Relacionamentos
amorosos através dos tempos
* Por
Mara Narciso
A
minha mãe ficou casada por três décadas e era uma pessoa descrente
do casamento e do amor. Dizia: quando a mulher se casa, a família e
os amigos a levam, porém quando se separa, vai sozinha.
Pouco
sei do casamento dos meus bisavós maternos. Foram eles Jason Gero de
Souza Lima (1872) e Florisbella Queiroga. Ela era corajosa e defendia
o marido através de seguranças da fazenda, chamados “jagunços”.
Tiveram uma penca de filhos e criaram 13 até a idade adulta. Nome de
rua, Jason Gero era comerciante poderoso, comprava diamantes,
importava madeiras que vinham de trem, e era dono da Fazenda Lagoa da
Barra. Morreu perto dos 60 anos, em consequência de dose dupla de
medicamento para asma. Sua esposa nada sabia dos seus negócios, que
evaporaram com sua morte.
Meus
avós maternos Petronilho Narciso e Maria do Rosário de Souza
Narciso, namoravam e nisso tinham a desaprovação do pai dela. Pouco
tempo depois do sepultamento de Jason Gero, vovó, com 21 anos e vovô
com 24 se casaram em quatro de outubro de 1931. Com todo o cerco do
namoro proibido, concretizado no casamento, ainda assim meu avô foi
infiel. Tiveram 11 filhos. A minha avó o perdoou décadas depois,
mas não se esqueceu. Apenas a morte dela os separou, após 55 anos
casados. Dos nove filhos que chegaram à idade adulta, apenas quatro
não se separaram.
Meus
pais Alcides Alves da Cruz e Maria Milena Narciso Cruz se casaram em
12 de dezembro de 1953, ele, aos 24 anos e sem amor e ela, aos 19,
cheia de ilusão. Viveram juntos por 31 anos, Milena envolta em
sentimentos hostis de indiferença e opressão. Ela, na prática da
submissão, ele no mando, tiveram quatro filhos. Meu pai deu mostras
de vida dupla. Quando minha mãe comprovou, dez anos depois do
acontecido, ficou irredutível. Rompeu o casamento e nem laços de
amizade quis.
Eu
me casei aos 22 anos, apaixonada por Flávio Rocha Silveira, com 28
anos, em 15 de dezembro de 1977. Ficamos casados durante 29 anos, mas
acabou. A nos unir, permaneceu Fernando, o nosso filho. Separamos e
não mantivemos amizade.
Hoje,
com as redes sociais, os casais se formam, se transformam, se
deformam, se maltratam e se separam com a velocidade de um toque na
tela. Na vitrine virtual Facebook fica-se sabendo quem está
temporariamente com quem. Ao se mudar o estado de relacionamento, os
olhares dos amigos/contatos se voltam para o casal desejando
felicidades. Como a inveja é um sentimento generalizado, é comum
que olhares “seca pimenteira” ajam tirando energia do casal, como
também o afeto que porventura sintam. Logo se dá o rodízio das
cadeiras, e um novo casal se forma. Por favor, pegue a sua senha.
Nesse
mundo pequeno, assombrações do passado e até mesmo do futuro se
fazem presentes, e em nome de não ficar só, tenta-se um replay, mas
o amor é o grande perdedor. Conheci casais de gente comum, que
namoraram anos e, depois do casamento ficaram juntos apenas alguns
dias.
Juntar
duas almas debaixo do mesmo teto é prova para maratona. Hoje, poucos
se sujeitam à tolerância e ao sacrifício. O convívio do dia a
dia, quando um dos dois não se anula ou ambos querem seu lugar ao
sol, é um desafio para santos. A prova de fogo começa na
lua-de-mel, no espaço exíguo de um quarto. Caso não se irrite
nesse curso intensivo, é indício de que o casamento poderá durar.
Revendo
a história da família, com irmã e primas que já se casaram três
vezes, mesmo não tendo formação para analista comportamental,
procuro entender o motivo dos casamentos antigos começarem sem amor
e se arrastarem por 50/60 anos e a razão dos de hoje começarem
apaixonados e existirem apenas por meses.
Fique
alerta ao tempo, pois em dois anos o que for paixão se acaba. Ela
poderá se transformar noutro sentimento, mas, afinal, onde mesmo foi
parar o amor?
*
Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia
Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de
Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”
Realmente, Mara, é paradoxal essa realidade que você constatou - sucintamente formulada no penúltimo parágrafo... Que se manifeste quem tiver uma explicação!
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