quinta-feira, 27 de agosto de 2009




O giro da maçaneta

* Por Daniel Santos

Gostoso mesmo era passar a tarde com as amigas; pelo menos, de vez em quando. Cafezinho, bolo de laranja ... E conversavam de tudo, de tudo riam-se desbragadas como solteiras ainda sem noção de prazos.

É, mas estava para terminar, que ele, o marido, logo chegaria do trabalho. De mau-humor, sem sorrisos nem o previsível “boa noite”, ele abriria a porta num repelão, sem pudor de constranger a qualquer.

Aliás, só de pensarem na chegada dele, as mulheres sentiam-se desconfortáveis. Fazer o quê?! Ele tomaria o lugar onde elas folgavam à vontade. Não mais íntimas, mas formais ... quando ele chegasse.

E chegou. Primeiro, passos pesados lá fora. Depois, um pigarro forçado, algo raivoso, de quem intui desgoverno dentro da própria casa. Enfim, o giro da maçaneta como o ponteiro do relógio no fim do prazo.

Caladas, apreensivas, despediram-se da amiga, pegaram bolsas e sacolas e aguardaram que ele surgisse enorme, quem sabe até ameaçador, no vão da porta. Afinal, aquele olhar de exclusão. Na certa, assim seria.

* Jornalista carioca. Trabalhou como repórter e redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da "Folha de São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo". Publicou "A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e "Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para obras em fase de conclusão, em 2001.





Notícia que marca (de verdade)

* Por Gustavo do Carmo


Algumas pessoas vieram me perguntar se o meu primeiro livro, Notícias que Marcam, é uma coletânea das notícias do país e do mundo que me marcaram. Não. Não é. É um romance ambientado nos bastidores da redação de um telejornal. As notícias marcaram o protagonista, Cassio James, desde a sua época de faculdade. E não a mim.

As notícias marcantes para a personagem do romance foram o casamento da menina por quem ele era apaixonado, a transferência do seu melhor amigo para os Estados Unidos, o convite para o seu primeiro emprego e outras que eu deixo para o leitor descobrir no livro.

O primeiro a identificar esta dubiedade do título foi o meu editor. Foi ele quem me sugeriu colocar a palavra Romance na capa para não confundir. Mesmo assim, muita gente ainda me pergunta.

Claro que nunca me senti ofendido nem incomodado com isso. Pelo contrário. Acho até que eu despertei nessas pessoas a curiosidade delas em saber qual(is) foi(foram) a(s) notícia(s) que mais me marcou(aram). Assim, se o leitor que já viu o meu livro por aí ficou com a mesma dúvida e conseqüente curiosidade, vou revelar a vocês e às pessoas que me perguntaram sobre o título do romance a notícia que mais me marcou.

No entanto, infelizmente, ela não é boa. Notícias trágicas marcam mais do que as boas. As boas são mais previsíveis. E estou me referindo a notícias externas, ou seja, jornalísticas. Em breve, vou tentar lembrar a notícia pessoal que mais me marcou e conto em outra crônica.

Chega de suspense. A notícia que mais me marcou foram duas. Duas mortes em dois dias, em acidentes distintos. Duas equipes de jornalistas da Rede Globo mortas em serviço. O Jornal Nacional transmitiu tão bem a emoção do fato ou criou um clima tão fúnebre para homenagear os seus profissionais que eu, na flor dos meus seis anos, fiquei impressionado e lembro até hoje. Finalmente escrevo uma crônica sobre isso.

Em junho de 1984, a Petrobras fazia aquele tradicional jabá para comemorar o recorde da produção da Bacia de Campos. Convidou jornalistas de todas as emissoras do Rio: Globo, Bandeirantes, Manchete e TV Educativa. Quatorze profissionais, entre repórteres, cinegrafistas, operadores e produtores embarcaram num avião Bandeirante da TAM, que na época só fazia vôos fretados. Infelizmente, o avião chocou-se contra um morro próximo a Barra de São João. Morreram todos.

Os da Globo eram o repórter Luiz Eduardo Lobo e o cinegrafista Dario Duarte da Silva. Também estavam entre as vítimas os operadores de VT Levi Dias da Silva e Jorge Antônio Leandro. Gostaria de saber o nome dos profissionais das outras emissoras, também. Mas não tive tempo para pesquisar. Quem me informar para que eu possa homenageá-los também, agradeço.

