Enfoque metafórico sobre a peste
O escritor irlandês Bram Stocker foi mais um, dos tantos, a
tratar, literariamente, da peste bubônica. Tratou, sim, mas sem especificar nenhuma
epidemia determinada, como dezenas, centenas ou sabe-se lá quantos outros
fizeram. Não registrou, como outros, número de mortos. Nem mesmo lembrou os
sintomas da peste. E também não descreveu a desorganização psicológica e social
das vítimas de uma doença, cujas causas, no seu tempo, haviam sido recém-reveladas.
Não fez nada disso. Para que? O assunto estava anos-luz de ser novidade. Para
ser tratado, com um mínimo de originalidade, o enfoque teria que ser diferente
do adotado por escritores que o antecederam. E no caso de Bram Stocker, foi
mesmo.
Sua abordagem da peste nem mesmo foi feita em um romance que
a tivesse como pano de fundo. Citou-a, apenas, em um dos quatro contos que
compõem o livro que no Brasil recebeu o título de “Contos de terror e arrepios”.
A história em que trata da doença, e mesmo assim metaforicamente, foi intitulada
“The invisible giant” (no original), traduzida para o português como “O espectro
da morte”. Prefiro o título original, mais condizente com o enredo. Os outros
três contos desse excelente livro – que considero a verdadeira obra-prima de
Bram Stocker e não a que o consagrou mundo e tempo afora – são: “O convidado de
Drácula”, “A casa do juiz” e “A Índia”. Antes de tratar do “Gigante invisível”
(ou, como queiram, de “O espectro da morte”), é preciso fazer algumas
observações indispensáveis sobre esse escritor, até para contextualizar sua
citação à peste bubônica. Este será, pois, o tema dos meus comentários de hoje.
Bram Stocker (cujo nome de batismo era Abraham Stocker),
nasceu em Dublin, em 8 de novembro de 1847. Embora revelando, desde a
adolescência, um talento inato para a Literatura – tanto que escreveu seu
primeiro ensaio em 1863, quando tinha, somente, dezesseis anos de idade,
possivelmente nunca pensou em ser escritor. Tanto é que sua formação acadêmica
não tinha absolutamente nada a ver com letras. Formou-se, isso sim, em “Matemática
pura”, e com louvor, E foi além. Não apenas graduou-se nessa disciplina, como
concluiu mestrado, em 1875. Mas... a vida, queiram ou não, é regida pelas
circunstâncias, que surgem sem qualquer aviso, ao sabor do acaso, e ou
favorece, ou arruína todos os nossos planos. Foi o que aconteceu com Bram
Stocker.
Esse romancista, contista e poeta irlandês entrou para a
história da Literatura mundial por um livro que nada tem a ver com poesia e
muito menos com matemática. Para quem ainda não associou o nome à sua obra,
digamos, “emblemática”, informo que ele é o autor de “Drácula”. Isso mesmo,
consagrou esse hoje celebérrimo personagem, inspirador de milhares de histórias
de vampiro escritas na sequência por tantas outras pessoas. Quem diria?! Esse é
um daqueles tantos casos em que o sucesso, ao fim e ao cabo, por estranho que
pareça, se torna incômodo. Bram Stocker escreveu muitas e muitas e muitas
coisas literariamente melhores e mais úteis do que esse romance que o
consagrou. Mas... quem se lembra disso? Nem mesmo especialistas em Literatura
se lembram.
“Drácula”, que Stocker começou a escrever em 1890, mas que
publicou, apenas, sete anos depois, em 26 de maio de 1897, não foi seu primeiro
livro. Antes, havia publicado, pela ordem, “The primrose path” (romance), “Under
the Sunset” (contos), “Contos de terror e arrepios” (contos), “O castelo da
serpente” (romance), “The water’s Mou e Croken Sands” e “The shoulder of Shasta”.
Todos eles, ou muitos deles, muito melhores do que “Drácula”. Mas... o que de
fato “emplacou”, e rendeu-lhe a glória e dinheiro (posto que a princípio não
muito) foi essa história horripilante sobre esse personagem tão cruel que se
tornou o protótipo dos vampiros. Vá se entender o gosto do leitor! Não que o
livro não fosse bem escrito, longe disso. Mas...
Em princípio, Bram Stocker foi muito criticado,
principalmente por basear-se num personagem real, o Conde Vlad, da
Transilvânia, sujeito tão cruel e maldoso que tinha o apelido de “O Empalador”.
Creio que não é preciso explicar porque era chamado dessa forma. Todavia, como
a opinião que conta não é a dos críticos, mas a de quem compra livros, o
romance sombrio do idealista escritor irlandês logo se tornou o livro da moda e
ainda hoje é traduzido e reeditado sem cessar ao redor do mundo, esgotando
edição após edição.
Bram Stocker continuou escrevendo, e muito, mesmo após haver
sofrido severo AVC, na esperança de emplacar outro sucesso, mesmo que
remotamente parecido com a história do crudelíssimo Conde Drácula. Publicou,
por exemplo, “Miss Betty” (1898), “A jóia das sete estrelas” (1903), “Os sete
dedos da morte” (1903) e “Personal Reminiscences of Henry Irving” (1906) e nada
de sequer se aproximar do livro sobre o tal vampiro. Tentou voltar ao tema,
publicando, em 1909 “O caixão da mulher-vampiro”, em vão. Seu último romance
foi “Monstro branco” (1911), que passou batido, como os demais. Bram Stocker
morreu em 20 de abril de 1912, na cidade de Londres, para onde havia se mudado
em 1879. Caso estivesse vivo, certamente receberia, hoje, uma fortuna em
direitos autorais pelo romance “Drácula”, que está longe de ser seu melhor
livro, em termos literários. Mas quem decide é o público. E este consagrou
definitivamente a história do sádico e sanguinário Conde Vlad, da Transilvânia.
Vá-se entender o gosto do público!!!!
Boa leitura.
O Editor.
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Nem de longe imaginava isso. Obrigada Pedro, por me trazer a luz.
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