Mundo cão
* Por
Marcelo Sguassábia
I
Foi uma alegria quando
o Seu Totó apareceu com o humaninho em casa. Uma graça - de terninho, gravata e
sapato preto de bico fino.
- Qual a raça dele,
pai?
- Não sei direito,
Lassie, mas parece que é lavrador. Estava abandonado num caminhão de bóia-fria.
Que judiação, deu uma pena. Não resisti e resolvi adotar. Não era você que
ficava me infernizando, pedindo uma humaninho? Pois então.
II
- Vamos ter que passar
no human-shop pra comprar arroz e feijão pra ele, disse Dona Lulu.
- Não precisa ser no
human-shop, querida. Hoje em dia tem seção de produtos pra ser humano em tudo
que é supermercado. Podemos dar uma olhada no Cãorrefour, no Rextra ou no Cão
de Açúcar.
- Nada disso, papito,
melhor uma loja especializada. Aí a gente já aproveita e compra escova de
dente, desodorante, talco de chulé, uns maços de cigarro e uma garrafa de
pinga.
- É, e também não pode
demorar muito pra vacinar, disse o Tobi. Paralisia infantil, sarampo, catapora,
tétano...
- Pera aí, cachorrada,
assim não é possível. Se for comprar tudo o que inventam pra criação de gente o
meu salário na Purina não vai dar. Tem até psicólogo e academia de ginástica
pra esses bípedes sem rabo. Não há dinheiro que chegue.
III
- Mami, olha só, o
humaninho não pára de falar. O que será que ele quer latir com isso?
- Eu sei lá, o que eu
sei mesmo é que não quero saber de bagunça aqui dentro de casa.
- E alguém pode me
dizer se os humaninhos mordem?
- Ouvi falar que não,
mas ficam mordidos quando estão sem dinheiro. Grana pra eles é a mesma coisa
que osso pra nós, Lassie.
- Ah, isso é verdade, ô
se é. Outro dia lá na escola o Pedro Pintcher apareceu com um saquinho de
dinheiro. Aí a gente ficava jogando notas e moedas pro humano de estimação do
Diretor. Ele saía correndo que nem louco atrás, precisava ver! E nem era
adestrado, o danadinho.
IV
- Humanos também adoram
televisão.
- Igual a que a gente
tem aqui, com os franguinhos girando?
- Claro que não, eles
não raciocinam. Gostam de novela, grupos de pagode, programas idiotas de
auditório e outras atrações onde as fêmeas humanas abanam os rabos e os machos
ficam arfando, com as línguas de fora. Isso é o máximo que o QI deles alcança.
- Tobi, meu filhote, já
colocou o jornal lá fora pra ele fazer xixi?
- Já coloquei agorinha,
mas ele pegou o jornal e começou a ler. Vê se pode.
- Ué, tá negando a
raça? Menos mal, enfim um humano se instruindo. Só espero que a leitura não se
reduza ao horóscopo.
- E que nome vamos dar
pra ele, heim? João, José, Antonio, Daniel, Orozimbo...
- Que tal Praxedes?
- Lindo.
- É, Praxedes tá legal.
V
Exausto com o alvoroço
do primeiro dia, Praxedes se espreguiçou na casinha e tentou dormir, mas o sono
não vinha. Ligou a TV que instalaram pra ele, no cercadinho. Como sempre, só
havia pastor em todos os canais. Pastor alemão, pastor belga, pastor capa
preta, pastor com pedigree, sem pedigree, filhotes, adultos. Zapeando pela
programação, pôs-se a imaginar um mundo menos cão e mais humano, onde os
animais domésticos fossem os cães e não as pessoas. E viu-se dono de uma
próspera rede de pet-shops, morando numa casa de três andares e cheia de
cachorros no quintal.
*
Marcelo Sguassábia é redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).
Quanta loucura. Mas rendeu risos. Inverter papeis e imaginar esse mundo ao avesso não foi fácil. A atenção em dobro é uma exigência, Marcelo, senão o osso entope o ralo.
ResponderExcluir