Ravena
Por
Alexander Blok
Tudo
o que é instante, tudo o que é traço
Sepultaste nos séculos, Ravena.
Como uma criança, no regaço
Da eternidade estás, serena.
Sepultaste nos séculos, Ravena.
Como uma criança, no regaço
Da eternidade estás, serena.
Sob
os portais romanos os escravos
Já não trazem mosaicos pelas vias.
O ouro dos muros arde
Nas basílicas lívidas e frias.
Já não trazem mosaicos pelas vias.
O ouro dos muros arde
Nas basílicas lívidas e frias.
Os
arcos dos sarcófagos desfazem,
Sob o beijo do orvalho, as cicatrizes.
Nos mausoléus azinhavrados jazem
Os santos monges e as imperatrizes.
Sob o beijo do orvalho, as cicatrizes.
Nos mausoléus azinhavrados jazem
Os santos monges e as imperatrizes.
Todo
o sepulcro gela e cala,
Os muros mudos, desde o umbral,
Para não acordar o olhar de Gala*,
Negro, a queimar por entre a cal.
Os muros mudos, desde o umbral,
Para não acordar o olhar de Gala*,
Negro, a queimar por entre a cal.
Das
pesadas de sangue e dor e insídia
O rasto já se apaga e se descora.
Para que a voz gelada de Placídia*
Não se recorde das paixões de outrora.
O rasto já se apaga e se descora.
Para que a voz gelada de Placídia*
Não se recorde das paixões de outrora.
O
longo mar retrocedeu, longínquo.
As rosas circundaram as ameias,
Para que os restos de Teodorico
Não sonhem com a vida em suas veias.
As rosas circundaram as ameias,
Para que os restos de Teodorico
Não sonhem com a vida em suas veias.
Onde
eram vinhedos — ruínas —
Gentes e casa — tudo é tumba.
Sobre o bronze as letras latinas
Troam nas lages como trompa.
Gentes e casa — tudo é tumba.
Sobre o bronze as letras latinas
Troam nas lages como trompa.
Apenas
no tranquilo e atento olhar
Das moças de Ravena, mudamente,
Às vezes uma sombra de pesar
Pelo irrecuperável mar ausente.
Das moças de Ravena, mudamente,
Às vezes uma sombra de pesar
Pelo irrecuperável mar ausente.
À
noite, inclinado entre as colinas,
Só, pondo os séculos à prova,
Dante — perfil aquilino —
Canta para mim da Vida Nova.
Só, pondo os séculos à prova,
Dante — perfil aquilino —
Canta para mim da Vida Nova.
Tradução
de Augusto de Campos
*
Poeta e dramaturgo russo.
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