Quem poderá entender o mundo?
* Por
Clóvis Campêlo
Não somos os donos do
mundo. Muito pelo contrário. Estamos nele inseridos e nem sempre conseguimos
entender a lógica do seu funcionamento. Para complicar ainda mais, a natureza
nos deu o dom do pensamento e da memória. A partir daí, idealizamos e entramos
em choque com o real. Essa angústia é inerente ao ser humano.
Vejam as galinhas, as
maiores amigas do homem (não é o cahorro e nem o uísque). Simplesmente vivem.
Ciscam, poem seus ovos em paz (não sei se curtem a TPM diária, as consequências
da ovulação constante). Não têm preocupações com o comunismo, com as oscilações
das bolsas de valores, não poluem os oceanos e nem os ares. Simplesmente vivem
sem idealizar nada do que seja. Com seus olhos de galinha, não enxergam nada
que não seja a realidade imediata: a comida, os pequenos insetos que as
alimentam, a água para beber, etc. Tudo muito simples.
A complexidade da vida
que inventou fomos nós, os humanos. Adulteramos a natureza, criamos máquinas
nem sempre úteis, evoluimos, perdemos a nossa condição intuitiva e instintiva.
Inventamos a literatura, as religiões, as leis, as regras sociais, os
sentimentos baratos, a angústia e a infelicidade. E ainda nos achamos feitos à
semelhança de algum ser superior existente.
Somos realmente
inteligentes ou a inteligência foi apenas mais um mecanismo diabólico inventado
para a nossa infelicidade?
Sei que não é de bom
aviltre filosofar antes da hora do almoço. Sabe como é: a barriga vazia, a
hipoglicemia podem nos fazer delirar, inventar fantasias, nos trair. Como seres
perdidos no deserto, andamos em cículos sem nos encontrarmos e ficamos a
delirar, imaginando fantasias exóticas e oásis ideais.
Que diabo de mundo é
esse onde o pensamento do ser humano em vez de levá-lo à felicidade cria
dicotomias, guerras fratricidas, inatisfações, violência, artificialismos
degradantes.
Sei lá! A vida é curta,
passa depressa e nem sempre devemos alimentar a ilusão de que temos controle
sobre isso tudo.
Imaginem se usassemos
mais de 10% da nossa cabeça animal. Poderia ser muito pior. O mundo é simples
se o entendermos como o vemos, sem idealizações bobas e sem fantasias
construtivistas inúteis.
Não sei se isso é
possível, já que essa crônica besta é mais uma divagação, uma construção
teórica sobre o nada.
Mas que ao menos
tentemos exercitar a simplicidade e a compreensão.
Antes que o outro nos
destrua.
Recife, 2010
*
Poeta, jornalista e radialista, blogs:
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