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Prisioneiro
* Por Gustavo do Carmo
Arnon fez sexo pela primeira vez na vida com uma namorada da época. Descobriu como era bom. Descobriu como era delicioso ter aquela sensação maravilhosa do orgasmo. A sensação do sexo in loco era bem melhor do que ficar trancado no banheiro com aquele corpo artificial de papel, manipulado pelo photoshop. Os seios do corpo que usava e que imaginava tocar eram reais. Mas não tão grandes como desejava.
Queria mais. Só não teve a oportunidade de fazer com a mesma moça. Haviam terminado por um motivo torpe. Fez um comentário tão infantil que a menina o largou e rapidamente arrumou outro. Arnon ficou meses sem beijar ninguém. Quebrou o celibato em uma discoteca, com uma loira siliconada. Ambos estavam embriagados. O affair não foi além da troca de salivas.
Falando em celibato, em um curso de inglês, conheceu Guiomar. Uma moça de cabelos cacheados e castanhos, muito bonita e carinhosa. Bonita de rosto. Linda de corpo. Não era magra esquelética. Tinha lá as suas gordurinhas embora o ventre não tenha nenhuma saliência. As pernas eram grandes e muito bem torneadas. Os ombros eram largos por causa da natação. A pele era clarinha e lisa. A melhor parte eram, claro, os seus grandes seios naturais, que mesmo totalmente cobertos pela camisa branca, um pouco justa, convidavam Arnon para o desejo. Desejo de romper o jejum sexual. Quando Guiomar aparecia com a parte de cima do maiô exposta, preparada para a natação no Mackenzie depois da aula de inglês, aí que o rapaz enlouquecia mesmo. Tinha vontade de possuí-la ali mesmo na sala de aula. Na frente de todos.
Mas Arnon era um rapaz civilizado. Jornalista, trabalhava como repórter esportivo. E bondoso, como Guiomar, também. A vontade ficava apenas no pensamento, mas ele se controlava, mesmo aos dois anos sem sexo. Só controlava o desejo se masturbando. Não era a mesma coisa.
Arnon logo conquistou Guiomar. Primeiro a amizade. Depois o seu amor. Para ter o seu corpo nu em suas mãos e na cama teria que esperar. Guiomar era virgem. E só queria perder a castidade com o homem da sua vida. Esta condição ela encontrou em Arnon, que ouviu isso dela. No entanto, teve de ouvir que só queria perder a virgindade depois do casamento. Guiomar era uma ex-noviça, de rígida disciplina religiosa, que abandonou o convento para estudar, encontrar um homem e formar uma família, com vários filhos. Viu em Arnon o homem ideal.
Arnon aceitou todas as condições impostas por Guiomar. Assumiu o namoro com ela. Primeiro para os amigos. Depois a apresentou aos seus pais. Arnon também foi apresentado a religiosissíma mãe e ao militar linha-dura, pai da namorada, a segunda da vida do rapaz. Até as freiras e madres superiores do convento, onde Guiomar se enclausurava, conheceram e aprovaram as boas intenções de Arnon.
Em três meses oficializaram o noivado. Com mais três, marcaram o casamento para o ano seguinte. Arnon teria de esperar mais um ano para descobrir totalmente o corpo da amada. Tentou antecipar o ato três vezes. Todas negadas por Guiomar, que ameaçou desfazer o noivado caso ele tentasse a quarta. Pensou em estuprá-la. Mas Arnon não era de fazer isso, que poderia acabar com a sua moral, carreira e vida. Poderia procurar uma prostituta ou outra mulher disposta a sexo, mas estava tão apaixonado por Guiomar que só queria transar com ela. Os amigos tentaram fazê-lo mudar de idéia, mas ele estava irredutível.
