quarta-feira, 2 de setembro de 2009


Leia nesta edição:

Editorial – Origens da ficção científica.

Coluna Da terra do Sol – Marco Albertim, crônica “Urariano Mota falou com Soledad”.

Coluna Personalidade e atitude – Sayonara Lino, crônica “Solitários acompanhados”.

Coluna Jornalista do Sertão – Seu Pedro, crônica “Todos nós somos professores”.

Coluna Porta Aberta – Cácio Machado da Silva, poema “Retrato de jornal”.

Coluna Porta Aberta – Emilson Pedro Zorzi, poema, “Repulsa”.

Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.

Origens da ficção científica

A ficção científica (talvez para sua surpresa, atento leitor) teve precursores ilustres, e ainda no século XVIII, como o filósofo Voltaire, por exemplo, que em 1752 lançou o seu “Micromegas”. Embora muitos não se dêem conta, “As viagens de Gulliver”, livro publicado em 1726 por Jonathan Swift, também tem essas características.
É verdade que o gênero apenas adquiriu sua forma mais definida e a aceitação de que hoje goza a partir dos enredos de Júlio Verne e das novelas de Edgar Allan Poe. O pitoresco é que o romance gótico de Mary Wolstonecraft Shelley, “Frankenstein, ou o Prometeu moderno”, é considerado como ficção científica. Afinal, narra a experiência de um cientista, digamos, um tanto excêntrico, que se propôs a brincar de Deus e “criar vida” dos restos de alguns cadáveres.
Os mais afoitos, certamente por analogia (no caso equivocada) irão considerar outra produção literária na linha do fantástico, insólito e sobrenatural, “Drácula”, de Bram Stocker, como sendo ficção científica. Evidentemente, não é. Não tem nada a ver com esse tipo de temática. Já “O médico e o monstro”, de Robert Louis Stevenson, tem que ser caracterizado como tal.
Se formos pesquisar a fundo, descobriremos que obras com essas características já vinham sendo escritas muito antes de Verne e de Poe. A narrativa de Platão, dando conta da destruição da Atlântida, tem muito a ver com essa temática.
E em meados do século XVII, por exemplo, o astrônomo Johan Kepler (quem diria!) escreveu uma obra de ficção (cientistas também, não raro, invadem, e quase sempre bem, a nossa seara, ou seja, a da Literatura) que intitulou “O sonho”.
No livro, descreveu uma viagem humana a outro planeta, inclusive com detalhes, o que lhe confere verossimilhança. Antes, ainda, o francês Savinier Cyrano de Bergerac publicou o romance satírico “Histoire comique dês États et Empires de la lune”, em que selenitas ironizam a forma de ser e de se comportar de nós, humanos.
Todavia, a ficção científica conquistou o status de que goza bem depois de Verne e de Poe, embora ambos são tidos como marcos dessa espécie de tema. Foi, somente, a partir de 1926, quando Hugo Gernsback fundou a revista “Amazing Stories”, com histórias exclusivamente desse tipo, que o gênero decolou de vez.
Os nomes mais respeitáveis nessa categoria, hoje em dia, são H. G. Wells, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Robert A. Heinlein, além de Aldous Huxley, C. S. Lewis e Kurt Vonnegut, que ademais não se dedicaram exclusivamente à ficção científica, mas exploraram diversos outros tipos de temas.
Creio que o assunto ficou claro, não é mesmo? Isso embora esteja longe, muito longe de se esgotar. Sempre que se traz à baila um tema, como este, porém, é conveniente, antes de tudo, para evitar qualquer espécie de dúvidas e ambigüidades, ir às suas origens, às suas raízes, às suas motivações, mesmo que de forma parcial e tosca, como a minha.

Boa leitura.

O Editor.



Urariano Mota falou com Soledad...

* Por Marco Albertim

Um romance confessional, digressivo e pulsante; dir-se-ia um diário com registros não meramente factuais, mas com a obsessão de tornar o objeto principal da narração num personagem palpável. O autor Urariano Mota, ao escrever Soledad no Recife, resgatou-a de tal modo que conversou com ela, teve-a do lado, dormiu absorvendo o hálito paraguaio da moça que nunca foi dele, é agora, inda que morta, mais sua do que de quem a viu na intimidade do penhoar. Imaginou-a, ele, trouxe-a de volta como um cientista da palavra. Ele próprio o diz: “Eu quis – ambição de doido, já se vê – ter Soledad comigo, na minha frente. Seria algo como um médium na sessão espírita que invocasse seu espírito para tê-la de volta em toda a carne e concretude.”

