Caminhada musical
* Por
Mara Narciso
A casa da minha avó
era pura música. Na alvorada, os pardais saudavam o dia de dentro do umbuzeiro.
O meu avô Petronilho Narciso, quando jovem, tocava clarinete usando partituras.
Quando minha avó Du se punha a cantar na máquina de costura, seu “instrumento
musical”, a cantoria, ia longe. Vovó ouvia rádio e apreciava músicas de Vicente
Celestino em discos de 78 rotações. Tempos depois, gostava de Roberto Carlos e
Gigliola Cinquetti e seu “Dio come ti amo”.
Milena e Alcides, meu
pais, iam duas noites por semana ao cinema. Traziam drops, balas de goma e
chocolate Croquete Nestlé, que derretia na boca, e na cabeça as trilhas
sonoras. Pai apreciava a boa música do cinema e comprava arquivos de couro com
coleções de luxo com doze LP’s cada. A presença do meu pai em casa era
anunciada pela música, de excelente qualidade, que ecoava casa adentro, mal ele
pisava na sala. Em pequena, meu gosto musical foi moldado por Hollywood.
Minha mãe também
cantava na máquina de costura, entoando músicas ouvidas no rádio no seu tempo
de menina, e meu pai só dormia com o rádio ligado.
Numa ocasião, pai, que
jogava futebol no Casimiro de Abreu e também treinava na Praça de Esportes,
matriculou meu irmão Helder, de oito anos e a mim, de sete anos, nas aulas de
natação de Sabu, grande atleta que ensinava a meninada da cidade. Depois das
aulas, a gente ficava brincando nos altíssimos balanços, cantando aos berros
nosso amplo repertório.
Aos dez anos fui
aprender violão com Geny Rosa no Conservatório Estadual de Música Lorenzo
Fernandez, na Avenida Coronel Prates. Tive dificuldade, pois não inverteram as
cordas e eu sou canhota, então, mudaram-me para violão clássico com aulas de
teoria musical. Tentei, mas não consegui entender os princípios básicos da tal
teoria, ainda um mistério. No ditado, não acompanhava Dona Lygia Braga ou Dona
Cecy Tupinambá tocar notas ao piano, mas minhas colegas sim. Elas sabiam o que
tinha sido tocado, e escreviam o trechinho na pauta, definindo as notas e o
tamanho dos tempos do som e dos silêncios. Eu voava ao sabor da música que saia
pelas janelas cidade afora.
Aos 11 anos, a
Jovem-Guarda, com Roberto Carlos, Wanderléia e Erasmo Carlos, chegou mudando
tudo. Em 1966 Roberto Carlos veio a Montes Claros e pai nos levou para vê-lo no
Campo do Ateneu. Com problemas, não ouvimos “Mexerico da Candinha”, pois não
houve som. Foi meu ídolo por muitos anos. Um dia descobri que se omitiu nas torturas
e mortes da ditadura. Deixei-o de lado por décadas, e mais recentemente voltei
a ouvi-lo.
A incipiente
transmissão em preto e branco que a TV Itacolomi apresentava à tardinha, tinha
toscos programas musicais com suas intermináveis repetições de músicas
estrangeiras. Por falta de alternativa, olhava aquelas imagens em P&B,
desapontada.
O que eu gostava com
fervor era do radialista, tradutor, poeta e disc-jóquei Hélio Ribeiro, da
“Rádio Bandeirantes, cada dia melhor que antes”, cujo bordão repetia. Aos treze
anos, aquela voz grave e marcante, traduzindo músicas em Inglês, enfeitava
minhas tardes de menina, e marcaram-me definitivamente. Ficava magnetizada pelo
timbre de voz e pelo que ele dizia. Grudada no aparelho, bebia o que ouvia e
devaneava. Analiso agora que meu locutor tinha discurso moralista, e nem podia
ser diferente em 1968, época da sisuda Ditadura Militar, da mulher submissa e
da hipocrisia social. Lembro-me das frases: “esse programa é ouvido pela moça
do Karmann-Ghia Vermelho”. A música da introdução era “O tema do Homem do Braço
de Ouro”, instrumental que eu acompanhava assobiando.
Numa ocasião, quando
pensei que ninguém mais se lembrava de Hélio Ribeiro, descobri um Fã Clube,
enviei um texto contando a minha relação com o programa. A direção do site
elogiou. Enfim, eu era tão fã quanto eles. A lembrança ficou gravada a fogo. Já
falecido, sua voz deliciosa e icônica, continua retumbando em meus ouvidos.
Tive a fase das
baladas americanas românticas que deu vida às raras festinhas que fui, mas
segui mesmo foi a Música Popular Brasileira. Durante os seis anos de Medicina
quase nada se fazia além de estudar. Passada a fase do isolamento, e morando em
Belo Horizonte na Residência Médica, foi a vez do Clube da Esquina e de Beto
Guedes. Teve depois o rock nacional, em meados da década de 1980, já após o
nascimento do meu filho Fernando Narciso.
A música clássica
também tem o seu pedacinho de chão, e em algumas horas específicas, escolho
ouvi-la, mas a música da minha vida é “Construção” de Chico Buarque de Holanda,
que não se relaciona com nenhum fato nem pessoa. A música apenas é, e isso já é
demais. De Chico a voz, poemas, melodias, criações literárias, operísticas,
cinematográficas e ideologia eu cultuo com prazer.
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Que proveitosa viagem lítero-musical, Mara. Só achei intrigante e quase surreal o fato de você descobrir o grande Beto Guedes em Belo Horizonte, e não em Montes Claros... pelo menos é isso o que seu texto dá a entender. Abraços.
ResponderExcluirBeto Guedes nasceu em Montes Claros, era amigo do meu tio Petronilho e frequentava a casa da minha avó. Eu via o rapaz magro e calado, mas eu era uma menina. O santo só foi fazer milagre longe de casa. Obrigada, Marcelo pelo comentário tão diferente.
ExcluirCrônica gostosa de ler!
ResponderExcluirPara mim é bom ler comentários aqui, um lugar para isso, mas que nós, escritores e leitores resistimos. Obrigada, Eduardo!
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