Uma morte dessa forma abala qualquer um. E a Globo não poderia tratar de outra forma. O que ela não esperava era a perda de outra equipe em outro acidente no dia seguinte. Desta vez, na estrada. A Veraneio em que viajavam o repórter Samuel Wainer Filho e o cinegrafista Felipe Ruiz derrapou na pista molhada e bateu em uma árvore na RJ-124, altura de Rio Bonito, voltando exatamente da cobertura da morte dos colegas. Os dois também perderam a vida.

Na minha inocente infância eu não sabia nem o nome dos jornalistas. Só descobri duas décadas depois, lendo o livro Jornal Nacional – A notícia faz história, lançado para comemorar os 35 anos do principal jornal da emissora. Na mesma obra também descobri que o Samuel Wainer era filho do fundador do antigo jornal Última Hora com a jornalista, escritora e socialite Danuza Leão e sobrinho da cantora Nara Leão.

Lobo e Dario aparecem nos vídeos do site Memória Globo, que eu indiquei há algumas semanas. Foram eles que reforçaram a equipe liderada pelo hoje veterano André Luiz Azevedo na cobertura da polêmica greve da Companhia Siderúrgica Nacional.

Bem, o que me sensibilizou não foi exatamente a notícia da morte dos jornalistas (que eu nem conhecia. Hoje seria bem diferente) e sim a homenagem que o Jornal Nacional prestou a eles. Lembro da voz embargada do Cid Moreira (ou do Berto Filho, se estiver esquecido) anunciando a morte dos colegas. Só não me recordo para qual equipe exibiram o microfone e a câmera abandonados sobre a bancada vazia enquanto os créditos subiam em silêncio. Só tenho certeza de que foi a notícia que me marcou até hoje. E eu só tinha seis anos.

* Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos” pela Editora Multifoco/Selo Redondezas - RJ. Seu blog, “Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por leitores





Da peste

* Por Cacá Pereira

Olha lá,
os nordestinos migrando.
Sinto-me aflito.

Parecem desintegrar
o Nordeste,
enquanto se amontoam
em São Paulo e Brasília

que mal os recebem,
torcem o nariz, resmungam
enquanto eles se ajustam
no cobiçado barranco beira-d'água.

Ô, Nordeste sem norte,
sem sul que lhe queira,
sem governo que o valha.

Canta, Nordeste!
Silêncio
não lhe cabe.

Um dia tu sais
da área de serviço
e te sentas na sala.
Com os donos da casa
ou sem eles...

* Poeta


A invisibilidade do AVC

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou "derrame" é a maior causa de mortes no Brasil, fazendo mais vítimas do que uma guerra no Oriente Médio. De acordo com dados estatísticos, a doença deixa uma enorme legião de “sequelados”, que na maioria das vezes se sentem um "zero à esquerda", comprometendo sua auto-estima e causando perdas graves. E onde estará escondido esse grupo enorme de brasileiros? Tornam-se invisíveis, escondem-se por medo, medo de sofrer mais uma grave perda: do mercado de trabalho, da cidadania, da dignidade, do "ser". Um país que não dispõe de informações, prevenção ou tratamentos emergenciais adequados, certamente encara o modelo da invisibilidade como abordagem de suas questões. A sociedade tem que se virar de algum meio para manter a solidariedade, criando novos modelos. A sociedade não pode se deixar "avecerizar", ou seja, tornar-se invisível, fragilizar-se ou infantilizar-se.
Pensando a todo o momento no assunto, o médico psiquiatra Daniel Chutorianscy, que recentemente foi acometido por grave AVC, sentiu como médico e paciente o drama do "encolhimento" ou "invisibilidade". Tendo como paradigma o seu programa de entrevistas na TV Universitária, o "Pulando a Cerca" (Canal 7 – NET - Unitevê), onde "pular a cerca" é o superar os obstáculos, ele não desistiu de sua cidadania e direitos, continuando a apresentar o programa, tornando-se um inusitado apresentador. Passou a tornar visível aquilo que era invisível. Como assim? Daniel idealizou o Grupo AVC - Pulando a Cerca, que é totalmente gratuito, todos são bem vindos: "avecerizados", enfartados, familiares, amigos e amigos dos amigos. Os encontros acontecem todas as sextas-feiras, às 15 horas, à Rua Gavião Peixoto 80, Sl. 503, em Icaraí, Niterói. Para mais informações, ligue (21) 9996-6514.
A tarefa do grupo é resgatar a visibilidade daqueles brasileiros que ficaram invisíveis por graves sequelas como a dor, a mágoa, a frustração, a perda dos direitos, mas mantêm a sua lucidez. Transformar a doença em projeto coletivo, projeto esse de dar uma nova vida a essas pessoas, enfrentando as adversidades e vivendo com maturidade, visibilidade e bom humor. Para Daniel, a proposta é não ter mais medo de ser, de caminhar pelas ruas com sol ou com chuva, mesmo tendo dificuldades físicas, e entraves como cadeiras de rodas, bengalas, demonstrando a capacidade de exibir seus direitos e cidadania. Niterói mais uma vez dá um passo adiante criando, rompendo a invisibilidade e trazendo à luz a saúde e a dignidade.

