Fácil
de engolir
* Por Daniel
Santos
Numa tarde infeliz da infância, pouco
antes do Natal, soube por acaso que não ganharia a bengala de Bat Masterson de
presente ... e senti ruir meu mundo de sonhos, onde era o bam-bam-bam do Velho
Oeste.
Saí à rua descalço e sem camisa, o
ranho escorrendo do nariz de tanto soluçar. Foi aí que encontrei o meu amigo
sentado no muro de casa, folgazão, comendo pão com manteiga, cheio de açúcar
por cima.
Sentei-me a seu lado, cabisbaixo, como
quem pede conivência, e lhe contei do meu desconsolo. Tínhamos a mesma idade,
mas com atitude de mais velho passou o braço sobre meus ombros e disse “liga,
não”.
Depois, me estendeu o naco de pão, um
pitéu que costumávamos dividir quando um dos dois aparecia comendo na rua, e
senti na boca que o doce dissolvia a amargura. Abraçados sobre o muro, nos
regalamos.
Entendi, afinal: não precisava de
bengala, tinha alguém para partilhar a dor, um amiguinho que sabia vencê-la.
Como dizia, bastava jogar açúcar por cima e a vida virava um confeito fácil de
engolir.
* Jornalista carioca. Trabalhou
como repórter e redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da
"Folha de São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo".
Publicou "A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e
"Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o
romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para
obras em fase de conclusão, em 2001.
Frustrações da infância real tomam dimensões gigantes, e, desde então, o açúcar passa a representar afeto.
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