A sociedade de consumo é o
problema, ninguém pode negar
* Por André Falavigna
Muita gente vê motivos para
imputar ao capitalismo todas as culpas de todas as mazelas que vê ou que ouve
dizer que alguém viu. O problema é a com a sociedade de consumo. Sei.
Eu não vou nem discutir esse
troço. É tanta gente falando que a sociedade de consumo é uma porcaria que, se
por algum acaso, ela não for mesmo uma porcaria, não vou ser eu quem vai causar
um constrangimento desses, dando uma notícia dessas. Estou tão convencido da
conveniência dessa posição que resolvi fazer umas pesquisas por aí e descobrir
o que, na maldita sociedade de consumo porca capitalista injusta e malvada,
poderia me incomodar. Porque por tudo quanto é lugar que eu ando todo mundo só
fala nisso (experimente tentar achar um defensor da sociedade de consumo), e já
estou ficando meio sem assunto.
Eu sou muito prático. Fui direto
ao ponto. Pensei assim: o que eu consumo? Quer dizer, o que eu consumo e que
posso assumir que consumo lá no Comunique-se, sem desdobramentos criminais? Não
foi difícil. Reparei que quando quero entregar-me ao vício maldito da
satisfação socialmente injusta e safada vou a um lugar onde se venda comida e
bebida boa. Um lugar onde eu possa me alienar bem gostoso.
Agora que o Pão de Açúcar deixou
de adaptar-se ao perfil de consumo de cada bairro (antigamente as lojas
ofereciam produtos e cobravam preços conforme o poder aquisitivo inferido do
perfil de compra de cada região; hoje eles metem logo um Compre Bem ou um Extra
para a ralé e mantêm a bandeira Pão de Açúcar apenas para as localidades onde o
consumo é de alto padrão), algumas de suas lojas tornaram-se lugares
irresistíveis para pessoas sem solidariedade, responsabilidade social e
consciência cidadã bolivariana. Um nojo, um nojo. O do Jardim América me serviu
de laboratório.
Encontra-se de tudo nesses
supermercados. Logo percebi que facilmente compreenderia o porquê de tanta
reclamação contra o Sistema. Com tanta coisa à disposição, alguma haveria de
abrir meus olhos. Não demorou muito, não. Prestando atenção em tudo, e não só
no que é interessante para pessoas normais (queijo, carne, vinho, azeite, pão,
cervejas e utensílios relacionados), resolvi verificar o que as gôndolas
freqüentadas por são-paulinos e congêneres ofereciam.
Contrito, notei como fui tolo
durante tantos anos, insensível mesmo, consumista a não mais poder. Por culpa
de pessoas como eu, uma série de coisas indignas acontecem na sociedade de
consumo. O que são aqueles sabores novos daqueles suquinhos em pó?
Carambola Selvagem? Frutas
Vermelhas Silvestres? Pêra Indígena? Suco tem que ser de laranja, limão,
abacaxi, maracujá, essas frutas terrestres. O resto é semiótica (ou ideologia
das classes dominantes, nem sei mais), principalmente aqueles de sabores misturados
(Manga com Mamão, por exemplo). E o gosto daqueles troços? Comprei uns, a esmo,
para fazer em casa. Fiz
um, a esmo também, sem olhar o sabor. Depois do primeiro gole, não tive
dúvidas: só podia ser de Sêmen de Macacos Loucos. Uma indecência. E o pior é
que eles pertencem a uma linha de bebidas ditas saudáveis (leia-se light, diet,
zero ou qualquer outra são-paulinice do gênero). Ou seja, não passam de uma
empulhação afetada.
