Trinta
mil
* Por
Viegas Fernandes da Costa
Fabrício
vendia jornais sob o semáforo. Nunca calculou o peso do fardo que
carregava sobre o braço esquerdo nas manhãs de sábado. Tinha dez
anos, mas precisava trabalhar. Enquanto Fabrício vendia jornais,
alguns dos nossos amigos jogavam bola na rua ou assistiam aos
desenhos animados na televisão.
Ocorreu-me
recordar de Fabrício, mas havia também a legião dos meninos
engraxates. Caixa de madeira às costas, a roupa suja e esfarrapada.
Você lembra dos meninos engraxates? Andavam em pequenos grupos,
confundidos com trombadinhas. Trabalhadores sem futuro. Quantos
daqueles “venceram na vida”?
Um
velho exaurido vende balas no cruzamento. É verão, o calor do sol
reverbera no asfalto. O pacotinho custa um Real. Um Real! Quantos
pacotes para um almoço decente? O velho tem as costas curvadas mas
procura manter a dignidade no cuidado com sua roupa. Botões da
camisa surrada fechados, calça limpa, sapatos pretos. Madame compra
um pacote como quem dá esmola. O velho trabalha, mas do outro lado
dos para-brisas motoristas veem um pedinte. Alguns sentem pena;
outros, indiferença.
No
programa de auditório o presidente da República fala em revisar a
previdência social. Topa tudo por dinheiro, o homem! Para o povo,
tenta ser claro: “se eu ganho trinta mil, guardo quinhentos reais
por mês e faço uma previdência privada”.
TRINTA
MIL POR MÊS!
Presidentes
da República deveriam habitar a Terra. “Alô, alô, marciano / A
crise tá virando zona / Cada um por si todo mundo na lona”; de
repente ouço Elis Regina cantando de algum lugar.
Talvez
o velho nunca consiga vender trinta mil pacotes de bala. Provável
que não. Mas o Brasil está melhorando, pelo menos no uso dos
eufemismos. Até o IBGE caiu na onda. Agora pesquisa taxa de
desocupação ao invés de desemprego. O velho que vende bala no
cruzamento, por exemplo, passou à condição de microempreendedor
individual. Está ocupado, tem renda, milagre econômico dando as
caras.
Por
alguns anos praticamente deixamos de ver velhos vendendo balas sob os
semáforos, meninos engraxates e os filhos do Fabrício puderam
estudar porque a política social exigia frequência na escola para
pagar a bolsa à família. Mas isto foi antes do
microempreendedorismo amplo e irrestrito que passou a imperar na
terra das saúvas e dos haemagogus.
Agora,
microempreendedores proliferam nos cruzamentos, mas o sinal está
fechado. Uns vendem panos de louça, outros doces ou água, alguns
até pequenos eletrônicos.
E
há aqueles que apenas estendem a mão vazia.
*
Escritor
e historiador.
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