O PROGRAMA DE TV

No programa “Pulando a Cerca” desta sexta-feira, dia 28, às 10h30, na Unitevê (17 NET), uma entrevista com a Assistente Social, Nanci Bispo. Ela também faz parte do Grupo AVC - Pulando a Cerca, e vai contar como está enfrentando a doença com muita garra, determinação e lucidez. Para quem não é assinante, a produção também pode ser acompanhada pela Internet. Para isso, o internauta deve acessar o site www.uff.br/uniteve
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quarta-feira, 26 de agosto de 2009


Leia nesta edição:

Editorial – Focos diferentes.

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, crônica “Mentiroso ou criativo?”

Coluna Personalidade e atitude – Sayonara Lino, crônica “Vizinho”.

Coluna Jornalista do Sertão – Seu Pedro, crônica “É melhor denunciar ao UNICEF”..

Coluna Porta Aberta – Zeka de Queiroz, poema “Cavaleiro (marginal) do tempo”.

Coluna Porta Aberta – Yeda Prates Bernis, poema, “Eclesiastes”.

Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.

Focos diferentes

Um leitor pergunta: “quem lucra mais, o escritor, que passe a atuar também no jornalismo (o que se tornou mais fácil com a abolição do diploma de jornalismo) ou o jornalista que lá um belo dia se transforme em escritor?”. Há vários aspectos a se ponderar. Primeiro, nada impede que alguém exerça ambas funções, simultaneamente. É o caso da imensa maioria dos nossos colunistas (embora não dos colaboradores).
Aliás, no século XIX, e boa parte do século XX, as redações eram compostas quase que exclusivamente por escritores. No outro extremo, nem todos os jornalistas (diria que são raros) se aventuram no pantanoso campo da Literatura, que pode tanto consagrar, quanto “queimar” um intelectual de valor.
Claro que o foco e, sobretudo, a linguagem dessas duas atividades são diferentes. O do jornalismo, é o fato, nu e cru, exatamente como aconteceu. É, portanto, o máximo das heresias “criar” em cima da notícia. Esta tem que ser transmitida, sempre, rigorosamente como aconteceu (infelizmente não é, pelo menos não por todos. Mas... deixa pra lá!).
Já a linguagem do escritor é menos seca, mais solta, diria que liberta da chamada “objetividade”. Quanto mais criativa for, melhor. Seu foco pode até ser algum determinado fato, alguma notícia que não se esgote no dia seguinte e que mereça ser registrada em livro. Mas, em geral, não é a realidade, e sim o que é fictício. É certo que a verossimilhança é desejável, mas sequer se trata de regra, de condição sine qua non, de obrigação para o escritor.
É provável que o espírito da pergunta do leitor se refira às vantagens financeiras de cada atividade, supondo que uma mesma pessoa não exerça simultaneamente ambas. Nesse aspecto, o escritor, que se transforme em jornalista, lucra infinitamente mais (apesar de, convenhamos, o profissional de imprensa não ser remunerado no valor que merece ser, salvo raras exceções), a menos que se trate de um Paulo Coelho. Daí... pode viver, exclusivamente, sem receios e sem sustos, do lucro advindo da venda dos seus livros.
Nas redações, pelo menos, o sujeito terá emprego fixo, com registro em carteira, recolhimento para a Previdência e possibilidades de, um dia, se aposentar. Isso, sem falar em Fundo de Garantia e de outras tantas vantagens sociais e trabalhistas.
Na Literatura, todavia, irá depender, sempre e sempre, dos caprichos e vontades do leitor (supondo, é claro, que consiga ao menos editora para publicar seus livros). Pode, por exemplo, escrever uma obra-prima, dessas a salvo de qualquer reparo e.... nada acontecer. É verdade, também, que pode produzir o caricato e o ridículo, simultaneamente, ou seja, um tremendo besteirol, e vender rios de exemplares. Cada um compra o que quer. Mas é muito mais comum a ocorrência de inexplicáveis encalhes de excelentes livros do que baboseiras e infantilidades se transformarem em best-sellers. Contudo... acontecem, esteja certo.
Para responder, portanto, à pergunta do leitor, sem tergiversar e nem ficar em cima do muro, afirmo (por experiência própria) que o melhor é, mesmo, exercer, simultaneamente, as duas atividades. O profissional que fizer essa opção (claro, se tiver talento, cultura, aptidão e conhecimento técnico para as duas) contará com as garantias trabalhistas que o jornalismo lhe dá e poderá, de vez em quando, apostar na “roleta russa” da Literatura.

