quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Glauco Rodrigues Corrêa


* Por Urda Alice Klueger


Quando conheci Glauco Rodrigues Corrêa? Num congresso de escritores em Blumenau? Na Editora Lunardelli? Em algum lançamento de livro? Não sei mais dizer; não me lembro. Sei é que, de repente, conhecia o Glauco, aquele Glauco cheio de vívida alegria, uma alegria tão contagiante que o tornava totalmente encantador. Aqui e ali encontrando o Glauco, sempre com aqueles trejeitos de quem é alegre, seu jeito engraçado de sacudir os ombros e dar opiniões, um certo tique nervoso no jeito de piscar, um amor de criatura! Uma vez, passamos uma tarde inteira juntos. Foi numa feira do livro, em Florianópolis, montada em frente à Catedral, num mês de novembro. Ventava o mais legítimo vento sul, tornando gelada a tarde que deveria ser quente, e todos tremíamos dentro dos agasalhos. Pelas três horas haveria um debate entre escritores e alunos no Teatro Álvaro de Carvalho, e para lá se dirigiram os escritores em magote, prontos a conversar com a moçada que enfrentava o vento sul para nos curtir.

No teatro, elegantíssima senhora de vestido brilhante e laquê brilhante nos cabelos arrumados, também comparecera na condição de escritora. Não a conhecíamos. Perguntamos o que escrevia, e ela nos disse, muito de cima de um pedestal, que preparava um livro de sonetos. Lembro do olhar malicioso do Glauco cruzando-se com o meu, diante dos sonetos e da visível arrogância da senhora elegante. Lá se vão anos, e ainda não sei quem era aquela senhora. Sei é que nos divertimos muito às custas dela. Subimos ao palco com a boa intenção de realmente conversarmos e debatermos com os alunos e lá estavam Silveira de Souza, Flávio José Cardoso, Alcides Buss e outros tantos de quem agora não lembro, escritores que teriam muito o que dizer aos alunos transidos de frio, mas a senhora elegante não deixou ninguém falar: apossou-se do microfone e fez uma palestra chata e insípida, que fazia com que os alunos (e os escritores) bocejassem. Olhares significativos eram trocados entre os escritores calados, e eu me continha para não rir diante dos olhares cáusticos do Glauco.

Ao final da palestra, caímos todos fora o mais rápido possível, alunos e escritores, a discutir quem seria aquela senhora que tornara tão chata a tarde. Havia uma decepção geral diante do que não acontecera. Voltamos para a praça, para a feira do livro. Lá, também estava instalada uma barraca onde se vendia cachaça. Havia incontáveis vidros contendo as mais diferentes cachaças, desde cachaça com cobra até cachaça com rosas, passando pelo butiá, jabuticaba, todas essas iguarias que a criatividade do brasileiro elaborou. Cada vidro tinha um número e, se bem me lembro, as cachaças eram numeradas de 1 a 80. O vento e o frio, além de haverem espantado as pessoas da feira do livro, pediam que a gente aquecesse a alma com algo mais forte, e não tivemos nenhuma dúvida quando paramos na barraca das cachaças. Começamos a prová-las pela sequência em que estavam numeradas, um tiquinho só de cada, e paramos bem antes do número 80, mas quanto nos divertimos! Estávamos todos mais ou menos injuriados pelo fracasso no debate com os alunos, e Glauco não escondia nem um pouco o seu estado de espírito. Acho que não devo reproduzir aqui os comentários engraçadíssimos e contundentes que ele fez a respeito da elegante senhora que nos roubou a tarde, mas posso garantir que eles foram ferinos, e tão bem humorados, que nos colocavam todos a rir. Glauco acabou se transformando na estrela da tarde, e o rodeávamos expandindo as almas nas risadas que o seu bom humor provocava, e ele era como um sol a iluminar e a aquecer aquela tarde de novembro e vento sul.

Depois daquele dia, tornei-me irrestrita admiradora do Glauco tendo, só depois disso, acesso aos seus livros. Ah! Glauco, quanta inteligência, quanto primor nas tramas, quanta sutileza criadora no que você escrevia! Na sua modéstia Glauco era uma dessas pessoas que tinha nascido para ser grande, para brilhar, e só eu sei o quanto me doeu saber que, de uma forma tão repentina, a sua trajetória foi cortada pela morte, assim, em pleno viço dos anos, no raiar da idade mais profícua da vida! Eu acredito que, de alguma forma, a gente continua do lado de lá, depois que esse corpo aqui deixa de viver, e que, se Glauco se foi para nós, em alguma outra dimensão ele continua brilhando e expandindo o seu bom humor crítico e ferino, e é para essa outra dimensão que eu tento olhar agora, quando não lhe digo adeus. Acredito que algum dia todos nós iremos nos reencontrar nessa outra dimensão, e é por isso que só lhe digo: até mais, Glauco! A gente se vê!

(Texto lido na Academia Catarinense de Letras, quando da Sessão de Saudade pela morte do escritor Glauco Rodrigues Correa, no dia 25 de março de 1993)


* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR, autora de vinte e seis livros (o 26º lançado em 5 de maio de 2016), entre os quais os romances “Verde Vale” (dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12 edições).



Um comentário:

  1. A senhora elegante tinha arrogância e não tinha nome. Melhor assim.

    ResponderExcluir