Chegou o grande dia. Novamente os amigos organizaram uma despedida de solteiro. Arnon recusou a mulher que saiu nua do bolo. Só compareceu em consideração a eles. Apesar de chateados com a desfeita de Arnon, foram ao seu casamento. O enlace religioso deu-se na capela do ex-convento de Guiomar. A festa foi no Clube Naval, patrocinada pelo pai da moça.
Na hora do casamento, o padre não parava de falar. Parecia que a cerimônia ia durar três horas. E Arnon louco para fazer sexo. Suava frio de tanta ansiedade. Pensou em pedir ao padre que acabasse com o lero-lero e consumasse logo o matrimônio. Educadamente esperou. Não pensava na vida a dois com Guiomar. Com os filhos que teria com ela. A preocupação estava em desabotoar os noventa botões do vestido da noiva e romper o seu jejum sexual.
Antes vinha a festa. Levou cinco horas. Só para os cumprimentos dos convidados teve de esperar uma hora. A fila era quilométrica, como num banco em dia movimentado. Se dependesse de Arnon, a lua-de-mel começaria ali mesmo, na hora da valsa. Ao contrário dos convidados, ele não queria saber das coxinhas de galinha do buffet. As únicas coxas que lhe interessavam eram as de Guiomar, que nunca tinha visto, pois a agora esposa freqüentava todas as aulas de calça comprida ou saia longa. Na hora de jogar buquê, o próprio Arnon teve vontade de lançá-lo para as encalhadas. Irritou-se com tanto suspense da noiva.
Finalmente os recém-casados deixaram a festa. Arnon dirigiu o Jaguar pintado de corações, sujo de arroz e com latas penduradas no pára-choque, com destino ao Copacabana Palace, onde realizaria o desejo de descobrir a nudez de Guiomar, que o acompanhou no banco do carona, e de encerrar a sua abstinência sexual.
Assim que entrou na suíte presidencial do luxuoso hotel, tratou logo de pendurar a etiqueta de “Não Perturbe” na maçaneta, trancou a porta, rasgou o vestido de Guiomar, provocando uma chuva de contas de pérola no chão de mármore. Arrancou o sutiã de renda grená, que lhe apresentou o grande par de seios. Tirou com dentes a calcinha de mesma cor. Saciou a enlouquecida vontade de três anos de compartilhar com outra mulher o calor do seu corpo. Redescobriu aquela sensação maravilhosa do orgasmo. Teve cinco.Ficou satisfeito. Se fosse cafajeste deixaria Guiomar nua, ali mesmo, na cama do hotel, vestiria as roupas, colocaria o dinheiro na cabeceira e partiria para uma nova vida de solteiro. Mas Arnon era um homem íntegro e respeitoso. Estava unido pelos laços matrimoniais e não podia rompê-los. Apenas convidou a nova esposa para irem embora.
Guiomar queria mais. Arnon foi obrigado a gozar mais vinte vezes. Ficou exausto. Só deixaram o Copacabana Palace depois de três dias. Arnon tornou-se refém dos desejos incontroláveis de Guiomar. Seu apetite sexual continuou por mais cinco anos. Arnon era obrigado a satisfazer o desejo da esposa três vezes ao dia. Em alguns, o dominava por vinte e quatro horas. Exigia sexo até na gravidez e também quando estava menstruada. Apesar dos três filhos que teve com ela, Arnon pediu o divórcio. Na véspera da assinatura, Guiomar pediu mais uma noite de sexo. O manteve por uma semana. Teve 300 orgasmos. Sem parar.
Arnon não teve tempo de assinar o divórcio. Morreu antes. Aos trinta anos, com cabelos brancos e usando bengala. Estava com a aparência de oitenta. Guiomar procurou outro homem para satisfazer o seu infinito apetite sexual. Entrou para um curso de alemão e voltou para a natação. Conheceu Alfredo. Disse que era virgem e recém-saída de um convento.
* Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos” pela Editora Multifoco/Selo Redondezas - RJ. Seu blog, “Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por leitores
* Por Gustavo do Carmo
Arnon fez sexo pela primeira vez na vida com uma namorada da época. Descobriu como era bom. Descobriu como era delicioso ter aquela sensação maravilhosa do orgasmo. A sensação do sexo in loco era bem melhor do que ficar trancado no banheiro com aquele corpo artificial de papel, manipulado pelo photoshop. Os seios do corpo que usava e que imaginava tocar eram reais. Mas não tão grandes como desejava.
Queria mais. Só não teve a oportunidade de fazer com a mesma moça. Haviam terminado por um motivo torpe. Fez um comentário tão infantil que a menina o largou e rapidamente arrumou outro. Arnon ficou meses sem beijar ninguém. Quebrou o celibato em uma discoteca, com uma loira siliconada. Ambos estavam embriagados. O affair não foi além da troca de salivas.
Falando em celibato, em um curso de inglês, conheceu Guiomar. Uma moça de cabelos cacheados e castanhos, muito bonita e carinhosa. Bonita de rosto. Linda de corpo. Não era magra esquelética. Tinha lá as suas gordurinhas embora o ventre não tenha nenhuma saliência. As pernas eram grandes e muito bem torneadas. Os ombros eram largos por causa da natação. A pele era clarinha e lisa. A melhor parte eram, claro, os seus grandes seios naturais, que mesmo totalmente cobertos pela camisa branca, um pouco justa, convidavam Arnon para o desejo. Desejo de romper o jejum sexual. Quando Guiomar aparecia com a parte de cima do maiô exposta, preparada para a natação no Mackenzie depois da aula de inglês, aí que o rapaz enlouquecia mesmo. Tinha vontade de possuí-la ali mesmo na sala de aula. Na frente de todos.
Mas Arnon era um rapaz civilizado. Jornalista, trabalhava como repórter esportivo. E bondoso, como Guiomar, também. A vontade ficava apenas no pensamento, mas ele se controlava, mesmo aos dois anos sem sexo. Só controlava o desejo se masturbando. Não era a mesma coisa.
Arnon logo conquistou Guiomar. Primeiro a amizade. Depois o seu amor. Para ter o seu corpo nu em suas mãos e na cama teria que esperar. Guiomar era virgem. E só queria perder a castidade com o homem da sua vida. Esta condição ela encontrou em Arnon, que ouviu isso dela. No entanto, teve de ouvir que só queria perder a virgindade depois do casamento. Guiomar era uma ex-noviça, de rígida disciplina religiosa, que abandonou o convento para estudar, encontrar um homem e formar uma família, com vários filhos. Viu em Arnon o homem ideal.
Arnon aceitou todas as condições impostas por Guiomar. Assumiu o namoro com ela. Primeiro para os amigos. Depois a apresentou aos seus pais. Arnon também foi apresentado a religiosissíma mãe e ao militar linha-dura, pai da namorada, a segunda da vida do rapaz. Até as freiras e madres superiores do convento, onde Guiomar se enclausurava, conheceram e aprovaram as boas intenções de Arnon.
Em três meses oficializaram o noivado. Com mais três, marcaram o casamento para o ano seguinte. Arnon teria de esperar mais um ano para descobrir totalmente o corpo da amada. Tentou antecipar o ato três vezes. Todas negadas por Guiomar, que ameaçou desfazer o noivado caso ele tentasse a quarta. Pensou em estuprá-la. Mas Arnon não era de fazer isso, que poderia acabar com a sua moral, carreira e vida. Poderia procurar uma prostituta ou outra mulher disposta a sexo, mas estava tão apaixonado por Guiomar que só queria transar com ela. Os amigos tentaram fazê-lo mudar de idéia, mas ele estava irredutível.
Chegou o grande dia. Novamente os amigos organizaram uma despedida de solteiro. Arnon recusou a mulher que saiu nua do bolo. Só compareceu em consideração a eles. Apesar de chateados com a desfeita de Arnon, foram ao seu casamento. O enlace religioso deu-se na capela do ex-convento de Guiomar. A festa foi no Clube Naval, patrocinada pelo pai da moça.
