Um mojito e olhos verdes
* Por Pablo Uchoa
O rum, quando toca minha língua,
me recorda os canaviais de Cuba.
Retenho essa memória alguns
segundos no céu da boca, depois a deixo escorrer suavemente pela garganta.
Sorvo goles de melaço e hortelã e ainda me sobra um rastro doce, ou mais que
isso, um rastro espesso, transbordante, o importantíssimo toque de hortelã no
final.
Um mojito e seus olhos verdes.
Se eu fosse pintor, capturaria
numa tela a óleo este momento e o título seria precisamente assim, “Mojito e olhos verdes”, mas que
devaneio, eu jamais alcançaria a simbolizar tanta coisa junta. À falta de
recursos eu apelaria para a fugacidade das metonímias, a parte pelo todo, no
fundo tudo se resume a este mojito e
aos seus olhos verdes.
Você baixa o olhar para os meus
pés em busca de seguir meus passos, docemente enlaço sua cintura e segredo, não
precisamos de coreografia para dançar este bolero tão lento, amor.
“Dos gardenias para ti...”
É uma canção que sabe a amores e
nada mais, mesmo assim trago em mim uma revolução, “como Cinfuegos com este
charuto na boca e esse cavanhaque que mais parece uma barba”, você graceja. Não
liga a mínima para minhas convicções políticas. Pero la ternura...
Estou concentrado em explorar
outras coisas, cafunés enquanto dançamos. Olho dentro dos seus olhos e quebro
para o lado, procuro nos cantos do seu rosto mais doçura. Ou nos cantos do
salão, nele estamos como no meu quadro metonímico, pinceladas cheias
circundadas de outras, mais longilíneas, sugestão apenas. Um pedaço rasgado de
um bilhete de amor que o vento esquecesse de levar embora.
Entre pernas e metonímias
passamos as horas, resta-me o sabor de açúcar e hortelã e a lembrança de uns
olhos verdes que devoravam como um ciclone tropical. Olhos cujo brilho nem a
cerração ofuscaria, muito menos a penumbra cristalina de uma noite enluarada
como a madrugada caribenha, miradas tiernas y sonidos corpóreos,
deseos jadeantes y palabras calientes, cochichos
em castelhano na maciez do travesseiro.
(*) Cronista e editor do site www.narizdecera.jor.br. Vive atualmente na Inglaterra, dedicando-se
a pesquisas no Institute for the Studies of the Americas, da Universidade de
Londres. Autor do livro-reportagem “Venezuela: A Encruzilhada de Hugo Chávez”
(Ed. Globo, 2003), menção honrosa no prêmio Vladimir Herzog 2004.
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