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Rapadura
* Por Marco Albertim
Biu foi preso com uma rapadura e uma jaca mole. Conseguiu manter a rapadura no bolso, mas a jaca pequena escapou de uma das mãos; no chão, foi pisada por um dos polícias, por ele próprio e por gente curiosa. Por um nada, duas pingas que bebera num boteco de madeira; quando foi pagar, mostrou uma nota de vinte reais. A dona, uma velha com seis dentes, quatro em baixo e dois na gengiva superior sustendo o cachimbo, quis ficar com o dinheiro.
- Dou o troco depois.
- Depois eu passo aqui pra pagar.
A velha chamou a polícia, contou a seu modo o caso. Os polícias, dois, também useiros dos copos do boteco, deram ouvidos à velha; prenderam o estranho Biu. No meio da feira, no oitão da Igreja da Misericórdia, onde Biu levara Maria, sua mulher, para balbuciar rezas. Ela e o filho de oito anos, Coquinha, a quem daria a rapadura e a jaca. Sexta-feira aziaga, véspera do sábado gordo. As pingas que ele bebera, tão legítimas quanto o direito de celebrar uma festa pagã.
Deitado na tarimba, à noite, recusara-se a ver o resto do dia com o rosto nas grades de ferro da janela. Os presos, uns cumprindo pena, outros esperando sentença, não tinham mais pejo de mostrar os rostos no janelão de frente. Olhando para a rua, criam-se figurantes do ir e vir de feirantes, matutos com chapéu de feltro na cabeça, mulheres encobertas em vestidos chinfrins, moleques seminus, a pele cinzenta dos banhos na água barrenta do rio Goyaninha. Biu viera de um sítio longe, coisa de duas léguas de Goyaninha. Conhecia as ruas, e menos que os outros, sorvia o cheiro do canavial da usina, tão comum ao olfato apurado dos presos antigos. Encolhido junto à parede, não sentia remorsos; inquiria-se, inquiria o mundo por sabê-lo tão grande e não haver lugar para ele, Maria e Coquinha. Sina de sitiante... O sítio, ocupava-o de favor a outra família, de Seu Canuto, no cultivo de inhame, macaxeira e uns poucos leirões de feijão. Seu Canuto mudara para Camocim de São Félix, onde um filho recolhera ao seminário. Queria ser padre, o filho. Seu Canuto amealhara, mas gastara para comprar o enxoval do seminarista.
Coquinha tem pai, mãe... E uma rapadura àquela altura celebrada nos sonhos, na rede de punhos amarrados nos caibros do telhado. A cachaça nenhum efeito fizera nos urdumes de Biu. A fria tarimba, a morrinha dos presos desasseados, as paredes de um lado e de outro, emboloradas, enfiaram-no num poço escuro. Aqui e ali, o zumbido de um preso no enredo de se supor nas ruas. Creu-se, Biu, no direito de não se supor nas ruas, visto não ser dali. Coquinha tem sede antes de se deitar, não terá o naco da rapadura para entreter os dentes, o paladar desinquieto.
O sábado gordo deu conta de um bulício nervoso nas ruas da feira. Os presos se revezando no desfrute da desordem ali, distante.
- Não gosta de carnaval? – quis saber de Biu um preso.
Ele comera um pedaço da rapadura, cevara os músculos, inda que com o juízo mortificado. Levantou-se. No primeiro lance dos olhos, viu o advogado do sindicato comprando mangas com a esposa. Chamou-o; o inusual psiu foi ouvido, visto. O advogado subiu os degraus da calçada.
- O que foi que você fez para estar preso!?
Tão vernáculo quanto o pregão da venda do inhame, Biziu resumiu as últimas vinte e quatro horas de sua vida.
- Não posso! – disse o comissário ao advogado. – Só quando o delegado chegar.
O advogado mostrou-lhe o jornal do dia, com a foto do governador bebendo numa festa.
- Ele pode, num é dotô...?
- Quando o delegado chega?
- Quarta-feira de cinzas.
O advogado saiu, entrou no carro. Em meia hora, estava de volta com a mulher e o filho de Biu.
- Esta família não pode ficar sem este homem.
Maria e Coquinha, na porta da carceragem, não tinham perplexidade nos olhos.
Mas Coquinha:
-Pai! A rapadula?
* Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.
