terça-feira, 28 de dezembro de 2010




Leia nesta edição:

Editorial – Arte e competição

Coluna À flor da pele – Evelyne Furtado, crônica “Boa sorte!”.

Coluna Tecelã de emoções – Risomar Fasanaro, crônica “Outros Natais”

Coluna Observações e Reminiscências – José Calvino de Andrade Lima, crônica “De beco em beco... o da Fome”

Coluna Lira de sete cordas – Talis Andrade, poema “Réveillon no Rio”.

Coluna Porta Aberta – Marleuza Machado, crônica ”Limiar”.

Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.

Arte e competição


O bem e o mal duelam no fundo da nossa mente (quer no plano consciente, quer no sub e no inconsciente), desde o momento em que tomamos consciência de nós mesmos e do mundo que nos cerca, até o instante da absoluta inconsciência, que é a morte. Nem sempre, contudo, um e outro se manifestam em atos. Mas estão lá, adormecidos, esperando apenas uma oportunidade para se manifestar. E ambos, conforme as circunstâncias e ocasiões, manifestam-se de fato, quando menos esperamos.
Todas as nossas atividades intelectuais, ou seja, as artes, a filosofia e a religião, são diretamente determinadas por essa incessante competição. O escritor John Steinbeck, no livro “A Leste do Éden”, levanta uma pitoresca questão a propósito, na qual eu não havia cogitado. Sugere que, intrinsecamente, somos, até por instinto, bons e virtuosos.
O mal, por seu turno, na visão do romancista, precisa, a todo o momento, ser ressuscitado, quando não reinventado. Cita, como argumento, novos vícios que surgem de quando em quando. Por exemplo, o tabagismo era desconhecido do Ocidente até o século XVI, embora atualmente faça tantas vítimas mundo afora com seus malefícios.
Já a virtude é, rigorosamente, a mesma desde que o homem aprendeu a pensar e a se relacionar com o próximo. Nada de novo surgiu, nos últimos milênios, no que se refere à moral e aos bons costumes.
Será que o homem, algum dia, conseguirá extirpar o mal da sua mente e, por conseqüência, do mundo? Provavelmente, sou irrecuperável ingênuo. Mas acredito, sem nenhuma sombra de dúvida, que sim. Somente se (ou quando) conseguir sucesso nesse empreendimento, o dito “Homo Sapiens“ fará jus a essa designação e poderá se considerar regenerado e detentor da verdadeira sabedoria. Enquanto isso...
A vida da grande maioria das pessoas – tanto das que vivem hoje, quanto dos bilhões que já viveram desde o surgimento do homem – é, convenhamos, rotineira e vazia, por causa da personalidade, educação, oportunidades (no caso, falta delas) e, principalmente, circunstâncias de cada uma.
Os valores e objetivos, geralmente, são ilusórios e pequenos, mesmo dos que são tidos e havidos como “vencedores”. Dois terços da humanidade, infelizmente, vivem na miséria e têm diante dos olhos cenários cinzentos, paupérrimos, feios, horrorosos, horrendos, para que o um terço restante se regale e viva com conforto e até desregramento. O consumismo desenfreado e inconsciente é o “bezerro de ouro” do nosso tempo, em que o “mercado” foi alçado à condição de divindade.
Todavia, nem por isso as pessoas punidas pelas circunstâncias precisam abrir mão da beleza. Afinal, o mais puro e encantador lírio brota, também, nos mais infectos pântanos. Mesmo uma vida “perdida”, pelos critérios atuais de sucesso, não precisa, necessariamente, ser feia e desoladora. Pode ser vazia, difícil e sofrida, mas, ainda assim, bela. Não é paradoxal? É! Mas ainda assim, possível!
Para isso, é necessário, no entanto, que essas pessoas cultivem, desde tenra infância, até por instinto, o senso estético. Se puderem criar obras belas e harmoniosas, que encantem a vista e alegrem o coração, tanto melhor. Caso contrário, apenas a capacidade de identificá-las (e valorizá-las) e usufruí-las já transforma (para melhor) a vida de qualquer um, por maiores que sejam sua carência e seu desamparo.
Curiosamente, nos lugares mais sombrios e desoladores, emergem, com freqüência, refinados artistas, que captam beleza até no próprio ar e a transmitem por palavras, cores e sons. Um dos versos do poema “Retrato”, de Cecília Meirelles, diz a propósito: “Meus pés vão pisando a terra/que é a imagem da minha vida:/tão vazia, mas tão bela,/tão certa, mas tão perdida!”
Algumas raras vezes uma obra de arte que produzimos supera, em grandeza e transcendência, em muito aquilo que nós somos. Adquire um toque de magia, de perpetuidade, de eternidade até, enquanto nós não passamos de frágeis animais, efêmeros, ignorantes, sumamente imperfeitos e, sobretudo, transitórios.
Convém que, nessas ocasiões, revisemos o que fizermos para lhe dar indispensável toque de humanidade. Caso contrário, nossa obra-prima, exatamente por sua perfeição formal, não encontrará acolhida por parte das outras pessoas, que não se identificarão com ela. Faltar-lhe-á verossimilhança.
Qualquer tipo de renúncia é doloroso, não há como negar. Ainda mais dessa natureza, que afeta, diretamente, nosso ego. Mas não raro, esta se faz não somente necessária, como indispensável. E este é um desses casos. É disso que tratam estes versos com que o poeta piracicabano, Pedro Morato Krahenbuhl, abre o poema “Voto”: “Corrompe-te um vício de humanidade.//Se teu verso repousar na pedra,/na cúpula do tempo ressoar,/gradua-lhe o tom de eternidade,/em poeira e renúncia”.
Confio no poder da auto-sugestão. Já vi pessoas fazerem maravilhas ao se convencerem que poderiam obter sucesso em suas atividades, quando todos os prognósticos lhes eram contrários. Nas recentes Olimpíadas de Pequim, vários atletas se superaram, e venceram os favoritos, estabelecendo recordes olímpicos e mundiais de suas modalidades, porque, além do devido preparo (indispensável, claro, para quem queira vencer em qualquer coisa), se convenceram de que poderiam surpreender a todos. E surpreenderam.
Este é o caminho que vejo para sufocarmos o mal latente que subjaz em nossos inconsciente e subconsciente e permitirmos que o bem – representado, principalmente, pela “trinca” Bondade, Altruísmo e Solidariedade – reine soberano em nossas mentes, corações e vidas. E, por conseqüência, no mundo...

