terça-feira, 1 de setembro de 2009


Leia nesta edição:

Editorial – Desafios da ficção científica.

Coluna À flor da pele – Evelyne Furtado, crônica “A mulher e o livro”.

Coluna Tecelã de emoções – Risomar Fasanaro – Crônica, “Quicho da Mariela”.

Coluna Lira de Sete Cordas – Talis Andrade, poema “Ad petendan pluvial”.

Coluna Porta Aberta – Mara Narciso, crônica “Dois tempos e uma quase história”

Coluna Porta Aberta – Carlito Azevedo, poema “Realismo...”.

Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.

Desafios da ficção científica

A ficção científica é, hoje, um campo imenso, virtualmente infinito, como parece ser o universo – pelo menos para nós, humanos, que diante dessa massacrante grandiosidade, somos menos do que o mais minúsculo e invisível dos vírus – para a Literatura. Podemos dar asas à imaginação e criar mundos e mais mundos que talvez existam alhures ou (o que é mais provável) que só tenham existência em nossa fértil, se não delirante imaginação.
Esse tipo de história é, portanto, filão inesgotável e muito explorado em nossos tempos, o que não é de se admirar. Tanto que há várias revistas especializadas em ficção científica. Há editoras que só publicam livros com esses enredos, por serem garantia de excelentes vendas e, por conseqüência, de crescentes lucros.
Blogs, os mais diversos, e inúmeros sites da internet, por seu turno, abrem espaço para esses ficcionistas, que misturam ciência com literatura e conseguem popularizar conceitos físicos, químicos, biológicos e astronômicos, além de nos entreter. Aqui no Literário já tivemos um colunista, Edmundo Pacheco, que era especializado nesse tipo de histórias. Além disso, publicamos pelo menos uma dezena de contos de colaboradores com estas características.
Os escritores de ficção científica, porém, têm na verossimilhança das narrativas seu grande desafio. Se os enredos forem surreais e absurdos demais, não vingam. Têm que parecer, mesmo que minimamente, com a realidade. E para escreverem contos, novelas e romances consistentes têm, além de contarem com a indispensável técnica literária e o seguro domínio da linguagem, que ter sólido conhecimento de ciências. Nem todos têm. Por isso, nem todos são bem-sucedidos, nem se tornam best-sellers.
Não é de se estranhar essa sanha das pessoas pela ficção científica. As conquistas tecnológicas do século passado e do início deste, notadamente as que se referem ao espaço, aguçam, excitam e agitam cada vez mais a imaginação popular. Ademais, nunca se falou tanto em UFOs, ÓVNIs, ETs e quetais quanto agora.
Há, até, um desvio psicológico que se torna cada vez mais comum, ao qual, por isso, os especialistas estão cada vez mais atentos: o de pessoas que garantem terem sido “abduzidas” por seres extraterrestres. Uns asseguram que os ETs lhes “teriam implantado chips” em partes diferentes do corpo. Outros, acusam-nos de manter relações sexuais com eles, à sua revelia. Terceiros se queixam de terem servido de cobaias para experiências científicas pavorosas por parte dos alienígenas. E vai por aí afora.
Não se trata, todavia, como se pode pensar a princípio, de pessoas mentirosas, ávidas, apenas, por notoriedade, mesmo correndo o risco de descambar para o ridículo. Na sua mente doentia, os relatos que fazem são absolutamente verdadeiros.
São indivíduos com graves desvios mentais, comportamentais e/ou psicológicos, que se auto-sugestionam e atribuem a uma absurda e impossível “abdução” seus males, fracassos e sofrimentos. Como se vê, milhões de pessoas estão receptivas ao sobrenatural que pode, quem sabe, se tornar natural um dia.
Vá se saber se existem ou não seres vivos em outros recantos do espaço, a que nem os mais potentes dos nossos telescópios vislumbram! E se existirem, vá se saber se são inteligentes e se contam com avançadíssimas tecnologias, das quais estamos distantes a milhares de anos-luz! Porquanto, se não contarem com tamanho avanço tecnológico, jamais chegarão até nós e nem interferirão, de alguma forma, em nossas vidas!
Afinal, como Albert Einstein constatou certa feita, “toda grande descoberta científica é precedida, invariavelmente, pela imaginação”. E fertilidade imaginativa, convenhamos, é o que não falta às duas partes envolvidas em Literatura. Tanto aos leitores, ávidos por fantasias que tenham potencial (mesmo que remotíssimo) se tornarem realidade, quanto, e principalmente, aos escritores, que criam mundos e seres brotados exclusivamente de suas cabeças e que, para sua surpresa e estupor, um dia podem (quem sabe) se revelar reais. Mas têm que ser, minimamente, verossímeis.

