A
vizinha
* Por Rodrigo
Ramazzini
O Fabinho tomava banho, cantarolando
“boate azul” do Bruno e Marrone, quando ouviu um delicado bater na porta da sua
casa. Toc toc toc. Gritou: “Já vou!” Fechou o chuveiro e enrolou-se em uma
toalha. Antes de abrir a porta, espiou pela janela, por uma fresta deixada
pelas cortinas, para ver quem era. Enxergou apenas a cintura e o quadril da
moça, mas aquela marca de biquíni era inconfundível. A sua nova vizinha de
frente estava parada na porta da sua casa.
Correu para o quarto para pôr uma
roupa, pensou melhor e achou que apenas com a toalha ficaria mais sexy. “Sabia
que aqueles meus olhares, com sol do fim de tarde batendo no meu rosto, ela não
resistiria”, gabou-se. Paquerava a nova vizinha deste que ela se mudara, há cerca
de três meses.
Cibele, assim ela chamava-se, uma
morena, de pernas torneadas, olhos verdes, estilo asiático, com bolsinhas
abaixo dos olhos. Aquelas bolsinhas! Por onde passava os homens comentavam: “Essa
é de largar a família”. Já as mulheres invejavam tamanha perfeição. Olhavam-na
minuciosamente, dos pés à cabeça, à procura de um defeito. Não achavam!
Fabinho gritou novamente um “Já vou!” E
planejou antes de abrir a porta: “Recebo-a, convido-a para entrar, ofereço algo
para beber, dou aquela xavecada básica e... Craw! Pego e levo-a para cama, tiro
toda a sua roupa com dentes e lhe proporciono uma tarde de amor que ela nunca
pensou que teria... Eu sou o cara! Aposto: depois disso não terei mais sossego
com essa mulher, vai ser todo o dia batendo nesta porta... Eu sou o cara mesmo!
As mulheres chegam a me procurar”.
Fabinho olhou-se no espelho, escabelou
o molhado cabelo um pouco mais, estufou o peito e foi abrir a porta. Girou a
chave e nada da porta destrancar. Tentou uma, duas, três vezes e nada. Gotas de
suor já escorriam pelas frontes. Foi então que na quarta tentativa, quase
quebrando a chave, ele conseguiu. Abriu a porta, a visão ofuscou-se por causa
dos raios de sol que bateram em seu rosto. Colocou a mão na testa, e então pôde
contemplar toda a beleza de Cibele. Deixou escapar um “Meu Deus!” E Emudeceu.
Era a primeira vez que a apreciava tão de perto. Ficou olhando-a, pasmo. O
braço escorado no arco da porta tremia. Ela fitou-o seriamente e cumprimentou:
“Oi”. Fabinho, gaguejando, respondeu: “O-o-o-iiii!”
“Você que é o Fábio?”, perguntou,
fazendo os movimentos de lábios mais sexy que Fabinho já viu. Ele grunhiu um
an-rã “An-rã!”, olhando para o vão” existente entre os volumosos seios. Ela lhe
entrega um envelope e fala: “É para você. O carteiro largou enganado em minha
casa”. “Ooobrigado!”, sussurra Fabinho, contemplando o piercing no umbigo de
Cibele.
Então, ficam por alguns segundos
olhando-se em silêncio.
Sem mais o que ter a fazer ali, Cibele despede-se: “Tchau,
Fá-bio!”. O “bio” sendo pronunciado fazendo biquinho. Ela dá meia volta e ruma
para casa. Coube ao Fabinho acompanhar o “bailar” das rígidas nádegas naquela
mini-saia. Quando saiu do estado hipnótico, gritou: “Tchau!”. Mas ela já ia
longe.
Fechou a porta, retomou a cor e a
confiança, e consolou-se: “Ufa! Que mulher! Pena que é muito antipática. Não
fala nada, nem uma abertura sequer... A minha sorte é que não dei em cima dela.
Como é bom conhecer as pessoas!”.
* Jornalista e cronista
As uvas estavam verdes. É mesmo. Elas não estavam maduras.
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