* Por Marco Albertim
Biu foi preso com uma rapadura e uma jaca mole. Conseguiu manter a rapadura no bolso, mas a jaca pequena escapou de uma das mãos; no chão, foi pisada por um dos polícias, por ele próprio e por gente curiosa. Por um nada, duas pingas que bebera num boteco de madeira; quando foi pagar, mostrou uma nota de vinte reais. A dona, uma velha com seis dentes, quatro em baixo e dois na gengiva superior sustendo o cachimbo, quis ficar com o dinheiro.
- Dou o troco depois.
- Depois eu passo aqui pra pagar.
A velha chamou a polícia, contou a seu modo o caso. Os polícias, dois, também useiros dos copos do boteco, deram ouvidos à velha; prenderam o estranho Biu. No meio da feira, no oitão da Igreja da Misericórdia, onde Biu levara Maria, sua mulher, para balbuciar rezas. Ela e o filho de oito anos, Coquinha, a quem daria a rapadura e a jaca. Sexta-feira aziaga, véspera do sábado gordo. As pingas que ele bebera, tão legítimas quanto o direito de celebrar uma festa pagã.
Deitado na tarimba, à noite, recusara-se a ver o resto do dia com o rosto nas grades de ferro da janela. Os presos, uns cumprindo pena, outros esperando sentença, não tinham mais pejo de mostrar os rostos no janelão de frente. Olhando para a rua, criam-se figurantes do ir e vir de feirantes, matutos com chapéu de feltro na cabeça, mulheres encobertas em vestidos chinfrins, moleques seminus, a pele cinzenta dos banhos na água barrenta do rio Goyaninha. Biu viera de um sítio longe, coisa de duas léguas de Goyaninha. Conhecia as ruas, e menos que os outros, sorvia o cheiro do canavial da usina, tão comum ao olfato apurado dos presos antigos. Encolhido junto à parede, não sentia remorsos; inquiria-se, inquiria o mundo por sabê-lo tão grande e não haver lugar para ele, Maria e Coquinha. Sina de sitiante... O sítio, ocupava-o de favor a outra família, de Seu Canuto, no cultivo de inhame, macaxeira e uns poucos leirões de feijão. Seu Canuto mudara para Camocim de São Félix, onde um filho recolhera ao seminário. Queria ser padre, o filho. Seu Canuto amealhara, mas gastara para comprar o enxoval do seminarista.
Coquinha tem pai, mãe... E uma rapadura àquela altura celebrada nos sonhos, na rede de punhos amarrados nos caibros do telhado. A cachaça nenhum efeito fizera nos urdumes de Biu. A fria tarimba, a morrinha dos presos desasseados, as paredes de um lado e de outro, emboloradas, enfiaram-no num poço escuro. Aqui e ali, o zumbido de um preso no enredo de se supor nas ruas. Creu-se, Biu, no direito de não se supor nas ruas, visto não ser dali. Coquinha tem sede antes de se deitar, não terá o naco da rapadura para entreter os dentes, o paladar desinquieto.
O sábado gordo deu conta de um bulício nervoso nas ruas da feira. Os presos se revezando no desfrute da desordem ali, distante.
- Não gosta de carnaval? – quis saber de Biu um preso.
Ele comera um pedaço da rapadura, cevara os músculos, inda que com o juízo mortificado. Levantou-se. No primeiro lance dos olhos, viu o advogado do sindicato comprando mangas com a esposa. Chamou-o; o inusual psiu foi ouvido, visto. O advogado subiu os degraus da calçada.
- O que foi que você fez para estar preso!?
Tão vernáculo quanto o pregão da venda do inhame, Biziu resumiu as últimas vinte e quatro horas de sua vida.
- Não posso! – disse o comissário ao advogado. – Só quando o delegado chegar.
O advogado mostrou-lhe o jornal do dia, com a foto do governador bebendo numa festa.
- Ele pode, num é dotô...?
- Quando o delegado chega?
- Quarta-feira de cinzas.
O advogado saiu, entrou no carro. Em meia hora, estava de volta com a mulher e o filho de Biu.
- Esta família não pode ficar sem este homem.
Maria e Coquinha, na porta da carceragem, não tinham perplexidade nos olhos.
Mas Coquinha:
-Pai! A rapadula?
* Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.
Seco como chão crestado porém singelo
ResponderExcluirem sua mensagem.
Abraços
Marco
ResponderExcluirA cada semana você se supera. Este conto está demais. Demais! Adoro esse jeito de escrever usando o linguajar do nosso povo. Como Bandeira adoraria ler seus contos!
Um episódio infeliz, embora tão comum ganha através da sua narrativa vida, movimento e rebuliço.
ResponderExcluirMuito bom!