Alegria e humor
O
escritor – notadamente o contemporâneo, mas também o do passado,
inclusive os tidos e havidos como “clássicos” – imita o
jornalista (embora o preceda em milênios, já que jornalismo é uma
atividade de no máximo dois séculos) e enfatiza, em 90% ou mais de
sua produção, o negativo. Contos, novelas e romances destacam
personagens problemáticos, tarados, homicidas, exsudando maldade por
todos os poros (os seus invariáveis vilões), em detrimento do
positivo, do bom, do alegre, do construtivo, enfim. Vocês já
notaram como os “heróis” da história são sempre chatos? Da
maneira como são descritos, chegam a ser inverossímeis. O escritor
passa, com isso, a impressão de que “tudo” no mundo é e sempre
foi negativo, trágico, corrupto e que a maioria das pessoas tende
mais a ser vilã e que assim sempre será. Será?
Perguntei,
várias vezes, a colegas escritores a razão desse tipo de opção.
“Ora, se eu escrever sobre o positivo, o bonzinho, o alegre,
estarei produzindo obras adocicadas, ‘água com açúcar’, que
não atrairão nenhum leitor”. Não deixa de ter razão. Somos
condicionados, mesmo, desde crianças, a atentar mais para o mal, até
para podermos nos prevenir, do que para o bem. Há livros que, de tão
negativos, chegam a doer, a nos causar mal-estar durante a leitura.
São verossímeis? São! São válidos? Também são! Mas não há
nenhuma regra que determine que um escritor, a pretexto de ser
“realista”, extrapole a realidade, carregue nas tintas e escreva
“apenas” textos negativos.
Para
não parecerem histórias “água com açúcar”, a tentativa de
abordar personagens e temas positivos, alegres e construtivos é
tarefa de gigantes, destinada a gênios. É difícil, eu sei. E como
sei! O sujeito para fazer isso e ainda assim despertar o interesse do
leitor tem que ter muito talento, ser muito bom no que faz,
praticamente um gênio. Há vários que fizeram isso e se deram bem.
Oportunamente, mencionarei vasta relação dos que lograram essa
façanha. Mas, por hoje, não.
A
vida das grandes metrópoles, nesta época especial da História, já
é, por si só, caracterizada pela angústia. Torna-se cada vez mais
raro surpreender-se alguém com um sorriso de genuína satisfação
nos lábios. O cotidiano é composto por correrias, preocupações
com contas, com luta por uma posição melhor, por verdadeira
batalha por esse lema, extremamente vago e de sentido ambíguo, que
se denomina “vencer na vida”.
Para
cada pessoa, isto tem um significado diferente. Os meios de
comunicação, por outro lado, entre os quais incluo os livros e, por
consequência seus produtores, os escritores, a pretexto de pintarem
o quadro do que se convencionou classificar de realidade, passam, na
verdade, mensagens negativas ou surreais. Entendem, certos
profissionais (e certos homens de letras), que a comunidade está
ávida somente por notícias ruins; por enredos repletos de ações
violentas com muitos socos e tiros e mortes, por crimes, escândalos,
aberrações sexuais e outras tantas distorções de comportamento do
animal homem. Só o negativo é manchete. Só o negativo compõe
enredos de romances, contos, novelas, peças teatrais e roteiros
cinematográficos. Por quê?
Dificilmente
alguém conseguirá explicar isto de maneira plausível e minimamente
lógica, a não ser que esse tipo de texto (e de uns tempos para cá,
principalmente de imagens), atrai o público, desperta interesse e é
vendável. Olhando a questão apenas pelo aspecto comercial, quem se
utiliza dessa argumentação, tem razão. Mas não se dá conta que
com isso dissemina o medo, a desconfiança, a angústia, as neuroses
etc.etc.etc.
Embora,
amiúde, me utilize de temáticas de cunho negativo, confesso que, no
fundo, no fundo, não a aprecio. Aliás, detesto-a, abomino-a, tenho
horror dela. Ela me faz mal. Deixa-me mau humorado, pessimista e
tenso, e torna a leitura, que sempre me foi algo sumamente prazeroso,
uma tortura, dependendo, óbvio, do texto que estiver lendo. Quanto a
filmes... minha preferência, disparado, é para os que me fazem rir.