Na hora do casamento, o padre não parava de falar. Parecia que a cerimônia ia durar três horas. E Arnon louco para fazer sexo. Suava frio de tanta ansiedade. Pensou em pedir ao padre que acabasse com o lero-lero e consumasse logo o matrimônio. Educadamente esperou. Não pensava na vida a dois com Guiomar. Com os filhos que teria com ela. A preocupação estava em desabotoar os noventa botões do vestido da noiva e romper o seu jejum sexual.
Antes vinha a festa. Levou cinco horas. Só para os cumprimentos dos convidados teve de esperar uma hora. A fila era quilométrica, como num banco em dia movimentado. Se dependesse de Arnon, a lua-de-mel começaria ali mesmo, na hora da valsa. Ao contrário dos convidados, ele não queria saber das coxinhas de galinha do buffet. As únicas coxas que lhe interessavam eram as de Guiomar, que nunca tinha visto, pois a agora esposa freqüentava todas as aulas de calça comprida ou saia longa. Na hora de jogar buquê, o próprio Arnon teve vontade de lançá-lo para as encalhadas. Irritou-se com tanto suspense da noiva.
Finalmente os recém-casados deixaram a festa. Arnon dirigiu o Jaguar pintado de corações, sujo de arroz e com latas penduradas no pára-choque, com destino ao Copacabana Palace, onde realizaria o desejo de descobrir a nudez de Guiomar, que o acompanhou no banco do carona, e de encerrar a sua abstinência sexual.
Assim que entrou na suíte presidencial do luxuoso hotel, tratou logo de pendurar a etiqueta de “Não Perturbe” na maçaneta, trancou a porta, rasgou o vestido de Guiomar, provocando uma chuva de contas de pérola no chão de mármore. Arrancou o sutiã de renda grená, que lhe apresentou o grande par de seios. Tirou com dentes a calcinha de mesma cor. Saciou a enlouquecida vontade de três anos de compartilhar com outra mulher o calor do seu corpo. Redescobriu aquela sensação maravilhosa do orgasmo. Teve cinco.Ficou satisfeito. Se fosse cafajeste deixaria Guiomar nua, ali mesmo, na cama do hotel, vestiria as roupas, colocaria o dinheiro na cabeceira e partiria para uma nova vida de solteiro. Mas Arnon era um homem íntegro e respeitoso. Estava unido pelos laços matrimoniais e não podia rompê-los. Apenas convidou a nova esposa para irem embora.
Guiomar queria mais. Arnon foi obrigado a gozar mais vinte vezes. Ficou exausto. Só deixaram o Copacabana Palace depois de três dias. Arnon tornou-se refém dos desejos incontroláveis de Guiomar. Seu apetite sexual continuou por mais cinco anos. Arnon era obrigado a satisfazer o desejo da esposa três vezes ao dia. Em alguns, o dominava por vinte e quatro horas. Exigia sexo até na gravidez e também quando estava menstruada. Apesar dos três filhos que teve com ela, Arnon pediu o divórcio. Na véspera da assinatura, Guiomar pediu mais uma noite de sexo. O manteve por uma semana. Teve 300 orgasmos. Sem parar.
Arnon não teve tempo de assinar o divórcio. Morreu antes. Aos trinta anos, com cabelos brancos e usando bengala. Estava com a aparência de oitenta. Guiomar procurou outro homem para satisfazer o seu infinito apetite sexual. Entrou para um curso de alemão e voltou para a natação. Conheceu Alfredo. Disse que era virgem e recém-saída de um convento.
* Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos” pela Editora Multifoco/Selo Redondezas - RJ. Seu blog, “Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por leitores
Surreal, inesperado, divertido.
ResponderExcluirParabéns Gustavo.
Abraços