terça-feira, 1 de fevereiro de 2011




Leia nesta edição:

Editorial – O livro perdido.

Coluna À flor da pele – Evelyne Furtado, crônica “Indefinição”.

Coluna Observações e Reminiscências – José Calvino de Andrade Lima, crônica “Forte do Brum: ontem e hoje”.

Coluna Lira de sete cordas – Talis Andrade, poema “Cartão de visita”.

Coluna Porta Aberta – Fabiana Bórgia, crônica “Tinha uma pedra no meio do caminho”.

Coluna Porta Aberta – Ademir Antonio Bacca, poema ”Posologia”.

Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.

O livro perdido

O escritor nem sempre consegue completar sua obra antes de morrer. Às vezes, planeja escrever um último livro e não dá tempo. Em outras ocasiões, até inicia a sua redação, mas não consegue terminar. Há casos, ainda, em que a obra, afinal, é concluída, mas não passou pela revisão final. Não ficou, portanto, em condições ideais de ser publicada. E as situações desse tipo se multiplicam. Afinal, a menos que a pessoa esteja muito doente, é impossível prever, com dose razoável de acerto, a data da própria morte. Mesmo sofrendo doença terminal, a morte é imprevisível.
Em alguns casos, parentes muito chegados, ou amigos bastante íntimos, concluem os livros inacabados e os lançam postumamente. Estes, todavia, são raros. Há editores que publicam as obras mesmo inacabadas, dependendo do quanto o autor já escreveu e, principalmente, da sua importância histórica. Na maioria dos casos, porém, os originais dos livros inconclusos se perdem ou, quando não, se misturam aos papéis pessoais do autor até que um dia alguém jogue fora, durante uma faxina qualquer. Uma pena!”
“Quase” aconteceu coisa parecida com o último livro do poeta joseense (uma das figuras centrais da história Semana da Arte Moderna de 1922), Cassiano Ricardo. Em fins de 1973, ele estava trabalhando em seu 14º livro, previsto para ser lançado até meados do ano seguinte, intitulado “Dexistência”. Todavia, não deu tempo. Em 14 de janeiro o escritor morreu
Dada a sua importância para a literatura brasileira, como expoente do modernismo e membro da Academia Brasileira de Letras, sua morte causou, como seria de se esperar, grande consternação nos meios culturais e literários. Tanta, que todos até se esqueceram do livro que estava escrevendo.
Não se sabe por qual razão, a obra se perdeu no gabinete de trabalho do escritor. Procura daqui, mexe dali, remexe esta pilha de papéis, revira aquela outra, e nada dos originais aparecerem. E, dessa forma, “Dexistência” foi dado como obra perdida e ninguém falou mais nisso. Essas coisas, convenhamos, às vezes acontecem. E sequer são tão raras de ocorrer, como muitos podem supor.
Isso já aconteceu comigo, antes da era do computador, e não apenas com um único texto, mas com pilhas deles, guardadas, vias de regra, em pastas. Creio que apenas em uma única ocasião deixei de localizar esses “papéis perdidos”. Usualmente os encontro, não raro, porem, uma década depois de haver sentido falta deles e precisado achá-los. É sempre assim. Parece coisa do Tinhoso!
Pois foi o que aconteceu com o livro de Cassiano Ricardo. E, em agosto de 2010, 36 anos depois, eis que os originais apareceram. Um pesquisador, mexendo nos papéis do poeta, nos arquivos da fundação que leva o nome dele, em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, deu de cara com essa coleção de poemas. Hosana!!! É sempre assim, encontramos as preciosidades que perdemos quando menos esperamos e, geralmente, quando não precisamos delas.
No Rio Grande do Sul, minha terra natal, quando alguém perde algo desse tipo acende uma vela para o Negrinho do Pastoreio e... tiro e queda. O que estava desaparecido, reaparece em três tempos. Embora gaúcho de nascimento, estou uma “eternidade” longe dos meus pagos. Anos atrás, numa das minhas raras incursões a Porto Alegre, caminhando pelas ruas de determinado e tradicional bairro residencial, algo me chamou particularmente a atenção.
No fundo do quintal da maioria das residências, havia uma espécie de “casinha”, dessas de pombo, porém no chão. Para casas de cachorro, eram muito pequenas. Para abrigo de aves, estavam em lugar errado, pois deveriam estar no alto. Foi quando um parente me explicou para o que as tais “casinholas” serviam: para acender velas para o Negrinho do Pastoreio, quando alguma coisa era perdida.
Bem, voltemos a Cassiano Ricardo. Já escrevi muito, pelo menos umas dez crônicas, sobre esse poeta, de imensa criatividade, que influenciou gerações. Seu nome completo era Cassiano Ricardo Leite. Nasceu em São José dos Campos em 26 de julho de 1896. Na famosa Semana de Arte Moderna de 1922 estava com 25 anos. Iria completar 26 em julho. Morreu na cidade do Rio de Janeiro em 14 de janeiro de 1974. E, como informei, sem que pudesse entregar à editora seu derradeiro livro. Certamente, a família fará isso agora, que ele foi encontrado.
Dessa forma, “Dexistência”, finalmente, irá se juntar a “Dentro da Noite” (1915), “Vamos caçar papagaios” (1926), “Borrões de verde e amarelo” (1926), “Martim Cererê” (1928), “O sangue das horas” (1943), “Um dia depois do outro” (1947), “Poemas murais” (1950), “A face perdida” (1950), “O arranha-céu de vidro” (1956), “Poesias completas” (1957), “22 e a poesia de hoje” (1962), “Algumas reflexões sobre poética de vanguarda” (1964) e “Jeremias sem-chorar” (1964), em sua farta e eclética bibliografia. Por que eclética? Porque vários desses livros que mencionei são de ensaios, e muito bons. A “descoberta” de “Dexistência” é, sem dúvida, régio presente para os admiradores de Cassiano Ricardo e para os amantes de boa poesia.