Cresci
deliciando-me com as trapalhadas do “Gordo e Magro”, de Carlitos,
dos Irmãos Marx e de tantos outros que me desopilaram o fígado e
provavelmente, apenas pelo fato de me fazerem rir, me proporcionaram
alguns anos a mais de vida. Por que os escritores não conseguem essa
façanha? Por que são tão poucos os que me fazem rir (já que
gargalhar, até hoje, ninguém conseguiu)? Certamente não é por
incompetência. Talvez seja por preguiça ou por medo de tentar.
Anatole
France constatou, em determinado trecho do romance “O manequim de
vime: ” ... Todas as nossas misérias verdadeiras são íntimas e
causadas por nós mesmos. Acreditamos erradamente que elas vêm de
fora, mas formamo-las dentro de nós, da nossa própria substância”.
Como essas coisas ruins formam-se em nosso interior, não podemos e
não devemos atuar como agentes de contágio, disseminando a “doença”
do pessimismo, da descrença, da tristeza, do rancor e do derrotismo.
O
poeta William Butler Yeats recomenda: "Unifique seus pensamentos
a marteladas..." É isto... Agimos, em geral, sem pensar em
profundidade em nossos atos e suas consequências. Não pensamos de
maneira unitária. Nossas ideias são dispersas, vagas,
contraditórias. Temos que unificá-las...Mesmo que a "marteladas"...
Os verdadeiros prazeres, aqueles que justificam uma existência, são
simples e gratuitos. Estão ao alcance das mãos de qualquer um que
os queira usufruir. No entanto, complicamos tanto a nossa vida! No
entanto, nos afligimos por tão pouco! No entanto, tentamos, na maior
parte do nosso tempo, agarrar sombras! Não agimos assim, é
evidente, por masoquismo, pelo prazer de sofrer ou então por
maldade. Achamos, até mesmo, e com sinceridade, que estamos agindo
certo. Mas não estamos. Principalmente quando passamos adiante
nossos temores, nossas tristezas, nossas misérias e nossos demônios
interiores.
Devemos
viver com alegria e otimismo cada dia da nossa vida, mesmo (ou
principalmente) aqueles momentos de aflição e de dor, que todos
temos em nosso caminho quando menos esperamos. Mas temos que ser
coerentes e contagiar milhares, milhões, o maior número possível
de pessoas, com ideias e aspirações positivas, alegres e
construtivas, eivadas de esperança e, com a força do nosso talento,
tornar textos com essas características atrativos de sorte a fazer
de nossos livros best-sellers.
Recorro,
novamente, a Anatole France, que definiu com rara precisão qual é,
de fato, a grande missão do escritor. Escreveu: “O artista deve
gostar da vida e mostrar-nos que ela é bonita. Se não fosse ele,
duvidaríamos disso”. Aliás, “também” por causa dele, hoje,
duvidamos disso. Todavia, mesmo que você não creia, uma postura
alegre e positiva torna mais suave a travessia até dos instantes
muito ruins que eventualmente nos atormentem e que, como tudo na
vida, também são passageiros.
Não
conheço uma única pessoa, por mais amarga e infeliz que seja, que
não defenda, pelo menos da boca para fora, a alegria. A diferença é
que tais indivíduos consideram que essa condição é para os
“outros”, não para eles. Ou seja, não vivem o que pregam. São
dos que deixam implícito o célebre “faça o que falo, não o que
faço”. Daí serem tão amargos, tão mal-humorados e tão
negativos. Apostam na infelicidade e, por consequência, são, de
fato infelizes. Artur da Távola indaga, com pertinência, a
propósito: “Do que adiantará um discurso sobre a alegria se o
professor for um triste?”. Sim, de que vai adiantar?!
Boa
leitura!
O
Editor.
Alegria, alegria!
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