terça-feira, 2 de junho de 2009




Rutherford, o colecionador

* Por Risomar Fasanaro


Sim, eu conheci Rutherford, personagem que mais parecia saída de algum folheto de cordel, ou de algum conto maravilhoso da Idade Media. E ainda que discordasse do seu comportamento frente a algumas situações na vida, da sua forma nem sempre honesta de viver em sociedade, eu gostava muito dele

Conheci-o na Vila dos Artistas aqui em Osasco. Tinha vindo de Ribeirão Preto junto com os artistas plásticos Leopoldo Lima e Waldomiro Sant’Anna.

Estatura baixa, nem magro nem gordo, sempre de paletó, camisa social, gravata, e sapatos pretos. Deveria ter nos anos setenta, aproximadamente uns cinqüenta anos. Nunca soube seu verdadeiro nome, mas acredito que o apelido lhe foi dado por algum professor da universidade de Ribeirão Preto, São Paulo onde, levado por Leopoldo passou a conviver com aqueles mestres.

Recentemente reencontrando com José Ranciaro, (o Zé da Vila), Elisete (a Baiana), e Irene Garcia, o relembramos. Depois, por e-mail, Waldomiro Sant’Anna me ajudou a recompor aquela figura insólita e tão querida por todos nós..

Rutherford vestia sempre sete camisas, umas sobre as outras. “Pra que tantas camisas?”, alguém perguntava. E ele respondia com uma franqueza e uma naturalidade tão grandes como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo: “porque quando a de fora está suja, eu ponho embaixo das outras, e assim vou sempre trocando”.

Tinha o hábito de colecionar. Colecionar qualquer coisa: maços de cigarro, palitos e caixas de fósforos usados, bitucas de cigarro, rolhas e tampas de garrafas, folhetos de propaganda, e mais coisas de que não me lembro.

A cada cinco frases era capaz de inventar dez mentiras. Não tomava banho nunca, e quando um dia os amigos que também viviam na Vila o forçaram a isso, se divertiram vendo seu “método”: ele passava correndo, cruzando o banheiro de um lado ao outro, passando rapidamente pelo chuveiro aberto, de modo que a água mal o tocava, e ali estava ele de banho tomado.

Assim que chegou à Vila, tratou de organizar um posto de venda de luz. Detalhe: a luz de lá já era um “gato” puxado de um poste. Pois não é que ele se considerou o dono daquela Eletroruthen e passou a vender luz aos moradores da favela vizinha? E ganhou algum dinheiro. Dinheiro que para ele era uma fortuna. Só que um dia, fiscais da Eletropaulo fizeram uma visitinha à Vila e descobriram a empresa de Rutherford . Os moradores da favela quiseram linchá-lo, mas àquela altura ele já havia sumido com o dinheiro, e por isso precisou ficar algum tempo afastado da Vila.

Figura simpaticíssima, Rutherford conquistava todo mundo com sua lábia. Um dia levei um gravador e o entrevistei. Contou toda sua vida, material que daria um filme. Em determinado momento perguntei como era aquela história de o Leopoldo não vender os quadros que esculpia. E ele começou a contar com uma graça que jamais conseguirei reproduzir: sabe, como é menina? Quando Leopoldo vai expor na praça, ele leva sempre um vidrinho de colírio no bolso esquerdo da camisa, e quando alguém se aproxima e fala em comprar um quadro, ele diz que não vende, tira escondido o colírio, esconde a mão na camisa, pinga nos olhos e diz ao comprador: olha, só de pensar em vender, eu até choro...Aí a pessoa fica mais interessada no quadro, então Leopoldo diz: tenta ver se minha mulher vende, isso é com ela...E é claro que a Cleusa vende, dizia Rutherford, e vende bem mais caro por causa das lágrimas, do colírio, né?

Eu sabia que aquela história era pura ficção, mas adorava ouvi-lo, porque a realidade é uma senhora séria, de blazer e saia comportadas, ao passo que a ficção é moça vaidosa, com brincos, colares e muitas pulseiras. E está quase sempre a rir. E aquelas histórias dele iam conquistando todo mundo. Leopoldo ouvia tudo, ria e só dizia: “acredite nisso não...”.

Sabendo daquele seu talento para falar, alguns professores do curso de medicina de Ribeirão o convidavam para a aula inaugural na faculdade. Ele ficava um bom tempo falando para os calouros sobre a influência dos remos das embarcações na formação das ondas do mar, sobre a influência das minhocas na menstruação das borboletas... E só no final os alunos ficavam sabendo que tudo não passara de uma brincadeira.

Mas o Rutherford, que vivia ao sabor da sorte e do que lhe davam, nem sempre ficou sem trabalho. Um dia uma fábrica de sorvetes lá em Ribeirão o contratou para vender sorvetes na rua. Ele saiu feliz com o carrinho para vender a mercadoria. Mas o coração dele era de anjo, um anjo maroto que era a alma gêmea de sua preguiça, por isso não resistiu aos apelos das inúmeras crianças da cidade que queriam tomar picolé, mas não tinham dinheiro.

