A eterna espera da
felicidade
* Por Fernando Mariz Masagão
Não sei ao certo por qual razão vou
escrever sobre este tema, mas esta frase explodiu na minha cabeça ontem, em
meio ao meu dia, no torvelinho da rotina. Pensei ter vislumbrado uma das
facetas do mistério da vida. E neste momento, enquanto tento tirar ao meu
espírito todos os sentimentos suscitados para devolvê-los ao mundo, tenho
certeza de que o fiz. Tenho certeza, dado a inutilidade da descoberta. Todas as
verdades sobre a condição humana são prisioneiras da mais completa inocuidade.
Sem exceção, das mais vultosas às mais simples, como esta. E mesmo que um dia
possamos conhecer a nossa alma em sua inteireza, de nada isso adiantará,
impotente que somos perante nossa própria natureza. Mudamos ao sabor da
história e da evolução de nossa espécie, nada consciente ou voluntário.
Mas hoje creio ser esta espera o motor
da vida dos homens. Não é preciso maiores reflexões para constatar que a
condição humana é triste. É triste porque é a condição animal e nós o sabemos,
ou, pelo menos, sentimos. Um animal a quem é dado conhecer, criar, dominar e
que, no entanto, vai estar para sempre condenado por este dado biológico. Nosso
cóccix vai sempre nos lembrar da portentosa cauda que exibíamos por aí não faz
muito.
Há também a imensa solidão de nossa
espécie. A comunicação verdadeira é impossível, embora as tentativas sejam
inevitáveis. Fazemos contatos, e isto é tudo. As almas, como disse Manuel
Bandeira, são incomunicáveis. E já que as samambaias, as juritis, os
automóveis, os rios, as antenas de TV e os ventos, as estrelas, as laminas de
barbear, as nuvens e todo o mais também o são, nos sobra para conversar apenas
nós mesmos e Deus. E vamos e venhamos, quem é que consegue se entender? Quem em
sã consciência pode empinar o nariz e declarar: “eu sou senhor de mim, conheço
todos os meandros de minha substância.” Estes são os mais iludidos. Quanto a
Deus, bem... Deus cortou relações conosco desde que lhe furtamos a fruta. Ele
sempre teve muito ciúme do seu pomar. Não foi por falta de aviso. É, enfim, uma
solidão do caralho.
E teria sido bem menos sofrido se nós
não tivéssemos a faculdade de conhecer. Jorge Luis Borges escreveu que só os
animais são eternos pois não têm a consciência da morte. Mas os homens passam a
vida ouvindo a morte sussurrar em seus ouvidos sua bela canção de amor. Amor
eterno, de mulher pegajosa mesmo. Quem não tem, pelo menos, receio da morte?
Eis uma idéia que não me agrada em nada.
Senão vejamos, um bicho, humilhado pela
ciência impotente de sua condição, sozinho em meio a infinitude da Criação, sem
ter certeza de nada a não ser de que vai desaparecer por completo e para todo o
sempre. Só mesmo a esperança para permitir ao homem viver. Somos todos seus
filhos. E hoje acredito que o homem é fundamentalmente bom porque capaz deste
sentimento inefável que, quero crer, originou todos os outros. O que é o amor,
a amizade, a coragem, a generosidade, as artes, as ciências, as religiões e as
filosofias, senão matizes da esperança. Se nossa condição animal nos legou a
violência, o egoísmo, o instinto de sobrevivência, nos legou também a
inteligência – já que são nossas conformações biológicas (como o movimento de
pinça que fazem nosso polegar e dedo indicador e o tamanho de nosso cérebro,
entre outras causas) que nos permitiram pensar – e com esta ferramenta pudemos
sobreviver, sobreviver ao mundo feroz que nos rodeia e a nós mesmos.
Tudo obra da esperança.
A vida é um desfile de desilusões, cada
uma mais bonita e fotogênica que a outra. É uma sucessão de chateações e
problemas como regra, temperada com pequenas e grandes felicidades, à guisa de
exceção. A estirpe dos realizados é muito pequena entre os seis bilhões. A
turma dos felizes, então, é menor ainda. E mesmo assim acordamos as sete da
manhã e devotamos doze das dezesseis horas que passamos acordados fazendo algo
que não estaríamos fazendo se nos fosse dado escolher, com o único intuito de
ganhar dinheiro (a causa de todos os males modernos) para sustentarmos os
filhos que irracionalmente condenamos à mesma pena. E que irão fazer o mesmo.
Parece sina, e talvez seja mesmo expiação. Vai saber quem está certo.
Católicos, judeus, espíritas, budista, islâmicos, Platão, ou eu?
Cristo, vítima que foi dos mesmos males
comuns a todos os homens, nos ensinou o Pai-nosso, mas a Natureza nos deu a
esperança. E com isso transformou a vida de todas as pessoas numa oração que só
terá fim quando as preces forem atendidas, ou quando não pudermos mais esperar,
que é, afinal, o tudo que nos resta por ora.
*Fernando
Mariz Masagão é músico, dramaturgo, poeta e colaborador de publicações online
sobre arte, com crônicas e críticas musicais. Guitarrista e vocalista de bandas
de rock'n'roll, tem formação clássica vigorosa, em cursos de
regência sinfônica, apreciação musical e instrumentação.
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