Do começo ao fim do romance, o autor imiscui-se com o narrador oculto, cujo nome não é mencionado; de um jeito que está mais presente no foco da narrativa que o objeto de sua observação. Projeta-se, ele, para tê-la na sua lupa, como para se vingar da crueldade da história, do fim cruel que Sol teve. “Como são pequenas as cidades para os que têm convicções semelhantes!” – diz o narrador no primeiro capítulo, primeira página. Para quem conhece Mota, conviveu com ele nos anos duros da ditadura, ouviu de si, não poucas vezes, a constatação acima. Amando ou não Soledad, o autor/narrador diz do objeto de sua aversão, Daniel/Anselmo: “Havia nele algo de postiço, de pose. (...) Mas o que eu soube depois foi um mal-estar com a sua presença, um sentimento difuso que não se definia, pior, que não queria nem de longe definir.” Este é Urariano Mota. Aparece, ele, inclusive nos rasgos de indiscrição, ou de uma pergunta imprópria: “Em que categoria você o enquadra?” – inquire, para saber se Sol tem Daniel como companheiro ou como marido.

Disse, no começo, que é um romance pulsante, por isso abundante; por isso, aqui e ali, com excessos de explicações: “(...) com o seu instinto de fêmea, mas com o seu saber solidário, com a sua tradição de mulher destes trópicos, ela não queria ver seu companheiro em posição secundária.” Por ser pulsante, é um romance que se ressente da ausência de títulos em cada capítulo.Ele explica: “Penso que os recursos em um livro devem vir por necessidade interna, da própria narração e do escritor. Eu não senti a necessidade, devo dizer, não senti o livro me exigir isso. (...) Há uma tensão permanente, talvez num crescendo, e pôr os título equivaleria a seccionar o livro em partes autônomas, talvez.” Ele mesmo confessa que “há uma tensão permanente” e não se dá conta de que a tensão grita pelos títulos. “(...) partes autônomas”!? Absolve-o o “talvez.”

Parece, Urariano Mota, um escritor do absurdo; mas não o é, o que faz é usar com habilidade as palavras; assim, ao detectar uma mentira em Daniel, ele explica: “Por isso ouvi, e também vi com os ouvidos, em recolhimento.” Bela síntese. A vocação para os excessos volta, quando o narrador refere-se à noite em que conheceu o casal, no esforço de identificar “sorte ou azar.” Ele solta-se, sem freios: “Uma parte impetuosa, romântica, me fala que eu tive azar. Uma outra, realista, dura, pragmática, documental como os balanços contábeis (...)” Como não cabe no espaço, não transcrevo as vinte primeiras linhas do capítulo 4, são excessivamente digressivas. Pela mesma razão, os diálogos do mesmo capítulo; não são digressivos, são precisos, curtos e cortantes como uma quicé afiada. Coisa de quem tem intimidade com o ofício. O capítulo 5 oscila entre os gêneros conto e novela; fosse conto seria borgiano, inda que o formato de novela se manifeste no colóquio da primeira pessoa.

O sexto capítulo destila uma oração, sempre na primeira pessoa. O sétimo é particularmente tenso; título, Mota, há um grito sufocado pedindo título! O oitavo é acentuadamente digressivo, longo. Mas é aqui que o autor/narrador mostra-se fino na constatação: “Não ousávamos perguntar a que preço, a que preços, porque os desonestos mais desonestos são muito sensíveis à mais leve desconfiança.” E porque Daniel não amava Sol, diz o narrador: “Então ele era obrigado a fingir dentro do fingimento.” Finíssimo. A identidade do espião, ou o pressentimento do pior insinua-se na alma de Sol, no capítulo 10; as páginas nos dão ímpeto de torcer o pescoço de Daniel/Anselmo. A dor de Soledad vem a nu no capítulo 11; o autor soube, genial e poético, transmiti-la para nós; para nós e para a agonia do escritor.

* Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.




Solitários acompanhados

* Por Sayonara Lino


Vez ou outra ainda fico surpresa com a expressão entediada dos solitários acompanhados. São aqueles que preferiram apelar para uma companhia que não seja exatamente compatível do que trilhar um caminho individual e aguardar um pouco mais para que alguém mais apropriado dê o ar da graça. É claro que isso exige uma certa dose de paciência e esperança, talvez por isso exista tanta gente insatisfeita: a dois.

Geralmente esse é o perfil dos mais carentes, que consideram dolorosa demais a própria companhia. Alguns não se suportam, os próprios pensamentos os deixam desatinados. Pulam fora e esbarram com outros que também buscam simplesmente alguém. Para formar uma dupla é um pulo.

Outro dia observei um casal cujo perfil eu já conhecia havia algum tempo. Ela sempre foi agitada, falante, baladeira, festiva, contente. Sempre desejou um parceiro com tais características. Por estar passando por um momento difícil, laçou o primeiro que lhe estendeu a mão: submisso, introspectivo, calado, todo bege. Faz tudo o que ela pede, ou melhor, manda. Não está feliz, mas ficar sozinha no momento seria quase um castigo.

