Caráter e personalidade
Os educadores – e os moralistas de plantão – falam, amiúde,
sobre caráter e da necessidade de formar no educando um que seja sólido e a
salvo de qualquer abalo. Quando uma pessoa age contra princípios legais e, em
especial morais, diz-se que ela não possui essa característica, essa estrutura,
esse conjunto de virtudes que, se possuísse, seria modelo de comportamento a
ser seguido. Todavia, essa espécie de “distintivo” nosso, que nos caracteriza e
nos diferencia de qualquer outra pessoa (mesmo de gêmeo univitelino) é, em
geral, confundido com “personalidade”. Sobretudo os leigos consideram esses
dois conceitos sinônimos. Até em Psicologia há correntes com esse entendimento,
que considero equivocado. Caráter não se molda pela educação. Personalidade,
sim. Uma pergunta se impõe, antes de desenvolver o tema: é importante para o
leigo estabelecer essa distinção? E mais: que importância isso tem para um
escritor?
No primeiro caso, para o cidadão comum, que não entenda nada
de Psicologia e nem se importe em entender, distinguir caráter de personalidade
não faz a menor diferença. Já para quem vive de fazer Literatura, isso importa,
e muito. Afinal, o escritor lida com palavras. E quanto mais precisas elas
forem, quanto mais exatas puderem ser as definições de conceitos com os quais
lida, tanto melhor. Sua obra ganha em conteúdo e credibilidade. Além disso, o
escritor é “criador” de personagens. Estabelece não só seus perfis físicos, sua
indumentária e costumes. “Inventa” não apenas suas ações, mas tudo o que as
motive e determine, de sorte a tornar essas figuras criadas pela sua imaginação
rigorosamente verossímeis. Mesmo que o
leitor desatento não perceba, quem vive
de escrever cita, o tempo todo, ora um, ora outro desses dois conceitos. E não
se admite que não os conheça, pelo menos nos seus aspectos mais elementares e,
por isso, os confunda.
Pincei, a esmo, em minhas fichas de leitura, citações de
diversos autores sobre esses dois dos nossos “distintivos”, que nos
caracterizam e nos distinguem uns dos outros e que, reitero, não são sinônimos,
embora as diferenças sejam sutis (contudo não apenas semânticas como muita
gente defende). Confúcio, por exemplo, declarou: “Ao examinarmos os erros de
uma pessoa, conhecemos o seu caráter”. Oscar Wilde, por seu turno, garantiu: “Se
há uma coisa que destrua a personalidade, essa coisa é a fidelidade às
promessas; talvez, também, o gosto pela verdade”. Para Carlos Drummond de
Andrade, “as dificuldades são o aço estrutural que entra na construção do
caráter”. Cora Coralina confessou, por sua vez: “Procuro suportar todos os dias
minha própria personalidade renovada, despencando dentro de mim tudo o que é
velho e morto”.
É certo que estas citações não deixam claras as diferenças
entre as duas características. Para Alfred Montapert, “o caráter é a soma de
milhares de pequenos esforços para viver de acordo com o que de melhor há em
nós”. A escritora portuguesa Agustina Bessa Luís, no entanto, escreveu: “A
rapidez que as pessoas imprimem às suas vidas faz com que simplifiquem a
realidade e fabriquem o que se chama a ‘personalidade de momento’. Sobretudo
nos políticos e homens à escala governativa, isso exprime-se por manifestações
impulsivas, peculiares a cada hora, vinculadas ás situações proteiformes”.
Para explicar, de forma razoavelmente didática, a diferença
entre estes dois conceitos, recorro à enciclopédia eletrônica Wikipédia, que
cita o filósofo francês René Le Senne que, por sua vez, estabelece a seguinte
(e para mim definitiva) distinção: “Caráter refere-se ao conjunto de
disposições congênitas, ou seja, que o indivíduo possui desde seu nascimento e
compõe, assim, o esqueleto mental da pessoa. Já personalidade é definida como o
conjunto de disposições mais ‘externas’, como que a ‘musculatura mental’ -
todos os elementos constitutivos do ser humano que foram adquiridos no correr
da vida, incluindo todos os tipos de processos mentais”.
Alguns entendem, como o filósofo francês que mencionei, que
se nasce com essa excelência e que a educação apenas a consolida. Também
entendo dessa forma. Outros, todavia, acham que ela não é congênita. São os que
não a distinguem de personalidade e consideram, portanto, ambas meramente
sinônimas. Afirmam que o caráter precisa ser moldado com ensino e, sobretudo,
com treinamento. No caso, todavia, pretendiam referir-se, no meu modo de
entender, a “personalidade”. Mas, cá para nós: Como o homem é complexo e
assustador! Um bebê, quando cresce, pode se transformar em um santo ou em um
demônio. Em um São Francisco de Assis ou em um Adolf Hitler. É impossível
prever como será quando adulto.
O estudo do caráter é tão complexo, que há uma ciência
específica dedicada exclusivamente a ele: a Caracterologia, dividida, aliás, em
várias escolas, O também filósofo francês, Gaston Berger, chega a apontar oito
tipos de caracteres, definidos a partir de três características básicas
descritas por Le Senne: emotividade, atividade e ressonância. Voltarei, oportunamente,
ao assunto. Por hoje, deixo clara apenas a distinção, com base nos estudos de
eminentes psicólogos, entre esses dois conceitos tão importantes, mas tão
controvertidos, amiúde confundidos como sendo um único. Caráter é inato e não
sofre influências do meio. Já a personalidade é mais ampla. É, ela sim, “moldável
e moldada” pelo meio e pela educação e, principalmente, é influenciada por
todas nossas experiências vida afora.
Boa leitura.
O Editor.
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Fiquei confusa. Espero que volte ao tema.
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