Boa leitura.

O Editor.

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Indefinição

* Por Evelyne Furtado



Você é o encontro do primeiro casal. É o choro, o berço e a mão que me ergueu. Você é ternura e secura, abrigo e abandono, lar e rua. Você é esboço e arte pura.Som de gaivotas, norte, proximidade do mar. Você é o amor e o avesso. Dono e posseiro.


Descuida e cuida. Luz e breu. Mel e sal. Leite derramado. Fome e desperdício. Você é manhã, tarde, noite e insones madrugadas. Você é tempo bom, é frio, é calor, é (meu) vento brando. Você é tempo desigual.


Você é o que olha, é, também, quem o olha e o olhar que o ignora. Intensa presença em dolente ausência, você completa e desfalca. Põe e tira. Acalma e desassossega. Arranha e sopra. Chega e sai.


Você é instinto e civilização. Memória e esquecimento. Desejo e solidão. Sonho e cotidiano. Mocinho e bandido. Herói ancestral. Você é Eros e Tânatos. Tantos. Múltiplas vontades, vagas possibilidades. Você é céu de brigadeiro e marcas de pneus na minha estrada. Rio que corre devagar. Você é mar aberto, âncora e vaporoso cais.

• Poetisa e cronista de Natal/RN



Forte do Brum: ontem e hoje

* Por José Calvino de Andrade Lima


Em 1630 deu-se início à construção de um forte no istmo de Olinda, ao norte e nas imediações do Forte de São Jorge, concluído depois pelos holandeses, que lhe impuseram o nome de Bruyne, alterado pela nossa gente para Brum.

No local onde está situado a fortificação, havia em 1595, um forte denominado de Bom Jesus. Em 1629 deu Matias de Albuquerque início a construção do Forte do Brum, sendo incumbido das obras de execução o engenheiro Diogo Paes, por cujo nome ficou conhecido o novo forte.

Ainda não estava concluída, quando foi tomada pelos holandeses em 1630, que terminaram a sua construção e deram-lhe o nome de Forte de Bruyne, em honra a John Bruyne, presidente do conselho político de Olinda. Da artilharia antiga da fortificação ainda restam 7 canhões holandeses, tendo 2 a data de 1623, 1 a de 1629, 4 sem data, todos com a marca da Companhia das Índias Ocidentais.

Esta Fortaleza é uma página viva da nossa história, a lembrar todo o valor dos que se empenharam na grande luta com os holandeses, sem esquecer os heróis dos movimentos de 1817 e 1824 (Confederação do Equador).
Situada ao norte do Recife, consta de um quadrado, com uma longa cortina para o lado do rio Beberibe. Importância estratégica do local pela entrada da barra, observar as pedras dos arrecifes para o lado do mar. Havia ainda uma capela dedicada a São João Batista de onde vem a designação em muitos documentos de Fortaleza de São João Batista do Brum.