Boa leitura.

O Editor.



A mulher e o livro

* Por Evelyne Furtado

Passa os olhos pela capa e avidamente se dirige às primeiras palavras. Não sem antes pôr seu nome na página de rosto. Hábito antigo. Gesto de posse marcando o objeto que a encanta desde a infância. Só não rabisca livro emprestado. Os seus assina, põe data, sublinha o que lhe é importante e registra a sua impressão.

Se o conteúdo é sagrado; com o objeto sua relação é profana, íntima e afetuosa. Quando se agarra a um livro vive uma ligação intensa até a última página. Para os puristas é uma leitora sem escrúpulos. Vai do policial a Shakespeare na boa.

Ama Machado e J.K. Rowling. Gabriel Garcia Marques e Agatha Christie. Adora Rachel de Queiroz e admira Clarice Lispector. Saboreia os versos de Cora Coralina, venera Pessoa e Drummond. Canta baixinho, como quem está aprendendo a ler, os sonetos de Vinicius.
Passeia pelo Rio Grande de Érico Verissimo e pela França de Balzac com interesse. Leu “Raízes do Brasil” e “Leite Derramado” alternadamente: pai e filho em estilos absolutamente diversos, nem por isso incompatíveis. Ainda convive com os personagens de Monteiro Lobato como se fossem amigos de infância.

Augusto e a Moreninha, Capitu e Bentinho, Ana Terra, Gabriela, Rodrigo Cambará, Emma Bovary, Harry e Hermione, entre outros personagens, inclusive os de carne em osso em biografias como Brando, Pedro I, Pedro Nava (o personagem e o memorialista) Nelson Rodrigues e o próprio Balzac povoam seu universo íntimo.

Vive dramas, descobre culturas diversas e se apaixona por personagens como uma adolescente. Na cama, na rede, no sofá ou na praia pode se ver a mulher e o livro. Companheiros inseparáveis e fiéis desde sempre. Agora ela está entre os nórdicos acompanhando Mikael e Lisbeth em mais uma leitura instigante.

* Poetisa e cronista de Natal/RN




Quicho da Mariela

* Por Risomar Fasanaro

16 de julho, um dia chuvoso em Posadas, Argentina. Ao me levantar naquela manhã, meu primeiro pensamento foi: hoje vou ver o local onde Che Guevara passou parte de sua infância. Precisava daquele incentivo para sair dos cobertores e enfrentar o frio intenso que fazia.

Após o café no hotel, saímos para visitar o solar do Che, e depois fomos almoçar no Quicho da Mariela, uma espécie de “rancho” pertencente a uma família que foi amiga dos Guevara, embora as moças que nos recepcionem não tenham conhecido o guerrilheiro.

O local é despojado, sem paredes laterais, com algumas mesas compridas e bancos de onde víamos as moças assarem pães caseiros no fogão a lenha. Grandes cestas com frutas e o churrasco assando, tudo ali, ao lado da gente, me remetia a um dia distante de minha infância quando pela primeira vez comi churrasco.

