Reserva
* Por
Mara Narciso
Reservar é poupar, guardar,
fazer segredo, ocultar. Os amigos sugerem “não sofra antes da hora”, para que
se guarde energia para o momento propício. Melhor gastar a força com parcimônia
no período que antecede a revelação, para que se tenha coragem na hora crucial.
Por inútil, a preocupação, paralisia no momento presente para tentar mudar o
futuro, não deveria ser sentida. Ainda que seja um consumo de energia sem
nenhum proveito é vista por alguns como uma virtude. “Mas eu me preocupo com
você!” Melhor ocupar-se, pois estudos mostram que 85% das preocupações não se
concretizam (ignoro a fonte).
Ser discreto e não
escancarar a vida e os problemas pessoais ou de pessoas próximas é tido como
reserva de mercado. Falar demais a quem não merece confiança é certeza de
aborrecimento. A discrição, sim, é virtude, especialmente tratando-se de
sentimentos, doenças e negócios. A inveja pode fazer o ouvinte mudar de lado e
enviar maus eflúvios. O mundo se move ao poder das emanações invisíveis, e das
ruins ninguém quer ser alvo.
Em tempo de descrença
generalizada, período em que debaixo de cada pedra tem uma serpente, a reserva
moral vale ainda mais. Felizes dos que podem confiar em alguém a ponto de pular
de cabeça do alto do trapézio de braços e peito abertos, e olhos e corpo
fechados, sem medo. A existência de pessoas desse tipo no seu rol de
relacionamentos vale muito, é mais do que ter dinheiro, é força, segurança,
garantia e equilíbrio.
Quase nenhum jovem
toma cuidados adequados com sua saúde, e pensa que esse bem será eterno. Cuida-se
relativamente bem da pele, mas se esquecem dos ossos e dos músculos, e da perda
acelerada da massa óssea e muscular da maturidade. Se fizer algum exercício é
pensando unicamente na estética daquele momento. Tais reservas serão úteis
quando a recuperação desses bens físicos se tornarem mais difíceis.
Poupar lembra dinheiro
e é bom que se reserve algum para momentos de dificuldade econômica, hora de
buscar na reserva. No nosso sexto ano de seca, é preciso reservar água,
energia, reduzir a produção de lixo, pensar no coletivo.
Também se devem poupar
emoções ruins vindas de discussões inúteis, especialmente no campo religioso,
futebolístico e político, feitas entre pessoas de ideias petrificadas e
alinhamento de pensamento oposto ao seu, e isso é óbvio. Explosivas discussões
são lidas nas redes sociais, palcos de engalfinhamentos dos mais ferozes,
infelizes e infrutíferos. Seria bom que fossem levadas adiante, porém de forma
civilizada.
Em reserva de hotel a
palavra reserva está ligada a algo bom que deverá ser utilizado mais tarde. Em
reserva florestal significa preservar e não utilizar.
Para quase tudo,
gastar com moderação, fazer economia, porém evitando a avareza. Confiar, com
reservas, se declarar com reservas, porém amar sem reservas, guardando para si
as exatas dimensões desses arroubos, pois o que há em abundância não tem valor.
Discreta, poderia reservar-me o direito de ficar calada, mas direi que vivi,
vivo e viverei apaixonada, reservadamente.
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
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