Boa leitura.

O Editor.



Mentiroso ou criativo?

* Pedro J. Bondaczuk

O escritor austríaco, Robert Musil, escreveu, no livro “O homem sem qualidades”: “A criança é criativa porque é crescimento e se cria a si própria. É como um rei, porque impõe ao mundo as suas idéias, os seus sentimentos e as suas fantasias. Ignora o mundo do acaso, pré-laborado, e constrói o seu próprio mundo de ideais. Tem uma sexualidade própria. Os adultos cometem um pecado bárbaro ao destruir a criatividade da criança pelo roubo do seu mundo, sufocando-a com um saber artificial e morto e orientando-a no sentido de finalidades que lhe são estranhas”.

Este trecho cabe como uma luva para caracterizar o menino imaginativo que um dia fui e que ainda permanece vivo, posto que adormecido, dentro de mim. Tive uma infância, digamos, um tanto conturbada, em virtude de uma poliomielite que me acometeu quando tinha, apenas, seis anos de idade. Subitamente, da noite para o dia, me vi impedido de fazer tudo o que gostava: jogar bola, andar de bicicleta, empinar papagaio, correr atrás de balões etc.etc.etc.

De repente, meu mundo ameaçou ruir. Passei a viver uma rotina aflitiva, caracterizada por médicos, hospitais, fisioterapias, internatos etc. Mas a vida estava ali, como uma delicada e rara flor, para ser colhida e apreciada por mim. Como?

Fisicamente não dava! Não conseguia acompanhar as outras crianças em suas brincadeiras e isso me frustrava. A intuição infantil, contudo, sugeriu-me uma solução, uma alternativa, um caminho a seguir. Em vez da frustração, optei por me valer da imaginação. O que me impedia de criar um mundo só meu, em que poderia fazer o que e quando quisesse, como melhor me aprouvesse?! Nada! Foi o que fiz.

Como tanta criança sempre fez, faz e fará mundo afora, criei um séqüito de amigos imaginários que me eram sumamente fiéis. Brincavam comigo, quando ninguém mais queria brincar. Ouviam-me, compreendiam-me e justificavam-me. Não me abandonavam nem de dia e nem de noite, chovesse ou fizesse sol.

Cabe aqui um esclarecimento. Muitos confundem a imaginação infantil com “mentiras”. Tentam reprimir suas fantasias, sob a argumentação de que “é feio e, por isso, condenável mentir”. De fato é. O que falta a esses adultos é lembrar de como eles eram quando crianças. Ou seja, o que lhes passava pela cabeça naquela fase das suas vidas?

A mentira caracteriza-se pela intenção de esconder algo de ruim que fizemos de alguém e que negamos de pés juntos termos feito ou para, em geral deliberadamente, enganarmos outras pessoas, visando obter alguma vantagem por meio ilícito, qualquer que ela seja. Não tem, pois, muito a ver (diria nada) com a imaginação, sobretudo a infantil.