Boa leitura.

O Editor.
Acompanhe o Editor no twitter: @bondaczuk



Boa sorte!

* Por Evelyne Furtado

Respire fundo e procure as suas vontades. Separe as que estão visíveis, mas não fique por aí. Há de ter vontades imersas, esquecidas, dadas por vencidas. Tenha coragem e busque-as. Vale a pena revisitá-las. Examine uma a uma. Garanto que algumas já virão à tona com o sabor de sempre. Deixe-se tomar pelo gosto bom. Reviva-o.


Arranje mais coragem e exponha-se às vontades que vieram e passaram sem o gosto real. Confie nas sensações que elas provocam. Vá por mim: Se você se sentir bem, talvez seja a hora de torná-las realidade, mas, se ao contrário, for tomado por um mal-estar, certamente elas passaram do ponto. Desista!

Talvez seja a hora de lidar com as vontades adormecidas por preconceito, por preguiça, por orgulho ou por excesso de cautela. Olhe-as de frente e a frente delas. Como seria a vida depois de realizá-las? Se há ameaças a sua integridade ou de outra pessoa, melhor desistir. Se não der para esquecer, devolva-as à gaveta das fantasias ou dos sonhos, sei lá.


Vai me dizer que está sem vontade? Tem jeito para isso, também. Comece por imaginar algo muito bom por menor que seja: um prato gostoso, um passeio na praia, um presente, um amor, um novo rumo na vida, uma viagem. Vale uma mudança no visual ou no comportamento. Vale um gostinho que seja para começar. É hora de afiar os desejos, afinal. você terá um ano inteiro para materializá-los. Boa sorte!

• Poetisa e cronista de Natal/RN



Outros Natais

* Por Risomar Fasanaro

No dia 24 levantei nostálgica. Pensei ser fruto da época: Natal, final de ano...O certo é que uma tristeza se apoderou de mim e não consegui mais ficar na cama.
Levantei logo cedo e resolvi sair. Resolvi percorrer todas as ruas onde morei, passar em frente a todas as casas. Foi o que fiz.
De uma delas, onde vivi momentos de intensa felicidade só restava uma parede do que fora meu quarto, aquela onde eu colocara nos anos 60, dois pôsters enormes, um dos Beatles, desenho a nanquim de minha amiga Regina, e um da chegada do homem à Lua.
A casa era vizinha à antiga Cobrasma, e dela só restava aquela parede, uma montanha de tijolos, e os restos das portas e janelas. Era o retrato vivo de minhas lembranças do que vivera ali.
Como é triste tentar reconstituir o passado e ver que nem o que era material existe mais... O que ficou foi a memória, e não sei se feliz ou infelizmente, a minha é muito boa, e a quem pensa isso ser um bem, aviso que é um pesadelo.
Relembrei os natais a partir das casas. O primeiro foi na terceira casa em que moramos.
É uma casa inesquecível. No jardim havia uma roseira que chamava a atenção das pessoas que passavam, porque ela formava uma touceira, com muitos galhos que vinham do chão estava sempre coberta de rosas.
Naquele Natal, um casal de amigos, Maria e Zacarias que eram do Recife, mas estavam morando no Paraná, tinham vindo passar conosco.
Desde a chegada deles nossa casa vivia dias de festa. Eles tinham trazido um disco de músicas natalinas e ficávamos ouvindo aquelas canções o dia inteiro. A casa cheia de gente, todo mundo alegre. Minha mãe preparando o que iria servir na ceia, a gente na expectativa do que ganharia de presente. Aquela coisa que Fernando Pessoa diz tão bem: no tempo em que festejavam o dia dos meus anos,/ eu era feliz e ninguém estava morto”
Continuei dirigindo, ouvindo as vozes de meus pais e irmãos falando ao mesmo tempo, ninguém ouvindo ninguém, mas todo mundo feliz.
Do fundo de minhas reminiscências veio o som do bandolim do meu irmão Paulo tocando “Brasileirinho”, de Waldir Azevedo, som que foi fundo musical de nossas vidas naquela época.
Relembrei vários natais, as árvores e presépios de todos os tipos e estilos. Natais inesquecíveis.
Mas nem todos foram assim. Ao passar em frente a algumas daquelas casas me vinha à boca o gosto amargo da memória, e as imagens se embaralhavam dificultando minha visão. Quem sabe seria melhor acelerar e fugir daquelas lembranças? Mas era preciso exorcizar o passado, saíra aquela manhã para isso, só assim seria possível “enterrar” todas as lembranças desagradáveis dos Natais passados.Esquecer tudo que um dia me entristeceu, me magoou, para à noite estar livre para comemorar.
Ao chegar à última casa estava calma, serena. Liguei o rádio na Brasil FM e a voz de Paulinho da Viola cantava os últimos versos de “Abre os olhos”: “esqueça esse mal que nos deu tanto sofrimento/ (...)Felicidade já conheceu seu momento/ Abre os teus olhos e veja o que aconteceu/ Esqueça tudo/ Porque nosso amor já morreu”.
De repente, embora o carro estivesse totalmente fechado, um cheiro de manjericão e de terra molhada, vindo não sei de onde, misteriosamente invadiu o carro me trazendo a lembrança de alguém que há muito não vejo. Tive a nítida sensação de ter saído de um banho de cachoeira igual ao que tomei uma vez em Ilha Bela. Ilusão? Ou alguma miragem que só o Natal nos traz?

* Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.



De beco em beco... o da Fome

* Por José Calvino de Andrade Lima


O Recife tem seus becos famosos: do Veado, do Marroquim, da Carioca, do Cirigado e o da Fome. Quem não conhece o afamado Beco da Fome, no Centro da cidade, não conhece o Recife! Pois é lá que encontramos de tudo: música, futebol, literatura... é também de uso público e liga a Rua 7 de Setembro à Rua do Hospício, sendo o mais animado e popular beco do Brasil.
Infelizmente, o Beco da Fome nunca foi assistido pelos órgãos públicos e ainda não dispõe de calçamento, saneamento etc. Uma placa sequer com o nome oficial não tem e ele nem é registrado no cadastro dos logradouros da Prefeitura da Cidade do Recife.
O Beco da Fome fica à mercê dos condôminos dos edifícios Pirapama, Capitólio e João Murilo. A baderna e a esculhambação são grandes. E para afugentar os freqüentadores dos botequins e transeuntes, alguns moradores maléficos jogam das janelas dos edifícios fezes, urinas, garrafas e outras porcarias mais, afastando o público do famoso beco.
Nota: Em 27/09/2009, uma equipe da Diretoria de Controle Urbano do Recife (Dircon) retirou toda a coberta do "Beco...". A coberta foi retirada, por conta da falta de segurança. A falta de manutenção da área foi a causa principal da retirada (Foi diagnosticado que havia riscos de desabamento).

* Escritor, poeta e teatrólogo



Réveillon no Rio

* Por Talis Andrade

Na noite festiva
a praia iluminada
esbarro em uma multidão
vestida de branco
Não há como negar a beleza
são milhões de velas acesas
nas areias de Copacabana

Chuva de ouro e prata
cai sobre nossas cabeças
Os fogos de artifício
jorram em cascatas
do alto
de suntuosos edifícios
Os fogos de vista
desenham nos ares
flores e estrelas

Nas areias de Copacabana
o povo presenteia Iemanjá
com vinho e manjares
que as ondas levam
para o largo-mar

Na noite de fim de ano
o solitário desejo
as ondas cobertas de flores
consigam adormecer
meu corpo indefeso

Na iluminada noite
o povo canta e dança
para Iemanjá
O povo dança e reza
Iemanjá devolva
em dobro as oferendas
que as ondas levam
que as ondas levam
para o largo-mar

* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).



Limiar

* Por Marleuza Machado


A porta ainda está aberta. Encolhida num canto, esguia o olhar e nota indefinição. Se ameaça avançar, percebe uma simulação de fuga. Se recua, uma silhueta é projetada na claridade vinda do corredor. Escura é aquela sombra. Confuso é o coração.

Se ignora a presença, a esperança acena distante. Se alimenta a esperança, a presença se mostra incerta. Se desejo e expectativa não namoram, corações não se entrelaçam.

E mesmo tudo sofrendo, tudo crendo, tudo esperando, tudo suportando, por força do Divino, haverá de crer também na força incessante do sentimento? Exausto coração Esperanças quase finitas.

Diferentemente da sombra, que pode extinguir-se num fechar de porta, o desfecho do amor pode estar contido no simples ato de deixar a vida entrar.

• Jornalista