Um sargento gaúcho tinha chegado do Rio Grande do Sul para morar na vila militar em Socorro, Pernambuco, e os colegas recepcionaram a família do novo morador com aquele churrasco. Foi um domingo de festa em que todas as mães se envolveram com aquele almoço. Umas cortavam as verduras, outras preparavam um molho de vinagrete, algumas preparavam a mesa e nós, crianças, corríamos de um lado ao outro ou subíamos nas árvores.

Ali, naquele rancho, “viajei” através do tempo, vendo as árvores que lavadas pela chuva, tornavam-se mais verdes e me fez pensar que todos os lugares do mundo têm alguma coisa em comum. Que ali reencontrei um pedaço de mim que estava tão distante no tempo quanto no espaço. Lembrei de uma frase de John Lennon: “visitei todos os lugares, mas só me encontrei dentro de mim mesmo”. É. É isso mesmo. Por mais distante que a gente esteja, fios invisíveis nos levam às nossas raízes.

Àquela altura da viagem já estávamos todos enturmados. Gosto muito daquelas pessoas que se na saída não conhecia, agora já se tornaram próximas. Gosto principalmente de ver que há naquela excursão vários jovens muito interessantes e muito gentis. Ao longo da viagem os laços vão se estreitando e o clima de amizade vai aumentando. Tanto que no momento da despedida combinamos um reencontro em SP. Encontro que, como tudo neste país, terminou em pizza. Desta vez no Bixiga.

Após o almoço fomos convidados a conhecer o pequeno museu de pedras que a proprietária do sitio, artista plástica, instalou no local. Uma das filhas da artista nos conduz até lá e me surpreendo ao ver o mural com flores de pedras incrustadas que há logo na entrada. Lá dentro inúmeras rochas, todas catalogadas pela proprietária, e mais surpreendente ainda é o jardim em que ela dispôs as pedras formando outras flores, trabalho que possivelmente é único.

Lembrei das minhas, separadas pelos lugares de origem, em vidros médios de Nescafé. Única catalogação de que a dona é capaz.

Após a visita àquele museu saímos em direção a mina de geodos de Wanda onde a emoção se renova. Mas escrevo sobre ela na próxima semana.

* Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.



Ad petendan pluvial

* Por Talis Andrade

Frágeis as alianças da arca santa
e do arco-íris
para quem não tem
os exércitos de Davi e Salomão.
Todo pacto sempre mantém o mando
do mais forte sobre o mais fraco,
o poder dos raios nas mãos de um só,
o poder da voz de trovão na boca de um só.
Por que contrariar os santos
com as procissões rogatórias?
Quem tem a água
presenteia a chuva
que sobra,
pelo prazer de ver
a terra enverdecer,
pelo prazer de ver
as flores e os pássaros.

(Do livro “Romance do Emparedado”, Editora Livro Rápido – Olinda/PE).


* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).





Dois tempos e uma quase história

* Por Mara Narciso

Tempo Um

A noite vai longe, e o ranger da rede mistura-se com o barulho do vento, dos sapos e dos grilos que vêm do rio. Não tem lua, mas tem escuridão e estrelas. O homem está deitado adiando um problema difícil de ser resolvido. A calmaria avança, a noite aprofunda-se, no entanto ele não consegue entrar na casa. Não quer dar de cara com a mulher, e foge dela há meses.

Na casinha do lado de cá, outra mulher, só que grávida de poucos meses vomita tudo e até o próprio dia. Está de entojo. Casou-se no mesmo mês do casal da casinha logo ali, onde o sofrimento tomou conta desde a primeira noite. O ruído da rede é a senha de que também hoje o casal dormirá separado.

A casada virgem contou que o casamento aconteceu há três meses e nada. O enlace não foi consumado por total impossibilidade do marido. O ano é 1954. Dezembro do ano anterior já virou a esquina, e a virgindade e o choro estão no corpo da mulher do lado.

