Baby Isis, uma homenagem ao teu sonho
* Por
Adaír Dittrich
Esta é a história de um
sonho que começou há mais de 30 anos, quarenta até, talvez. Um sonho que se
transformou apenas em esmaecida imagem no passar dos dias, no passar dos
tempos. Um sonho de uma Academia de Letras aqui plantada. Hoje o sonho
tornou-se palpável pela mão de muitos e de muitas.
E nesta celebração,
nesta data, eu preciso fisgar, puxar, trazer do fundo de minhas arcas os
escritos de alguém que tecia poemas nas auroras mais loucas e nos crepúsculos
mais toscos e que ousou inserir suas letras nos mais inusitados locais.
Isis Maria Tack Baukat
era a nossa poetisa, Patronesse hoje da cadeira número onze de nossa novel
Academia de Letras.
E pinço para esta
coluna um texto que deveria ter sido apenas a despedida de uma página que por
meses ela escreveu no nosso semanário “Correio do Norte”, a página que se
chamava “Estilo Nosso” e que vinha assinada por Ganem et Plus.
E a despedida foi para
Baby.
Sempre havia mensagens
para Baby. Baby, um personagem a quem os poemas eram endereçados era a tradução
de pedidos de amigos para amigos, para amores, para amantes.
Era para ser apenas um
adeus de uma página, de um jornal.
Mas foi o seu
definitivo Adeus!
Um poema, endereçado a
todos os “Babys” e a todas as “Babys”, leitores da coluna dela, estava na
edição daquele inesquecível sábado, dois de junho de mil e novecentos e oitenta
e quatro.
Naquela manhã de outono
o jornal foi para as ruas, para as casas e atingiu em cheio o coração e a alma
dos que o leram.
E naquela noite de
outono o coração de Isis acelerou muito acima do possível e todas as pressões
externas o comprimiram mais intensamente entre as finas e sensíveis paredes de
seu ser.
E ele parou.
Várias ressuscitações
fizeram-no bater por mais algumas horas para que o nosso pequeno mundo
aceitasse a despedida e para que os anjos lá em cima preparassem o dossel que a
receberia.
E no outro dia, na
tarde que findava, com um céu de chumbo carregado de gotículas, como lágrimas
derramadas em sua despedida, no alto da colina, o amigo Orty de Magalhães
Machado, hoje Patrono da Academia de Letras do Brasil/ SC – Canoinhas, leu,
dela, um poema:
“Eu queria tão pouco!
Um lugar para adormecer
a alma,
não o lugar onde
derramo o corpo,
…
Eu só queria
renascer em cada dia
num sorriso de
criança!!!”
“Baby,
talvez esta seja uma
das últimas mensagens para você.
Sabe, Baby, falávamos
numa linguagem doce de gente que gosta de proximidade de gente.. dizíamos, com
ternuras grandes, dos dias festivos de cada um, deles e delas, irmãos de tempo
e história… mantínhamos o registro semanal de coisas que devem ser contadas
porque, enquanto comunidade, precisamos saber de nós…
…fizemos o possível
para manter o “clima” inicial que era a proposição de embalar este
“berço-beira-rio” como quem nina um universo único.
Não fomos comprados,
Baby, não fizemos concessões, não alimentamos preconceitos, não aceitamos
política, não permitimos imposições. A ordem-do-dia era a linguagem dos afetos,
com parcos momentos de irritação.
Mas estamos de saída e
uma porção de canoinhenses, aqui e lá fora, se recusará a “entender”, como
também não entendemos.
Estamos de saída,
assim, com nenhum motivo grave,… apenas porque a “linguagem por demais elevada
para página social de semanário interiorano…”, porque somos “elitistas”,…
Baby, Baby,… e pensar
que teríamos tantos, ainda, de quem falar!
Permita-nos esta
tristeza, esta saudade antecipada do “Correio” tão bem dirigido por
Tokarski-poeta-Fernando de crescimento tão rápido.
Com nossos leitores da
City, conversaremos pelai, nos encontros inesperados de todos os dias.
Para os amigos de fora,
aos quais remetíamos o jornal e aos que assinam pedimos desculpas. Amigos,
desde o oeste de Santa Catarina até Brasília, passando por Joinville, Floripa,
Curitiba, São Paulo, Rio, Belo Horizonte… : a alegria durou pouco, “meninos”.
Como você, Baby, estes
são os amigos distantes que ansiavam notícias da terrinha na linguagem de
“Ganem et plus”, junto aos tantos que aqui mesmo, rente a nós, puderam
demonstrar, com carinho, a expectativa pelo “Correio”, aos sábados.
Pena. Pena que a
“linha” do jornal de repente seja outra e que estivéssemos todos equivocados.
Pena que condição de
cultura das pessoas para as quais escrevemos tenha sido confundida com a
condição de “elite social”.
Pena que não se
reconheça a capacidade imensa de entendimento da gente desta terra-elite, sim,
mas cultural… pelo menos os que nos liam, garantidamente.
Pena que se tripudia
sobre a grandeza intelectual dessas pessoas, julgando tripudiar sobre nós, nós
que somos apenas os que “cronicam” essa grandeza.
Pena que o nosso sonho
de uma Academia de Letras, não só para as letras, mas para todas as artes fique
adiada. Mas tão somente adiada. Em algum dia ela chegará.
Pedimos ao cronista que
virá o apoio devido aos profissionais de imprensa.
É possível que, um dia,
possamos voltar em grande estilo… nosso.
Até lá,
Baby-demais-para-um-só-coração, paciência.
Até lá, amigos, como
disse Francis Hime, “eu parto, portanto, sem fazer alarde, eu levo a carteira
de identidade, uma saideira, muita saudade… e a leve impressão de que já vou tarde”.
De Ganem… a et plus.”
*
Médica e escritora
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