Outras coisas ajudaram a abrir
meus olhos. Havia cerveja sem álcool, mas não uma marca só. Várias marcas. Se é
sem álcool, que diferença faz? Ou vão me dizer que é pelo sabor, que pode ser
melhor ou pior? Se disserem, me obrigam a ser indelicado. O sujeito que compra
cerveja sem álcool ou é diabético ou é alcoólatra, certo? Se for diabético,
acho que não é o caso de se iludir. O que não querem é que ele fique bêbado, e
o que ele quer é ficar bêbado (caso contrário, sendo diabético, não quereria
comprar cervejas). Um dilema insolúvel que a oferta de diversos sabores de
consolo não resolverá. Se é alcoólatra, a coisa piora. Por algum acaso, quando
o digníssimo beberrão enchia a lata (a rigor, a esvaziava), era pelo sabor da
cerveja? Não, era pelo álcool que ele idolatra e que o deixava bêbado. E agora,
que ele não bebe mais, vai precisar de várias opções de sabor? Por quê? Para
ver se erraram de líquido em algum vasilhame? Heim? Como é que eu nunca notei
isso? Deve ser por essas e por outras que o Fidel Castro fuzila umas pessoas
sem julgamento, processo, essas encenações burguesas.
Também notei que nesses templos
de exclusão social há papel higiênico de inúmeros sabores (mais do que de
cervejas sem cerveja). Papel higiênico de pêssego, de morango, de kiwi. Já li
muita piadinha a respeito do assunto e não vou me prolongar. Só quero deixar
uma nota: acabaram até com o Papel Primavera, um símbolo de nossa identidade
nacional! Só pode ter sido mais um lance do imperialismo globalista perpetrado
pelos meninos de recado do Fundo Monetário Internacional e, talvez, até mesmo
pelos meninos de recado do FMI.
Para quem não lembra ou nunca
usou papel higiênico (uma amiga minha, escritora e mineira, cujo nome
desgraçadamente não me ocorre agora, utiliza apenas lenços umedecidos, desde
bebê), o Primavera era o papel oficial do traseiro médio brasileiro. Rosa e
grosso, era tão áspero que possuía propriedades disciplinadoras. Uma vez, um
primo meu, lá da Mooca, estancou uma hemorragia interna comendo um rolo de
Primavera. É verdade.
E não é que amenizaram o
Primavera? Agora ele é branco e mais liso. Pelo menos ainda é muito ruim, pelo
que eu entendi. E tem um relevo estranho. De qualquer forma, ficou com um
aspecto aburguesado, um ar tucano. Não gostei. Fiquei sentido.
Há também uma sessão de carnes
para churrasco onde se pode encontrar uma marca chamada “Montana Grill”. Como
antes eu era descomprometido com os pequeninos, eu comprava alguns cortes dessa
marca, num ato egoístico fundado no excelente sabor da carne que aqueles
vendidos vendem. Felizmente, me fizeram observar que os proprietários (ou coisa
que o valha) de “Montana Grill” são Chitãozinho e Xororó, os pais de Sandy e
Júnior. Hei, esses caras cantam em especiais da Globo, que gosta deles, e
aparecem no Faustão. Comprar carne deles, por melhor que seja a carne,
significa perpetuar o círculo-vicioso que, além de esfaimar os oprimidos,
inculca-lhes música reacionária. Ha-rá (a interjeição, não a banda)! Nessa não
caio mais. No dia em que lançarem beterrabas orgânicas apadrinhadas pelo Chico
César, voltamos a conversar.
O tanto que avancei, num só dia,
foi como que um banho de civilidade cidadã solidária participativa comunitária
de base. Eu até fiquei tonto. Inclusive, estou tonto até agora. Aos poucos, sei
que vou me ambientar melhor e me integrar de vez no Um Outro Mundo Possível. É
bom mesmo o pessoal ir se integrando assim, ideologicamente (de coração,
sabe?), enquanto é tempo. Porque, pela experiência acumulada e conhecida a
respeito do tema, quem não se integra de um jeito, se integra de outro; de um
outro jeito um tanto quanto mais físico, é verdade. Mas que se integra, isso lá
é. De qualquer forma, qualquer coisa vale desde que seja para acabar de vez com
a desigualdade, não é mesmo? Ninguém pode negar.
(*) André Falavigna é escritor, tendo publicado dezenas de contos e crônicas
(sobretudo futebolísticas) na Web. Possui um blog pessoal no qual lança,
periodicamente, capítulos de um romance. Colabora com diversas
publicações eletrônicas.
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