Que
você sinta o mesmo prazer
* Por
Sergio Geia
Dá vontade de dizer pra meio mundo que a felicidade é possível e você encontra ali, bem pertinho do mar”
É
isso. Simples. Ou, talvez isso. Ou, por isso escrevo essas coisas
hoje: para você beber do mesmo prazer. Chego em casa depois de um
passeio na praça, ligo o computador, começo a escrever, não posso
perder o paladar que me inspira. Você pode achar que é falta de
assunto. Seu direito. Meu direito. De dizer o que sinto, se ele
extrapola o meu sentir e suplica viagens, voos nesse céu redondo de
felicidade.
Toda
experiência artística é subjetiva, e pizza, como obra de arte,
permite múltiplas avaliações. Sim, entendo e até poderia
desistir; mas não. Denomino a experiência com a mesma expressão do
David Lurie usada com os jornalistas depois de um caso com a
ninfeta-aluna Melanie Isaacs, em Desonra: enriquecedora. Acrescento
mais: superior, divina. Sim, a experiência é superior, o prazer
enleva, manda você para as nuvens. Aquele assim: você leva o garfo
à boca e diz hummm!
Cortam
em nove, você escolhe três sabores, se quiser. O tamanho menor, a
delicadeza, contribuem para a festa dos sentidos. A redonda é de
massa fina no centro e bordas altas. Não só isso. A massa tem um
quê de diferente, a borda você come, nem precisa estar recheada,
jogue um azeitinho (eles têm aos montes, grego, português, chileno,
italiano, espanhol).
Existe
um negócio chamado pH da água, ou, potencial hidrogeniônico, mede
o grau de acidez, neutralidade ou alcalinidade da água. Explico. O
proprietário (e família), de origem italiana, trabalha no ramo de
alimentos há décadas, em Sampa. Dizem que aprendeu a equilibrar o
pH da água usada na massa, com reflexos na fermentação e no sabor.
Portanto, amiguinho, duvido que você encontre uma pizza sequer
parecida com essa que lhe indico.
Carcamano
leva molho de tomates, espinafre, muçarela e essa coisa doida de
gostosa chamada pinóli — uma semente extraída do pinheiro-manso,
árvore originária da região do Mediterrâneo (lembra amêndoa;
caríssimo, se você encontrar). Peço para trocar a muçarela por
catupiry (o verdadeiro, não esses falsos que mais parecem purê),
eles sempre trocam. Não há bacon. A combinação é perfeita,
suave. O elemento subjetividade, OK, talvez você possa não gostar,
direito seu. Para mim, a melhor pizza que já comi em toda a minha
vida.
Muçarela,
catupiry, queijo de mofo azul dinamarquês e parmesão, os queijos da
4 queijos; um desbunde. A portuguesa (tradicionalíssima) leva molho
de tomates, presunto, ovos, cebolas e azeitonas pretas (eles têm a
opção com muçarela ou sem); desbunde total.
Há
também as deles. A provençal, por exemplo: molho de tomates,
abobrinha e berinjela grelhadas como alho, muçarela salpicada de
tomilho fresco e coberta com tomate confit. A rainha marguerita:
generosa camada de molho de tomates italianos, coberta com espaçados
pedaços de muçarela de búfula e manjericão cru. A Salmone: molho
de tomates, muçarela, salmão defumado e raspas de queijo de cabra
holandês curado, e muitas, mas muitas outras.
Você
pode estar pensando, afinal, onde fica esse suprassumo dos deuses?
Por partes: 1. Que fique bem claro uma coisa: não é jabá. Nem
conheço os proprietários, aliás, eles nem precisam disso; 2.
Simples: escrevo porque o prazer é tão grande, mas tão grande, que
dá vontade de dizer pra meio mundo que a felicidade é possível e
você encontra ali, bem pertinho do mar (sempre indico aos amigos,
provas vivas de que a indicação é desinteressada, honesta).
Mesmo
porque, crônica, por mais sabor que tenha, não encanta os sentidos
(todos) dessa forma, não propõe experiências elevadas by David
Lurie (às vezes até que sim), não vai satisfazer o seu desejo. Tem
que ir lá.
Sempre
que estou em Ubatuba, a visita é obrigatória.
Viagem
de muitas voltas.
P.S.:
1. Pizzaria São Paulo, Praça da Paz de Iperoig, 26, Centro
Histórico, Ubatuba-SP. 2. Tenho amigos paulistanos que degustaram
pizzas maravilhosas em Sampa, nas melhores pizzarias que você possa
imaginar, e se encantaram com essas pizzas no litoral. 3. Sei que
você está longe, amigo caruaruense, sorry, mas, se estiver por
perto, não deixe de conhecer. Me conte depois a experiência, ok?
*
Cronista.
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