Em poucos minutos meu amigo encontrou a solução para os dois problemas: a vontade das crianças e sua preguiça de empurrar aquele carrinho pela cidade, em pleno sol de verão. Distribuiu todos os picolés e só pediu uma coisa: que todos lhe trouxessem os palitos e as embalagens. Bastava isso, e os picolés estariam pagos.

Alguns minutos depois as crianças lhe devolviam os palitos e as embalagens, e assim ele dirigiu-se ao responsável a quem deveria prestar contas na fábrica: pois é...o carrinho desgovernou-se ladeira abaixo, e os sorvetes se rebentaram e derreteram. Eu não pude fazer nada. Tão aí as embalagens e os palitos... É só conferir!

O tempo passou e a última notícia que tive dele me foi dada por Irene Garcia, minha amiga. Ela se dirigia à Escola de Belas Artes, em SP, onde estudava no final dos anos 70, quando ouviu alguém pregando a palavra de Jesus:

-“Irmãos! É hora de se converter! Os tempos estão chegando...Jesus é a salvação!...”

Irene pensou: eu conheço esta voz! E não é que era dele? Ali estava Rutherford, envolvido em uma nova empresa. Quando a viu, ficou meio sem jeito, parou de falar, mas logo se recompôs. Arrumou o paletó, ajeitou a gravata, chegou perto dela, cumprimentaram-se e foi dizendo:

“- Me arranja cinco conto aí, pra eu comprar cigarro?”

Irene deu “os cinco conto” e nunca mais o viu. Nem eu... Recentemente soubemos que ele faleceu há alguns anos, bem antes da pessoa que mais o protegeu, do seu maior amigo: Leopoldo Lima.

* Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.

7 comentários:

  1. Uma alma de artista desgovernado, um sujeito pra lá de interessante, alguém que encontrou a própria medida, mas alheio ao padrão decimal do mundo previsível. Puro e desconcertante. Gente assim deixa uma saudade danada quando se vai, e não é outro o espírito desta crônica saborosa, amorosa, típica do seu lastro, Risomar. Parabéns.

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  2. É bom para a memória e para quem lê resgatar essas figuras situadas entre a caricatura e o impossível. Reais, não são nem boas nem más, apenas sobreviventes de adversidades mil e sobreviveram justo pela esperteza. A loucura também pode ser um modo de viver.

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  3. Sua história sobre Rutherford é tão boa, Risomar, tão verdadeira, que até parece mentira - até parece história de Rutherford...! (rs) 03 beijos sob o frio que está em São Paulo.

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  4. Daniel, Mara e Fabio, meus queridos,
    Rutherford é a prova concreta de que muitas vezes a amizade é um sentiento incondicional. Você vê as falhas de caráter da pessoa e, mesmo assim, continua a gostar dela. Acho que ele era uma especie de "Macunaíma", impossível não gostar dele. Obrigada pelos comentarios, e plagiando o Fabio, 3 beijos em cada um.
    Risomar

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  5. Risomar é destas raras escritoras que, com seus textos simples nos remete a coisas do arco da velha. Neste testo, de minha parte aponto

    1) As marcas de cigarros portugueses que eu fumava escondido, quando aos 13 anos papai foi obrigado a passar uma "temporada" em Portugal, par não ser preso pela Ditadura.

    2) Rutheford foi o primeiro físico a idealizar o que chamamos de Modelo Atômico, com a disposição dos eletrons circulando à volta do Núcleo de Prótons. Viajei muito tentanto entender esta parte, nos meus estudos do secundáriuo.

    3) Rutheford me remete ao grande personagem Peer Gynt, do ícone (para mim) teatologo Henrik Ibsen. Peer Gynt, ao contrário do que alguns pensam aqui no Brasil, não foi um reles Macunaíma subserviente, sem caráter e sem afeto ao próximo, apenas adorador de si mesmo. Gynt é um personagem símbolo de um libertário, que amou a vida, teve afetos, um pouco fanfarrão, aventureiro, mas que muito ensinou à sua gente.

    Viu Risomar, que feijoada podemos fazer de seus feijõesinhos que nos brinda, quando escreves. Isto é o que diferencia as grandes escritoras, das médias e pequenas.

    É a nossa Laura Ingals Wilder.

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  6. Nossa, Raymundo, você me emocionou com seu comentario. Preciso ler Laura Ingals Wilder o quanto antes, para merecer um leitor tão sensível e atento.
    Obrigada e
    um beijo
    Risomar

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  7. Risomar, que delicia sua descrição do Rutherford, quem o conheceu, ainda sempre de chaverinho do Leopoldo, era bem isso mesmo. Inventava historias de outro mundo. Como bem disse Lirio do Prado, acima, era bem isso mesmo um Macunaima materializado aqui para nossas bandas.

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