As varandas fazem frente uma para a outra, e tudo que acontece lá, se sabe aqui. A grávida com enjôos não consegue arrumar a casa e nem fazer a comida. Fica largada na sua rede, sem balançar, para não aumentar o mal estar. Casou-se e não menstruou mais. Sabe que em seis meses nasce o filho que espera. Quando pára um pouco de vomitar, faz a comida, mas o cheiro de gordura é um sofrimento, só menor do que a penitência da esposa rejeitada, humilhada, e cheia de culpa. Inconformada, a virgem acredita que o marido não a quer por incompetência dela. Nem pensa em conversar sobre o assunto. Nem com o marido e nem com a família. Preferiu queixar-se à vizinha. Quando a outra sai correndo para vomitar, mais infeliz fica. Difícil saber quem está pior, mas a virgem sabe que a sua situação é péssima entre as piores.

Um dia, se decide e envia uma carta à mãe que vem buscá-la. É a sua redenção e a do marido. Há meses dormindo numa rede, no frio da varanda, com lua ou sem lua, sofrendo de inapetência em consumar o casamento, ansiava pela liberdade. Levada a quase esposa, fica a sensação de alforria. Livre para ser o que sempre foi: um homem inapto para a vida de casado, agora livre para escolher outro caminho, sem precisar fingir ou representar.

Tempo Dois

Muitas décadas se passaram. Agora, no século XXI, nem todos os casais são namorados. Muitos apenas ficam. Não há compromisso. Ter sexo no primeiro encontro, se não é exigência, é quase uma obrigação. Poucas moças valorizam a virgindade. É preciso não perder tempo, e o teste drive é um desejo da maioria. Casa-se mais tarde, mas ainda casa-se.

Quem trabalha com casamentos diz que nunca se casou tanto, e o mês preferencial é setembro, e não maio como antes. Um deles aconteceu há cem dias.

A família da noiva não tinha posses, mas fez uma cerimônia arrumada. No começo das chuvas o noivo veio conhecer a família. O pai da noiva gostou do rapaz, por ser bem apessoado, falante e trabalhador. Com tantos predicados, muitos acreditaram no sucesso do casamento. O noivo comprou o que foi preciso para montar o apartamento, e a noiva fez o enxoval a contento. Após o casamento viajaram para outro estado, onde o casal iria morar.

A moça, de 23 anos, não estava trabalhando ainda, mas procurava emprego por lá. A família telefonava em busca de notícias, pois sentia que ela, muito alegre até o casamento, estava em grandes silêncios, pouco dada a conversas. Tentavam falar e ela fugia, não querendo dizer nada. A mãe desconfiava que algo estivesse errado.

Uma mãe nunca se engana. Pegou um ônibus e partiu em busca de notícias in loco. Tinha mais de três meses que não via a menina. Quando a enxergou viu nos seus olhos inchados que algo tinha acontecido. Mas não tinha acontecido nada. Estava aí o problema. Virgem até o casamento, a moça continuava tão virgem quanto antes. Enquanto o tempo avançava e nada do encontro carnal acontecer, a moça, no começo, esperava o marido, que se alongava na sala e na programação da TV, e logo compreendeu tudo. Os barulhos das buzinas, e os flashes de luz da TV encontravam seus soluços e lágrimas numa dor profunda de desprezada. O rapaz dormia no sofá, enquanto a vergonha a deixava cada dia mais triste. O não-marido a informou não ter atração por mulheres. A família a resgatou e procura desfazer o casamento.

Num tempo de comunicação irrestrita, ainda assim não se diz o essencial. Pobres moços!

* Médica, acadêmica do sétimo período de Jornalismo e autora o livro “Segurando a Hiperatividade”


Realismo

* Por Carlito Azevedo

quando estes
olhos

(um zoom
de azuis?)

sobre esta
mínima

pétala de
pálpebra

deixaram correr
de fina estria
a lágrima da
raiva

não morrerão
sóis
não se apagarão
estrelas

apenas outro
sulco na super
fície da face

* Poeta