Nada contra a união, pelo contrário, não acredito no isolamento como alternativa para uma vida mentalmente saudável. Apenas acredito que insistir em um relacionamento com alguém que não tenha nada a ver com o seu número pode solapar as chances de encontrar alguém mais adequado.

“Primeiro o Homem não sabia estar só. Andava sempre em hordas ululantes. E quando, por acaso, desgarrava dos demais, uivava até morrer. Era, assim, o medo que juntava os homens, e repito – a multidão nasceu do medo. O ser humano só se tornou humano, e só se tornou histórico, quando aprendeu a estar só”. Não escrevi isso. Foi Nélson Rodrigues, e aposto em sua reflexão.

* Jornalista, com especialização em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora e atualmente finaliza nova especialização em Televisão, Cinema e Mídias Digitais, pela mesma instituição. Diretora de Jornalismo e redatora da Revista Mista, que é distribuída em Governador Valadares, Ipatinga e Juiz de Fora, MG e colunista do portal www.ubaweb.com/revista.




Todos nós somos professores

* Por Seu Pedro

Acabei por ficar uma hora ensinando aquele grupo de jovens, que todos nós somos professores, cada um em sua matéria, em sua especialidade Pois lá íamos, em grupo, olhando as belezas do parque com suas cachoeiras. De nós se aproxima um homem de meia-idade, com cara de que já tinha o dobro. Ao me ver, presenteou-me com um largo sorriso, pelo qual, como uma janela indiscreta, deixava-nos ver os cacos de dentes com os quais roia os ossos vida. Alegre, confessou-me ter, no último mês, faturado um salário mínimo com as vendas para reciclagem das latinhas vazias de cervejas e refrigerantes, que junta, limpando o local que nós, agentes poluidores, insistimos em sujar..

Seu Gregório segue, de sandálias de couro, pela madrugada, antes do sol se abrir e as cervejas e refrigerantes também. Passa bom tempo recostado em um banco, e assim observa os passos do sol ao amanhecer e cada movimento dos astros, ao despedir da lua. E tem tantas anotações feitas que, como Galileu, já pode ser chamado de astrônomo. Por que, então, não de professor? Ele, que não sabe escrever corretamente, aprendeu, soberanamente, a ler os mapas das constelações, no caminho do universo estelar.

Quando perco o sono, caminho até o parque, encontrando Gregório, que então se põe a me ensinar coisas que eu até posso ter teoricamente aprendido nos bancos escolares, mas não com a beleza presencial. E me aponta o Cruzeiro do Sul, me explica sobre Andrômeda, sobre as constelações Cão Maior e Cão Menor, sobre Capricórnio; enfim, me faz viajar pelas 88 constelações por nós, da terra, visualizadas.

Por causa daquele homem, uma atenta raposa, animal que também dá nome a uma constelação, eu sei das influências na maré e consigo notar o relacionamento dos astros com meu comportamento físico. E assim foi que eu naveguei por mares que nunca antes por mim foram navegados. Enriqueceu-me, mesmo que eu já esteja próximo de abandonar qualquer fortuna da terra. Guardo comigo o tesouro do baú de Gregório, que também me ensinou que tesouros não se guardam em baús de madeira, que o cupim destrói. Distribuem-se enquanto têm valor. Cada aprendizado, quando é para o bem, muda para melhor a vida do homem, fazendo-o esquecer, ou contornar, certas dores físicas. E assim me esqueço da insônia, deixo de rolar na cama e saio em direção ao parque e lá participo de mais uma aula.

E foi por isto que, ao se aproximar daquele grupo, naquele dia, eu o chamei de professor e o abracei, desconhecendo os trapos que vestia, causando espanto aos jovens que me acompanhavam e em pensamento indagavam: “Professor de que?”. Isto me obrigou a ministrar uma aula ao ar livre para dizer que cada um é um professor. Gastei, feliz, mais uma hora para falar de astronomia, porque, afinal, como aprendi; o tesouro tem que ser distribuído e eu não deveria, naquele momento, deixar passar aquela oportunidade.

* Seu Pedro é o jornalista Pedro Diedrichs, editor do jornal Vanguarda, de Guanambi, Bahia.




Retrato de jornal

* Por Cácio Machado da Silva

Um cadáver
purulento
fedendo
estático
estendido
podre
rendido
aos vermes que lhe comem.

Sinta o nojo
da própria espécie
vergonha de sentir nojo
o irmão,
do Adeus,
do fim.

É a morte que vomita
sua face
na vida que fica
e vira
retrato de jornal.

Faz ferida sem igual
sem dó
até virar pó.

* Poeta

Repulsa

Por Emilson Pedro Zorzi


Enfiaste na minha boca o seu segredo...
E cuspo no chão então...
.... a parte que me cabe.

* Poeta e pintor de Jundiaí/SP