Na época, embora eu já soubesse ler (aprendi com o meu pai, quando tinha apenas cinco anos de idade, numa velha Bíblia, que nem sei onde foi parar), não havia lido, ainda, esse marcante livro de Jonathan Swift, “As viagens de Gulliver”.. Pois não é que recriei essa história, que nunca até então havia lido (fui lê-la, apenas, quando já tinha catorze anos) nos mínimos detalhes?! Como? Não sei.

Nessa ocasião, eu residia em São Caetano do Sul, cidade operária do ABC paulista. Morávamos, de forma improvisada, em uma pequena (mas confortável e aconchegante) casa de fundos, enquanto na frente, meu pai construía uma residência maior, o dobro daquela, com inúmeras interrupções na obra, de acordo com a disponibilidade de dinheiro (que era sempre curto). Levou cinco anos para concluí-la.

Observando as formigas, passatempo de que gostava demais, no qual despendia horas e mais horas, dias e mais dias, semanas e mais semanas, dei asas à imaginação. “Criei” um minimundo povoado por anões tão pequenos, que mediam, somente, um palmo de altura. E mais, “inventei” toda uma cidade, em que esses personagens viviam: trabalhavam, brincavam, amavam, brigavam, se reproduziam, mas, sobretudo, conversavam comigo e narravam-me fatos das suas vidas.

Devo dizer que nunca fui considerado mentiroso pelos meus pais. Aliás, não raro, eu era sincero até demais. Sempre que aparecia alguma coisa quebrada em casa, por exemplo, e que meus pais queriam culpar minha irmã por isso, de pronto assumia a culpa, mesmo que isso me valesse algumas palmadas (e valiam muitas) e horas e horas de castigo.

Subitamente, a fantasia dos “anões” liliputianos ganhou ares de “verdade” em minha mente. Primeiro, falei a respeito deles para um raro garotinho que se dispunha a brincar comigo quando ninguém mais queria fazer. Essa alma pura e sem malícia acreditou na minha história e espalhou-a entre a meninada das redondezas. Subitamente, me vi diante de platéias crescentes de garotos, ávidos por meus relatos sobre as peripécias dos tais “anões”. E minhas narrativas se sucediam, cada vez mais verossímeis, em meio a tanta inverossimilhança.

O caso, não sei como, caiu nos ouvidos do meu pai. Certa noite, ele chamou-me num canto e disse: “Pedrinho, você sabe que é feio mentir. Você anda contando mentiras para seus amigos?”. Respondi-lhe, convicto (pois na minha ótica, aquelas histórias eram muito reais): “Não!”. E não mentia, de fato. Limitava-me a dar asas à imaginação, com isso estimulando, também, a dos meus crescentes ouvintes.

Certa feita, um dos garotos mais incrédulos, desses precocemente amadurecidos, chamou-se de “mentiroso” na cara, sob apupos gerais. Irritado, desafiou-me: “Se é verdade, por que você não nos mostra essa sua cidade de anões?”. Boa pergunta. Como sair dela? Prometi consultar o líder deles para saber se permitiriam que outros, que não eu, os vissem. Fui salvo pelo gongo. No dia seguinte, fui levado por meu pai para um internato, em que passei longos quatro anos.

Passadas várias décadas, já adulto, fui considerado por muitos coleguinhas de então como um “grande mentiroso, um tremendo cara de pau, que mentia sem ficar vermelho”. A maioria, no entanto, passou a me considerar como um “competente e criativo contador de histórias”. E estes amigos queridos passaram, desde então, a me incentivar para que eu me tornasse um escritor. Deu no que deu!

Na minha ótica infantil, eu não mentia. Nunca menti. Afinal, assumi todas as culpas que me eram cabíveis, sem jamais buscar lançá-las às costas de quem quer que fosse. Meu pai, homem sensível, sábio e, sobretudo, bom, soube compreender isso e nunca tocou nesse assunto até sua morte.

Aquele mundo em miniatura e aquelas criaturas compreensivas e amigáveis de fato existiam. Aliás, existem até hoje, bem no fundo da minha memória, na criança que vive em mim. Os adultos é que não eram (e nem são) imaginativos o suficiente para enxergá-las e se relacionar com elas. Azar deles!

*Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas), com lançamentos previstos para os próximos dois meses. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com