Agenda ambiciosa
* Por
Mara Narciso
O meu discreto amigo,
com menos de 50 anos, é um homem apaixonado não correspondido. Fechado, digno,
não se mostra, assim, muitos não veem nada nele, exceto a sua exuberante dor,
que flameja em seu rosto por todos os momentos do seu dia. Não se casou, não
tem filho, não tem vida social. É um poeta trabalhador recluso. A sua amada,
adorada, venerada musa é por ele cultuada como uma santa no altar. Não por ser
santa, no sentido habitual da palavra, mas por ser inacessível, ter dono, estar
noutra esfera e, aparentemente não ter interesse em dedicar-lhe nem alguns
míseros minutos por dia. A prioridade dela são todas as outras coisas para
depois, nalgum minuto parado do mês, vir mexer com meu sofrido amigo. Ela tem
outro, aquele outro que deveria preencher-lhe as necessidades, mas tal parece
não acontecer. Seu tempero existencial inclui municiar o amor desesperançado
deste sofrido amigo. Este molho acaba dando motivação ao estranho casal: ele,
louco de amor e ela interessada em manter o fã, o regra três, não deixando
desaparecer o último sopro desse amor lacrimejante, que não se apaga porque ela
não deixa, embora não o queira.
O casal em questão é
gente simples. Ele reclama de si mesmo pelas ações e verbos não conjugados vida
afora. Diz-se frustrado, omisso e pouco realizado, mesmo no trabalho. Refere
não ter coragem e nem força para dar um ponto final a esse sentimento, porém
tem energia e décadas para viver. Avisa que já fez a sua escolha: ou ela ou
nenhuma outra. Nada ou ninguém o demoverá desse amor suicida do qual de vez em
quando recebe um telefonema que, de tão esperado é atendido na aflição, com o
coração a ribombar, quase a explodir. O toque do celular e o espiar do número
dela o faz dar um salto. O tempo de silêncio mais prolongado, estratégia usada
por ela, é castigo para torturar, manipular, bater até fazê-lo implorar. Há
quem não queira escravo, mas há quem o aprecie ou até queira sê-lo. Então,
medidos em conta-gotas, esses sons de escassas palavras, frias, sem promessas,
são esmolas que aparecem de vez em quando, não para nutrir, menos ainda para
salvar, apenas para evitar o desfecho letal.
Observar tal escolha,
ver alguém optar por essa maneira de amar exige esforços que a racionalidade
duvida. Alguns sofredores por vocação preferem esperar por uma coisa que nem
nome tem do que não ter nada para esperar. Alguém atrevido, querendo
interromper tal castigo, mesmo odiado pela audácia se vê impelido a falar:
restos não são presentes e migalhas não são banquetes. Para com isso! Diante de
tamanha coragem, vem artilharia pesada, mas já esperada.
O mercado feminino
busca por homem trabalhador, bonito, inteligente, educado, sensível e
apaixonado. Mas ele precisa valorizar-se, ainda que seja ajudado pela medicina
e seus antidepressivos. Resgatar um bom amigo pode ser um desafio pretensioso,
uma agenda ambiciosa por uma causa justa, que é impedir um coração nobre de se
fulminar inutilmente. Caso não tenha forças para virar a mesa, suba sobre ela.
De lá poderá ver qual é o seu verdadeiro tamanho e qual lugar do mundo poderá
ocupar. O desencontro não precisa ser eterno.
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Nenhum comentário:
Postar um comentário