Amor, gênese e rumos
* Por
Rubem Costa
Uma rosa à margem da
estrada
O ódio chegou bem mais
tarde. Quando Caim matou Abel, a terra já era redonda e girava em torno do sol,
embora ninguém ainda o soubesse. Como também se ignorava ser o rancor, que a
inveja gerou, produto adquirido que marca a degradação do ser. Todavia, ao avesso,
sentimento inato, o amor vem de um tempo imemorial que se perde na distância
das eras. Intuitivo, estava incrustada no espírito do Criador no instante
surpreendente em que teve a idéia mágica de inventar o mundo.
A Bíblia conta — todos
sabem, está no Gênesis — que, dividindo seu trabalho em etapas, Deus
preliminarmente iluminou o espaço, fazendo surgir o sol, a lua e as estrelas,
enquanto laboriosamente articulava a habitação da terra. Aconteceu que, vendo
os pássaros a cantar no arvoredo, o rato que morava nas moitas (nem suspeitava
de políticos), o leão e o tigre percorrendo as selvas, o criador alegrou-se,
porém não ficou satisfeito. E no sexto dia, sentiu que ainda faltava alguma
coisa, algo mais importante de que tudo aquilo que a sua onipotência até então
gerara. Alguma coisa capaz de traduzir em forma a sua imagem e ser em espírito
a sua semelhança. Pensava diante do espelho. Foi daí que lhe ocorreu a idéia
última.
Artista supremo,
colhendo o pó da terra, moldou o bípede que (mal sabia) lhe iria dar muitas
dores de cabeça, mas ao qual desde o primeiro instante amou ternamente, tanto
que não querendo vê-lo estático, insuflou-lhe pelas narinas o sopro do
movimento. Confidencia o Gênesis que “o homem transformou-se em um ser vivo”.
É a intensa manifestação
exterior do amor divino que transborda imensurável sobre o ser minúsculo que
retirara do nada, para, soprando-lhe nas ventas, premiá-lo com o supremo bem
terreno: a vida. É um ato indimensionado: transformar o mísero pó em um ente
revestido de consciência e discernimento, com direito de dar nome às árvores,
às flores, aos regatos e aos animais que o rodeavam. Mesmo assim, Deus
descobriu que bípede estava triste e inquieto. Era a angústia de estar sozinho
no Paraíso, ele Adão, dono de tudo, sem ninguém ao lado. Então, Jeová se
apiedou do solitário, que não reclamava, mas interiormente chorava, porque
solidão é grito que não se ouve, porém ressoa no coração. E por isso, conta o
Velho Testamento, para tirá-lo da aflição, prostrou-o em profundo dormir. Era o
grande, o enorme gesto de amor, pois lhe estava dando a faculdade de sonhar,
desprender-se materialmente de si mesmo em busca de horizontes ignotos. Estágio
supra-terreno que Mauro Sampaio, o poeta, assim define:
“Sonhei ser, mas não
sou.
O universo está
ausente
Quando se é de verdade”.
Eis aí, naquele minuto
onírico, em que se transportava para paragens etéreas, o sofrido Adão, que
pensava ser, já não mais era solitário, porque se derruíra o universo da
soledade. Num universo presente, trazia agora dentro de si a esperança, irmã do
sonho e sustento da vida. Por isso, o Criador que, em um só dia proporcionara a
forma, o bem da existência e o direito de sonhar, haveria de lhe emprestar
também a benção de amar. Vejamos de novo a saga conhecida que nos conta o
Gênesis: — “Então o Senhor Deus adormeceu profundamente o homem; e, enquanto
ele dormia, tirou-lhe uma das costelas, cujo lugar, porém, encheu de carne. Da
costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher e conduziu-a até o
homem, o qual ao vê-la o exclamou: Esta é, realmente, osso de meus ossos e
carne da minha carne”.
Chamar-se-à mulher,
disse o Senhor, visto ter sido tirada do homem. “Por esse motivo, este deixará
o pai e a mãe, para se unir a ela, e os dois serão uma só carne”. Com pedido de
perdão aos teólogos de plantão pela invasão de domicílio, constata-se na
simbologia descritiva que o escriba do Gênesis, acima de tudo, quis trazer à
superfície a força perceptiva do amor. Pois, Deus que fora oleiro ao moldar
Adão, poderia, se quisesse, ter continuado artesão, tirando da terra também a
mulher. Mas não, transbordando em magnanimidade, penetra com afeto no coração
do homem e, cirurgião supremo, retira-lhe do corpo a essência de uma nova vida
que, osso de seus ossos, irá andar a seu lado, parceira imensurável, na
peregrinação eterna da existência. Eis aí, Deus que em doação oferecera ao
homem todo o seu amor divino, lhe infunde agora no coração a graça imensurável
de também amar.
Começa aqui uma
semântica nova. É o homem abdicando do amor paterno e se desfazendo do amor
filial, para com afeto e ânsia de afeto, numa simbiose de êxtase, fundir sua
alma com a da companheira que, antes de ser, já morava no seu coração. No
desenvolvimento da história bíblica, nem sempre há uma seqüência lógica, mas se
descobre claro na metáfora que homem e mulher guardavam a grandeza divina do
amor rotulado de edênico, porque traziam dentro de si a sublimidade da criação,
tanto que, conta o Gênesis, estavam ambos nus e não sentiam vergonha. Uma
figuração comovente: o amor como lastro da mais angelical pureza.
Pureza que ainda hoje
pode medrar, desafiando a Sodoma dos tempos novos. É oblação do ser que no
tumulto da multidão anônima caminha silencioso sem nada pedir para si, mas é
capaz de procurar na margem da estrada uma rosa, ainda que seja simples e
modesta, mas uma rosa rubra de vida para oferecer à companheira que a mão lhe
aperta na singeleza de doce afeto. Instante sublime que há muito se vai
escoando da história do homem, mas, quando acaso acontece, é sublimação da
vida, redenção do ente que o Criador desenhou para ser sua semelhança.
Síntese da essência
pura que se consagra nas sagas de Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Heloisa e
Abelardo. Expressão de inocência que dignifica ao ser e explica o sentido
humano da vida.
*
Professor, jornalista e escritor, membro da Academia Campinense de Letras.
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