Aroma, perfume, odor e os milagres do cerrado
* Por
Mara Narciso
O Exército Brasileiro
ligado ao Ministério da Integração Nacional distribui água potável em
carros-pipa, para 42 municípios do norte de Minas em estado de seca ou estiagem
prolongada há mais de quinze anos. Não estamos no Polígono das Secas, aquela
Área Mineira da Sudene – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste -
apenas pela localização no mapa, mas pela trágica má distribuição de chuvas que
acomete o norte de Minas Gerais desde os primórdios da nossa história. Agora,
mais recentemente, não chove nem apenas o razoável há três anos. Até a sede de
alguns municípios ficam sem água, mas em geral, são as pequenas comunidades e o
casario mais isolado que ficam secos.
Desde 2001, na nossa região,
as moradias mais distantes de fontes perenes de água possuem o sistema de
coleta de água de chuva, na forma de cisternas. Essas cisternas de placa para
coleta de água foram implantadas em 2001. Muitos criticam tais caixas ligadas a
calhas nos beirais dos telhados, levando as escassas chuvas para o
reservatório, mas são salvadoras, pois captam o suficiente para se utilizar uma
quantidade por dia, capaz de durar até oito meses, o período médio de seca mais
rigorosa na região. Quem acha o sistema ruim alega que as primeiras chuvas
levam sujeira para dentro da caixa. Solução há.
Por sua vez, quem faz a
programação de distribuição de água via pipa, sabe do alto nível de stress que
essa tarefa envolve. O planejamento logístico exige cálculo matemático de
densidade demográfica, distância, estado das estradas, negociação com pipeiros,
habilidade política com quem espera pela água e outros custos emocionais. O
Governo paga a conta.
Lá pelo mês de agosto
deste ano, notamos que as mangueiras estavam enlouquecidas, com suas folhas
perenes, porém com uma anomalia, a falta de simetria entre seus frutos, que se
mostravam em todas as fases de desenvolvimento, de flores a frutos grandes.
Pois de setembro para outubro, sem ter chovido nada, surgiram mangas maduras,
especialmente mangas-rosa e ubá.
Olhava-se o fruto perfeito, de bom cheiro e tamanho, com casca levemente
lisa, sem uma manchinha, e de gosto precioso, típico e com seu adocicado
peculiar. Inacreditável milagre. De onde veio a água para formar a manga?
Há meses o Rio São
Francisco estava seco na região de Pirapora, com mato de mais de metro e meio
debaixo da ponte ferroviária, de ponta a ponta. Quando se dizia que o rio
estava seco, muitos imaginavam que a água estava baixa, mas não que havia um
campo de futebol dentro do leito. Pois com toda a sequidão, as mangueiras da
região conseguiram achar água para crescer e amadurecer seus frutos. Mistérios
de deserto. Ou outra coisa mais?
Então, se espera a
chuva do broto, aquela do começo da primavera, que não vem, mas as árvores se
vestem de roupa nova e de flores, seguindo um sinal invisível que é
imperceptível aos humanos. Não se vê a causa, apenas o efeito. Professores já
asseguraram aos seus alunos que por aqui só há duas estações, a seca e a chuva,
porém, os olhos não científicos notam o verde primaveril, assim como o cheiro
forte de fruto do cerrado no ar, mal se vê aproximar o fim do ano e seus outros
milagres.
Os nascidos por esses
ermos sabem que de novembro a janeiro é fácil identificar um odor agridoce pelo
território montes-clarense. Começa pelas
mangas, especialmente a ubá, e outros cheiros muito parecidos vão chegando e se
incorporando, como pequi, o mais inquietante, também coquinho azedo, panã, e o
meu predileto, murici. São todos amarelos, com sabores semelhantes, embora de
formatos e aparência diversificada. É quando velhos e moços ficam amarelos, não
de anemia, pois quando chegam as frutas da estação a fome se vai, mas com as
palmas das mãos e plantas dos pés totalmente cor de beta caroteno, a
pró-vitamina A. A chuva acaba vindo, com sua maluca distribuição de cair toda
numa tarde e depois ficar um mês sem dar as caras.
Antigamente, o tempo
das águas tinha motivo para ter esse nome, pois chovia todos os dias de
dezembro. Agora, depois que raparam o cerrado, arrancando raiz de pequizeiro
com trator para fazer carvão para a indústria metalúrgica (minério de ferro
mais carvão vegetal – cerrado, florestamento e reflorestamento - dando
ferro-gusa que vai virar aço), não conseguimos entender o motivo de ainda
sentirmos o cheiro dessas frutas por aqui. Parece o resultado de um dogma
impenetrável, considerando a ignorância dos espertos que, mesmo de cara com a
fiscalização, e mostrando suas propriedades peladas, lamentam as nascentes
desaparecidas, os rios secos e quase nada de chuva pela propriedade. Já esses
acontecimentos são compreensíveis e nada milagrosos. São produtos da burrice
humana.
*Médica endocrinologista,
jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto
Histórico e Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Nenhum comentário:
Postar um comentário