Um gol inesquecível contra Pinochet
* Por
Urariano Mota.
Entre as imagens que
nos vêm a partir do 11 de setembro de 1973, do dia em que houve o golpe militar
contra Salvador Allende, entre tantas imagens vivas, uma poderia ser, com
razão, do presidente Allende resistindo de capacete em ultimo recurso, com
alguns fiéis militantes às portas do palácio La Moneda. Essa imagem fala de um
socialista democrata, que pela força das urnas julgava ter o poder, que é
destruído ao fim, derrotado com a eloquência maior de bombas e crimes.
Outra imagem poderia
ser também a que correu mundo, dos livros sendo queimados por soldados do
exército nas ruas do Chile. Em um país de grandes poetas e tradição humanista,
essa foto escapou do paradoxo, porque ela se fez coerente com o assassinato do
poeta Pablo Neruda pela ditadura. E depois, essa imagem dos livros no fogo é
tão simples e pornográfica, ao mesmo tempo de tamanho didatismo sobre a
ideologia fascista no seu carbono Pinochet, que um comentário passaria pelo já
visto, ao lembrar e repetir ações de Hitler a Franco, todos ótimos queimadores
de escritores, livros e inteligência.
Então falo rápido sobre
uma imagem e personagem que marcam também. Não são muito divulgados no Brasil
um gesto, a pessoa e o valor de Carlos Caszely. Ele foi um craque do futebol
chileno. A wikipédia informa que Carlos Caszely é o jogador mais popular e
querido da história do Colo-Colo e do Chile. Até hoje é chamado de El Chino, El
Rey del Metro Cuadrado, ou de El Gerente. Mas o seu maior feito é este: astro
da seleção de futebol do Chile, em cerimônia oficial dentro do palácio, no
vigor de mortes e fuzilamentos de opositores, Carlos Caszely se negou a apertar
a mão do ditador Augusto Pinochet.
Ou como ele próprio
fala desse momento raro e belo, anos depois: “Eu ouvi passos. Foi pavoroso. De
repente as portas se abriram. Apareceu uma figura vestindo uma capa, de óculos
escuros e quepe. Tinha uma cara amarga, suja, dura. Ele foi cumprimentar cada
um dos jogadores qualificados para a Copa. Quando ele se aproximou, eu botei
minhas mãos atrás das costas. Ele estendeu sua mão, mas recusei a apertar. Como
ser humano aquela era minha obrigação. Tinha todo um povo sofrendo nas minhas
costas”. Mas que coisa.
As razões do gesto,
desse heroísmo, são anteriores. Não foi um impulso louco. Antes, o jogador
havia sido ligado ao ex-presidente Salvador Allende, socialista como o
presidente morto. Depois do golpe, Caszely se transferiu para o futebol
espanhol. E o que faz a canalha do regime no Chile? Perto da Copa de 1974, os
militares sequestram, prendem e torturam a mãe do jogador. Supõe-se que isso
era uma tentativa de calar Caszely e obrigá-lo a jogar pela seleção chilena.
Entre os perseguidos da ditadura, ele era o principal jogador do futebol
chileno, estrela do Colo-Colo e da seleção. Ele achou o ato de tortura na mãe
tão estúpido, que declarou recentemente:
“Ainda hoje não está
claro por que fizeram aquilo. Eles a prenderam e torturaram selvagemente, e até
hoje não sabemos de que ela era acusada. Recordo un país triste, calado,
silencioso, sem risos. Uma nação que entrava nas trevas. Eu sabia o que viria
de cima. Eu tinha medo. Não por mim, mas por meus amigos e por mina familia. Eu
sabia que estavam em perigo por minhas ideias”.
Então sua mãe é presa,
torturada e solta, sem qualquer acusação. E pouco depois o jogador se encontra
cara a cara com o ditador, na despedida para a Copa de 1974 na Alemanha. Então
ele põe as mãos para as costas, enquanto Pinochet se aproximava a cumprimentar
um a um. Ele foi o único a rejeitar o ditador.
Enquanto escrevo, ao
lembrar esse ato, sinto um cheiro de perfume, daqueles inesquecíveis, cujo
cheiro e composição química vêm apenas da lembrança que cerca um gesto. Naquele
maldito e mágico ano de 1973, quando o mundo conhecido vinha abaixo, no momento
exato em que grandes eram as esperanças, houve esse gesto de Caszely tão pouco
ou nada divulgado. Soube faz pouco tempo. Mas que coragem, podíamos dizer. E
aqui, se espaço houvesse, deveríamos discutir o quanto estão errados os que
julgam ser a coragem um atributo de valentões, de homens que zombam do perigo.
Não é. A coragem é a fidelidade ao sentimento de honra, dever ou amor. Por isso
dizemos: que afeto e grandeza em ser fiel ao mais íntimo sentimos naqueles
braços para trás de Caszely, enquanto avançava contra ele o ditador. Com
certeza, o jogador tremia, mas não podia ainda assim ceder à mão de Pinochet no
cumprimento.
Não sei, mas esse me
parece o maior gol de placa da história.
*
Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da
redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações
Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho
renegado de Deus” e “Dicionário amoroso de Recife”. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao
ensino em colégios brasileiros.
Ao gesto dou o nome de honradez.
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