terça-feira, 1 de dezembro de 2009




O retorno

* Por Risomar Fasanaro

Toda a terra era feita de silêncios. De silêncio e sombras, de árvores e pássaros, de pássaros e árvores. A vida era um longo deslizar de águas e folhas, de asas e flores, mas um dia o chão rompeu-se, rasgando sombras e quietudes agitando gitiranas e gafanhotos.

Assustadas, as árvores viram surgir das entranhas da terra um ser desconhecido. Da terra viram quando brotou um ser feito de carne que se mexia e subia até mostrar-se por inteiro, desvencilhar-se do pó que o cobria, e arrastar-se por entre a grama.

Aterrorizadas, permaneceram imóveis. Galhos e folhas tão crispados, que nem a mais forte ventania conseguiria mexer nenhuma de suas folhas. Mais tarde perceberam que o novo ser emitia um som. Não sabiam de que parte dele saía, mas o acharam belo.

Belo como o canto dos pássaros, os raros seres de outra espécie que elas conheciam.

Procuraram nele folhas, mas não havia. Mesmo assim uma velha jaqueira logo o adotou para si, como se ele fosse um dos galhos que dela tivesse brotado. Não era. Com tristeza percebeu que ele não tinha raízes como ela e todas as outras. Também não tinha asas como os pássaros, por isso arrastava-se por todos os lugares.

Seu tronco era liso e sedoso como o talo de um lírio, o que a levou a tomá-lo por um vegetal recém-nascido.

E a jaqueira o amou desde o primeiro instante. Amou-o como só as árvores sabem amar – sem lhe perguntar quem era, de onde viera, e pensando em lhe dar tudo: folhas, flores e frutos. E assim foi. Não só com ela. Ele possuiu todas as árvores e o tempo passou como passam os rios.

O ser sem raízes não deu flores nem frutos, mas cobriu-se com todas as cores, todas as flores, todas as penas, todos os galhos. E comeu todos os frutos que desejou. Penetrou nas florestas e descobriu mistérios do verde que só as árvores conhecem. Mergulhou na alma dos rios, ouviu segredos dos igarapés e aprendeu os segredos dos deuses das florestas.

Por onde andava absorvia o melhor de todas as espécies, mas nada oferecia em troca. Devorador insaciável, por onde passava espalhava o medo e a destruição. E novos seres daquela espécie foram surgindo. Milhares deles arrastando-se pelo chão e logo depois caminhando pelas florestas, enganando pássaros, rios e peixes com seu canto. Enfeitiçando as matas com seu talhe esbelto, seu modo elegante de se movimentar por entre as árvores e de mergulhar nos rios.

A sombra das árvores já não conseguia ocultá-los; tomavam conta de todas as campinas, de todos os bosques. Já não havia frutos suficientes para alimentá-los, pois se a principio tiravam apenas o necessário, logo começaram a cortar galhos e troncos, a jogar frutos uns nos outros quando se desentendiam, ou apenas pelo prazer de jogar.

Pilhas e pilhas de troncos apodreciam sob a chuva, sem que isso os incomodasse.

As árvores já não floriam. Os poucos galhos secos e cinzentos se crispavam de revolta. Já não havia por que florir, por que enverdecer. Nos rios inundados de mercúrio, os peixes desapareceram. A floresta encolheu-se em seu cinza e desviveu luas e luas de incerteza e inquietudes.

Um dia um cipreste, distraidamente, tomou entre seus galhos a mão de um daqueles seres. Prendeu-a até esmagá-la e achou-a deliciosa. Comeu dedinho por dedinho, enquanto o sangue escorria por entre suas as folhas, encharcando-as. O ser gritava e se debatia, tentando livrar-se da árvore, mas não conseguiu.

Ao verem a expressão de felicidade do cipreste, as outras árvores a imitaram, e a euforia tomou conta da floresta, sob os gritos e protestos dos seres sem raízes.

Em poucos meses já nada mais restava, além da lembrança daqueles olhos azuis à hora do sol posto, saboreando seus frutos.

Nada mais havia daquele toque antes suave, depois grosseiro, das mãos que tiravam suas flores, seus frutos, que traziam máquinas poderosas que dizimavam suas irmãs. A floresta se calou. Nem mesmo o canto dos pássaros havia. Apenas o ruído estridente dos grilos e cigarras.

Agrotóxicos encharcaram a terra e nunca mais possibilitaram o nascimento de novos seres daquela espécie. Apenas silêncio e sombras, pássaros e árvores. Árvores e pássaros, e a vida se fazia em um longo deslizar de águas e folhas, de asas e flores.

* Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.


4 comentários:

  1. Quem dera se houvessem nas florestas seres mágicos
    protetores e vingativos, que ao menor toque do machado dizimassem o inimigo predador.
    Sem palavras Risomar!
    belíssimo!
    beijos

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  2. Mitológico, fabular, mais que tudo encantador, seu texto confirma o perigo que o individualismo da Humanidade, exacerbado por valores materiaias em excesso, sem a mínima compreensão de que faz parte do Todo, representa para o planeta e para o cosmo. Sim, de certa forma, somos mesmo o tal vírus que a tudo destrói, implacável, psicopata. Parabéns, Ris.

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  3. Bela reflexão . Alerta !
    Infelizmente, o Planeta Terra está doente e a culpa é do homem . Não satisfeito em destruir-se, acaba também com a " MÃE NATUREZA" que cheia de amor nos acolhe num espetáculo belíssimo. Pergunto : Até quando ?
    Lindo texto!
    Ris, momento de muita inspiração !!!
    Senti daqui todo o frescor da natureza....das plantas, das árvores, arbustos....

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  4. Obrigada, Núbia, Daniel e Celamar
    Que maravilha ser lida por vocês. Obrigada pelo incentivo!
    Beijos nos três,
    Ris

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