus dias como um pacato e antissocial
caçador de jacarés no pântano, ao lado de seu colega inseparável, um índio
ancião que eles nem se preocuparam em dar um nome.
O motivo de a CIA ter ido importuná-lo novamente é que, há alguns anos,
Norris frustrou um plano de Rostov de- imaginem só!- invadir a Casa Branca e
matar o presidente. Com uma pistola na têmpora de seu rival e sussurrando a
ameaçadora frase “Hora de morrer”, Norris é detido de acabar com essa história
no último instante por seus superiores, e mais tarde, creio eu que Rostov tenha
conseguido escapar da prisão e voltou à América com uma obsessiva e insaciável
fome de vingança. A propósito, a frase “Hora de morrer” é repetida tantas vezes
pelo herói que chegamos a imaginar se esse era o título que eles queriam dar ao
filme.
Enfim, Chuck é arrancado de sua aposentadoria quando os soviéticos
localizam de algum modo a tapera onde ele vive e tentam matá-lo com bazucas,
que parece ser a arma de estimação de Chuck Norris, pois qualquer pessoa no
filme sabe usar uma. Obviamente, não conseguem matá-lo nem com elas e o
ex-agente e lobo solitário está de volta à ativa. Enquanto o governo e as
forças armadas ficam tentando prever qual será o próximo passo da Al Qaeda por
décadas a fio, o velho Chuck simplesmente SABE onde estão os terroristas e
frustra qualquer plano deles. Quem disse que onipresença tem seus limites?
A maioria das cenas é tão caricata e sem nexo que é quase como se Chuck
e Aaron tivessem escolhido uma porção de gibis, arrancado algumas páginas,
embaralhado e grampeado, e provavelmente foi assim que conseguiram vender esse
script. Claro que há vários outros personagens (alvos?) no filme, mas os dois
irmãos nem se preocuparam em dar substância a nenhum deles.
Já sabiam que a audiência só teria olhos para as estripulias quase
mágicas de Chuck, o único membro da CIA a andar livremente pelas ruas do Texas
empunhando uma UZI em cada mão e um fuzil AR-15 com lançador de granadas
acoplado, torturar pessoas aleatórias em busca de informações do paradeiro de
seu arquiinimigo e escapar dos maiores tiroteios e explosões do mundo com não
mais que um corte na pálpebra e a roupa suja.
E, surpreendentemente para um fuzileiro dos bons como Carlitos, ele
utiliza o armamento militar da forma mais rocambolesca possível, como na
escalafobética e inesquecível cena final, onde Norris e Rostov travam um
duelo... Com bazucas, à distância de queima-roupa, no corredor de um prédio!
Resumindo, é claro que Invasão USA é um filme tenebroso, mas isso não
quer dizer que ele não deixe um sorriso sádico em cada rosto ao terminar.
Diversão e espírito de porco garantido. BUM!!!
*Designer e escritor. Sites:
HTTP://cyberyanmar.deviantart.com
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Não sei onde você tira tantas informações sobre esse pessoal totalmente desconhecido para mim. Ainda assim fica interessante ler, especialmente a parte que fala do enredo em meia página A4 e na mistura de algumas páginas de um gibi rasgado. O filme não sei se é diversão garantida, mas ler sua resenha é.
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