Sujeito Zero (17)
* Por Sergio Vilas Boas
Subindo
a Rua C, o reflexo
luzidio de um carro que faz a volta na outra esquina distorce a
sombra de Seu Edmundo no muro. À medida que a rua aplana, ele tenta
forçar o passo. Faz uma semana que se desligou da Fazenda Futura e
voltou. Atinge o portão de entrada da casa de fundos e penetra pelo
corredor de acesso como um fantasma. Não sofre de pânico mas
parece o vampiro diante do crucifixo.
Carmem e Alfredo, locadores da
casa de fundos em que Seu Edmundo morou, estão às gargalhadas
diante da tevê. Significa que o vulto de Seu Edmundo pode ser visto
e isto é tudo o que ele não deseja que aconteça. As cores da tevê
convertem as vidraças da porta de correr em um prisma. Seu Edmundo
pretende passar despercebido.
Mas uma arrancada brusca
repuxa-lhe o peito, pungindo-o bem no lado esquerdo. Dobra-se de dor
e fica à mostra através da porta de vidro. Custa a sintonizar tempo
e espaço. A luz do corredor foi acesa. Segue-se então um ruído
penetrante de ferro com ferro, ecoando agudos que o arrepiam.
O indesejável se impõe.
- Seu Edmundo, o senhor está
bem? (Pergunta
Carmem).
Seu Edmundo recobra os
sentidos aos poucos. Já pode ver Carmem nitidamente. Ela usa um
lenço na cabeça e uma blusa cigana suspensa por duas tiras finas
nas extremidades dos ombros.
- Alfredo, vem cá. (Carmem
grita).
Agora ele pode ao menos tirar
a mão do peito. A testa ensopou. Carmem a enxuga com o lenço que
Seu Edmundo costumava trazer embolado no bolso da camisa. Ele abre um
sorriso fácil, antes que Alfredo também apareça, o que não demora
a ocorrer.
- Tive uma tonteira de
repente, mas já estou bom.- Tonteira não é normal, Seu
Edmundo. (Carmem
espeta).
- Tem tido isso sempre?
(Intromete-se
Alfredo).
É exposição demais para um
recluso que detestava, por exemplo, ser visto fazendo a barba; e que
“fugiu” da Fazenda Futura levando consigo o diagnóstico
“bronquite tabágica”, feito pela médica negligente de Catas
Altas.
- Também, olha, do jeito que
o senhor fumou na vida... (Assim,
Alfredo o ofende).
Carmem desvia a conversa.
Pergunta se Seu Edmundo quer um pouco de água. Não. Antes de
entrar, pois não podia perder o programa da Hebe Camargo, ela
reforça que se ele precisar de alguma coisa é só tocar a
campainha. Alfredo então fica à vontade para abordar seu inquilino.
Uma oportunidade de ouro, única.
- Seu Edmundo, é muito
oportuna a sua aparição aqui, agora, mesmo em circunstâncias tão
desagradáveis. Olha, sua saúde não parece nada boa. Eu não gosto
de falar certas coisas com o senhor porque sei o homem sério
que o senhor é. Além do mais, mora no meu imóvel há muito tempo
e... O que foi, tonteira de novo?
- Não.
- Então. Desde que o senhor
voltou da tal Fazenda que estou pra lhe comunicar uma coisa...
- Alfredo, por favor...
- Eu sei, eu sei. O senhor
adora aqui, o meu imóvel, o bairro, os vizinhos, eu entendo. Sua
filha Alma fez questão de lhe garantir o aluguel mesmo quando o
senhor esteve internado.
- Alfredo, deixa isso pra
depois. (A voz de
Carmem vem lá de dentro).
- Não se mete, Carmem.
(Retruca o machão)
Uma conversa como esta,
naquele momento, era tão desagradável quanto queimar a língua com
uma xícara muito desejada de café quente.
- O que quero dizer, Seu
Edmundo, é que Alma não me pagou os últimos três meses do
aluguel.Uma centelha de dignidade se
acende em Seu Edmundo, apesar do medo de parecer suspeito.
- Eu mesmo vou lhe pagar os
atrasados amanhã. (Mente,
pois está sem um centavo).