Hoje o forte está bem conservado, sendo gerenciado pelo Comando da 7ª Região Militar/7ª Divisão de Exército. Está sendo muito visitado, entre os visitantes estão os estudantes de todos os níveis, ONGS, grupos da terceira idade, turistas nacionais e estrangeiros.

As visitas são de terça-feira a sexta-feira, das 09:00 hs às 16:30 hs. Sábados, domingos e feriados, das 14:00 hs às 17:00 hs. Inclusive o forte faz também locação para reuniões, casamentos, formaturas, aniversários... O Forte do Brum fica na Praça da Comunidade luso-brasileira, s/n, próximo à sede da Prefeitura Cidade do Recife, Cais do Apolo- Brum.


• Formado em comunicações internacionais, escritor, teatrólogo, poeta, compositor, membro da União Brasileira de Escritores, UBE-PE e rei do Maracatu Barco Virado. Como escritor e poeta, tem trabalhos publicados nos jornais: Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio, Folha de Pernambuco e em vários sites... Tem 11 títulos publicados, todas edições esgotadas e um (1) inédito. Em 2007, integrou-se na Antologia (Poetas Independentes).



Cartão de visita

* Por Talis Andrade

Pobre não tem
cartão de visita
Pobre reside
em algum recanto
de difícil acesso
um lugar perdido
a casa escondida

Pobre não recebe visita
A casa não tem espaço
não tem aconchego
sequer endereço

Pobre não recebe visita
Da casa de pobre
fogem os parentes
os aderentes

Da casa de pobre
derruba-se a porta
invadida
pelos oficiais de justiça
os cobradores a polícia

Visita em casa de pobre
visita da senhora morte
que vem sem aviso
embora morte anunciada
desde quando se nasce

Morto em casa de pobre
não tem sentinela
nem arrasta povo
no saimento do féretro
É morto sem reza
viático e vela

* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).



Tinha uma pedra no meio do caminho



* Por Fabiana Bórgia

Tenho imensas plantações de sonhos. Na verdade, latifúndios. Já escrevi sobre isso, mas o tema não é repetitivo. Planto. Adubo. Faço chover. Respeito os períodos de seca. E hoje descobri que tudo sempre depende de chão. De algumas certezas.

As incertezas devem ser deixadas ao solo, e não espalhadas pelo vento. As sementes têm o potencial pronto. O terreno tem que ser fértil. É preciso fortalecer o solo antes de qualquer outra iniciativa.

Tenho podado dificuldades, alinhado as folhas, impedido pestes. Amadurecer dói, mas é libertador. Paciência é virtude que deve ser semeada junto às demais. Não se cresce do dia para a noite.

O que eu tenho plantado além de sonhos? Resolvi deixar os sonhos germinando lentamente. Quero respeitá-los. Tenho plantado meus pés. Resolvi tirar os sapatos, andar descalça, sentir a firmeza do que eu posso pisar. Uma vez ou outra, aparece uma pedra no meio do caminho. Mas não estranho. Drummond já havia me alertado. Confesso que gosto. O caminho está mapeado.

• Escritora por vocação e advogada por formação. Paulista por natureza e carioca por estado de espírito. Engenheira de sonhos: alguém em eterna construção. Autora do livro “Traços de Personalidade”

Posologia

* Por Ademir Antonio Bacca

da vida tenho provado
doses ousadas de paixões,
daquelas que marcam fundo,
mesmo que efêmeras,

daquelas que abrem caminhos
mesmo quando não levam
a lugar algum

tenho provado da vida
doses amargas de solidão,
daquelas que fazem da paixão
relógio de ponteiros cansados

da vida tenho provado
doses de sentimentos confusos
que as noites me servem
em goles desesperados

daqueles que viram tudo
de pernas pro ar
e depois se vão
no lamento do vento

tenho provado da vida
doses ousadas de paixão
mas do sonho,
eu sempre bebo a dose exata.

(Do livro “O Relógio de Alice”).

* Jornalista, poeta, contista e produtor cultural