Não mais partido
* Por
Eduardo Oliveira Freire
Meu pai era um homem
imponente e bem educado. Mas, sempre ouvi falar que quem o aperfeiçoou foi
minha mãe, pois ele era de origem humilde. Seu passado era ofuscado pelos
prêmios e condecorações que recebeu ao longo do tempo.
Um dia, papai adoeceu
e uma senhora com vestimenta simples apareceu na nossa casa. Ela cuidou dele
até o fim e o acalentava como se fosse um bebê, cantando cantigas de ninar.
Minha mãe fazia vista grossa, amava-o o bastante para saber que isso fazia bem
para ele. As duas desenvolveram uma cumplicidade que se aproximava de uma
amizade. Quando papai morreu, abraçaram-se em silêncio. No velório, recordo-me
da senhora passar a mão na minha cabeça e ir embora para sempre.
Anos se passaram e
esta recordação persistia em mim. Perguntei para minha mãe quem era aquela
senhora e ela me disse: “ sua avó”. Quis saber mais e ela me deu o endereço.
A senhora estava
sentada na varanda e me recebeu contida. Perguntei por qual motivo nunca me
disse que era minha avó e ela respondeu ser complicado responder. Ela e meu pai
estavam brigados tanto tempo que ela não queria se machucar mais. Decidiu
tentar ser indiferente, mas nunca conseguiu.
Mostrou-me fotos
antigas de meu pai e o quarto em que ele dormia. Ela me chamou a atenção de
como os olhos dele eram tristes e concordei. Até nas fotos de festas e
premiações seu olhar era muito melancólico.
Então, começou a falar
sobre ele. Disse que sempre desejou ir embora para ser bem sucedido.
Colecionava revistas de viagens, de mansões e comentava que encontraria a
felicidade nesses lugares. Um dia, desapareceu com o vento.
Minha mãe deu sua
versão, que meu pai sentia-se incompleto, apesar das vitórias conquistadas.
Escrevia cartas que nunca eram respondidas. Uma vez, minha mãe o viu escrever
em seu bloco de notas “ banzo”, que significa um sentimento de nostalgia que os
negros da África têm, quando estão ausentes do seu país; É um termo de origem
africana. De certo jeito, sentia falta de sua origem, a mesma de que no passado
sempre quis fugir.
Através dos relatos de
minha avó e da minha mãe percebi como meu pai estava à deriva, porque talvez
não conseguisse encontrar um lugar no mundo. Quando achou que saindo da casa
materna, encontraria sua identidade, descobriu que não estava completo e
faltava o que deixou para trás.
No leito de morte,
papai estava tão tranquilo... Talvez, porque, finalmente, se percebeu completo
e não mais partido.
*
Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante
a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/
Queremos nos soltar das raízes para sermos independentes e completos, mas a nossa fonte de energia é exatamente os nossos pais, nossas fontes de energia. Boa história, Eduardo, com características psicológicas bem profundas, o que enriquece a sua narrativa.
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