Mas é o que Alfredo esperava
ouvir. Além de tudo, uma forma de evitar que Carmem insista em
defendê-lo e em seguida seja massacrada verbalmente pelo marido,
como era costume.
- Sou um dos sujeitos mais
solidários deste bairro. Mas o aluguel, esse não tem jeito. Além
do mais, não posso mais segurar o valor que Alma está me pagando.
Temos que reajustar.
Alfredo tem trejeitos de ator,
embora não passe de um barrigudo disfarçado. Em casa, está sempre
usando camiseta de esportista, short estrangulando os testículos
e um tênis de couro preto, apropriado à prática do futebol de
salão. Ele ara o cabelo sebento com as pontas dos dedos pela décima
vez. Enche os ombros de caspa. Depois corrige o repartido, voltando
ao aspecto de homem maduro, precocemente grisalho.
- E acho também que a gente
não precisa ficar escondendo um do outro, não é mesmo?- Claro que não. Até mais,
Alfredo.
Seu Edmundo segue o
corredor iluminado pelas luzes da sala de Alfredo, onde Carmem não
presta atenção ao que a tevê não diz. Os olhos de Seu Edmundo
disparam fagulhas em desvairada pirotecnia.
À virada do corredor da
morte, a escuridão; há apenas um pequeno feixe de luz suficiente
para iluminar os sapatos Vulcabrás e orientar a descida dos três
degraus até a casa de fundos.
- A gente voltará a falar
no assunto. (Brada
Alfredo, às costas de Seu Edmundo).
Mais alguns passos e ele está
na porta de sua caverna. Não precisa acender a arandela ao
lado. Está acostumado a abri-la no escuro mesmo. A noite clara e
seca facilita a operação. Destranca a portae acende a luz da sala. O
camaleão co-morador rapidamente se esconde atrás do
auto-retrato de Seu Edmundo, desenhado por um sujeito que, num bar
qualquer, anos atrás, compartilhou com ele aperitivos e cigarros sem
filtro.
Liga a tevê. Na geladeira há
bastante água fria para regar a garganta em uma noite quente. A casa
de fundos é uma fornalha no verão. Fechada e exposta ao sol o dia
todo, se transforma em uma estufa à noite. Não
fosse a turbina de seu barulhento circulador de ar, seria impossível
passar uma noite inteira ali dentro sem derreter. Mas ele gostava.Enquanto desabotoa a camisa,
segue com os olhos a fileira de formigas em marcha rumo à nesga
do portal. Bem no cantinho da porta, vê correspondências, em torno
das quais as formigas estão fazendo meia-volta. Atira a camisa
longe, deixa a calça escorrer pelas pernas.
De cueca samba-canção branca
com bolinhas azuis-marinhos, um pé envolvido em meia marrom, o outro
descalço, Seu Edmundo volta à sala segurando os folhetos que irão
para o lixo. Encosta a cabeça na poltrona, aquieta a papelada sobre
o colo. Olha o teto e pensa uma porção de coisas aleatórias.
As soluções já
dependem exclusivamente de sua vontade, o que aumenta o risco de
desconfortos. Ao final da vida, Seu Edmundo dependia de carinho e
finanças para sobreviver. Conseguiu aposentar-se por idade e tempo
de serviço, mas isto só lhe rendia um salário-mínimo mensal, ou
seja, metade do valor do aluguel. Ele precisava de Alma.
Aquele homem foi de uma
dignidade acima da média. Nunca foi o tipo carente que cobra atenção
dos outros o tempo todo. Gente assim parece coiote faminto,
insaciável, nada basta. Meu pai, não. Ao contrário, tudo lhe
bastava. Ele lutou pela vida com armas muito especiais. O silêncio
era apenas uma delas.
*
Jornalista, escritor e professor. Editor do portal TextoVivo
Narrativas da Vida Real (www.textovivo.com.br);
vice-presidente da Academia Brasileira de Jornalismo Literário
(ABJL). Autor de “Os
Estrangeiros do Trem N”
(1997), “Biografias
& Biógrafos”
(2002) e “Perfis”
(2003), entre outros. E-mail: svilasboas@textovivo.com.br.
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