quinta-feira, 29 de dezembro de 2011



O ovo da serpente

* Por Frei Betto

Não é preciso ser economista para perceber a grave turbulência que afeta a economia globalizada. Se a locomotiva freia, todos os vagões se chocam, contidos em seu avanço. E o Brasil, apesar do PIB de US$ 2,5 trilhões, ainda é vagão...
Todo ano, desde 1980, cumpro a maratona de uma semana de palestras na Itália. Desde o início deste novo milênio eram evidentes os sintomas de que a próxima geração não desfrutará do mesmo nível de bem-estar dos últimos 20 anos. Nenhuma economia podia suportar tamanho consumismo e a monopolização crescente da riqueza. Agora, a realidade o comprova. A carruagem da Cinderela virou abóbora. A União Européia patina no pântano...
Muitas são as causas da atual crise econômica. Apontá-las com precisão é tarefa dos economistas que não cultivam a religião da idolatria do mercado. Como leigo no assunto, arrisco o meu palpite.
Desde os anos 80, a especulação se descolou da produção. O mundo virou um cassino global. Sem passaporte e sem vistos, bilhões de dólares trafegam livremente, dia e noite, em busca de investimentos rentáveis. Enquanto o PIB do planeta é de US$ 62 trilhões, o cacife do cassino é de US$ 600 trilhões. A famosa bolha... Haja papel sem lastro!
A lógica do lucro supera a da qualidade de vida. A estabilidade dos mercados é, para os governos centrais, mais importante que a dos povos. Salvar moedas, e não vida humanas.
Todos sabemos como a prosperidade da Europa ocidental foi alcançada. Para se evitar o risco do comunismo, implantou-se o Estado de bem-estar social. Combinaram-se Estado provedor e direitos sociais. Reduziu-se a desigualdade social, e as famílias de trabalhadores passaram a ter acesso à escolaridade, assistência de saúde, carro e casa própria.
Em contrapartida, para não afetar a robustez do capital, desregularam-se as relações de trabalho, desativou-se a luta sindical, sepultou-se a esquerda. Tudo indicava que a prosperidade, que batia à porta, viera para ficar.
Não se deu a devida importância a um pequeno detalhe aritmético: se há duas galinhas para duas pessoas, e uma se apropria das duas, a outra fica a ver navios... E quando a fome bate, quem nada tem invade o espaço de quem muito acumulou.
Assim, os pobres do mundo, atraídos pelo novo Eldorado europeu, foram em busca de um lugar ao sol. Ótimo, a Europa, como os EUA, necessitava de quem, a baixo custo, limpasse privadas, cuidasse do jardim, lavasse carros...
A onda migratória viu-se reforçada pela queda do Muro de Berlim. A democracia política chegou ao Leste europeu desacompanhada da democracia econômica. Enquanto milhares tomaram o rumo de uma vida melhor no Ocidente, seus governos acreditaram que, para chegar ao Paraíso, era preciso ingressar na zona do euro.
A Europa entrou em colapso. A culpa é de quem? Ora, crime de colarinho branco não tem culpado. Quem foi punido pela crise usamericana em 2008? Os desmatadores do Brasil não estão sendo anistiados pelo novo Código Florestal?
Culpados existem. Todos, agora, se escondem sob a barra da saia do FMI. E nós, brasileiros, sabemos bem como este grande inquisidor da economia pune quem comete heresias financeiras: redução do investimento público; arrocho fiscal, desemprego, aumento de impostos, corte de direitos sociais, punição a países com déficit público etc.
O descaramento é tanto que o pacote do FMI inclui menos democracia e mais intervencionismo. Quando Papandréu, primeiro-ministro da Grécia, propôs um plebiscito para ouvir a voz do povo, o FMI vetou a proposta, depôs o homem e nomeou Papademos, um tecnocrata, para o seu lugar. Também o governo da Itália foi ocupado por um tecnocrata. Como se o fim da crise dependesse de uma solução contábil.
A história recente da Europa ensina que a crise social é o ovo da serpente – chocado pelo fascismo. Sobretudo quando a crise não é de um país, é de um continente. Não adiantam mobilizações em um país, é preciso que elas se expandam por toda a Europa. Mas como, se não existem sindicalismo combativo nem partidos progressistas?
As mobilizações tipo Ocupem Wall Street servem para denunciar, não para propor, se não houver um projeto político. Quem se queixa do presente e teme o futuro, corre o risco de se refugiar no passado – onde se abrigam os fantasmas de Hitler e Mussolini.

• Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Marcelo Gleiser e Waldemar Falcão, de "Conversa sobre fé e ciência” (Agir), entre outros livros.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011







Leia nesta edição:

Editorial – Poesia e verão.

Coluna De Corpo e Alma – Mara Narciso, crônica “Médicos também adoecem”.

Coluna Da terra do sol – Marco Albertim, crônica “Três narrativas de Tolstói”..

Coluna Porta Aberta – Marleuza Machado, poema “Tua”.

Coluna Porta Aberta – Fabiana Bórgia, crônica “Uma vida bem escrita”.

Coluna Porta Aberta – Jair Lopes, artigo “Seita exótica”


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Poesia e verão


A poesia é intemporal (ou atemporal, como queiram), certo? Sempre entendi que fosse. Todavia, minha convicção começa a vacilar a esse respeito. Vejam o caso das quatro estações do ano. Há inúmeros poemas sobre a primavera (principalmente), outono e inverno, que se prestam, a caráter, até para criativas metáforas. E o verão? Sempre achei que fosse, igualmente, assunto recorrente de poetas, notadamente deste nosso “país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”. Dia desses, todavia, descobri, surpreso, que não é bem assim.


Tudo começou num encontro informal com um grupinho de amigos, todos escritores (portanto amantes inveterados de literatura) e a maioria poetas. Conversa vai, conversa vem e não tardou que viesse à baila nosso tema predileto, aquele que nos identifica e une. Nem preciso dizer qual é, não é mesmo? Só poderia ser um. E, de fato, era. Literatura, sem dúvida nenhuma. Como um assunto puxa outro, logo alguém observou que o verão (e fazia um calor desgraçado naquele momento) é tema até que raro na poesia. Discordei. E para posar de sabido, citei, de imediato, a magnífica composição de Tom Jobim, “As águas de março”. Fui mais longe, ousei cantarolar os primeiros versos, com meu vozeirão de locutor, superdesafinado, que não se presta nem um pouquinho ao canto.


Choveram protestos. Aliás, foram gerais. A princípio pensei que meus amigos estavam protestando “só” por causa da minha pífia interpretação. Não era. Ou pelo menos, não era “só” por isso. “Calma lá, não estamos nos referindo à MPB, mas à poesia”, alguém esclareceu. “Mas como?!”, perguntei admirado, “vocês não consideram ‘As águas de março’ poesia?!”, exclamei, sem esconder irritação e desapontamento. “Claro que é, mas não é a esse tipo que estamos nos referindo”, alguém respondeu. E outro amigo colocou outra restrição a mais: “Também não vale citar poetas nordestinos que tratem do assunto de seca”.


Tentei lembrar-me de algum poema que tratasse de verão, mas não me veio nenhum à memória. Pedi um tempo e prometi pesquisar a respeito, mesmo com tantos afazeres programados. Daria um jeito. E, de fato, dei. Pesquisei cerca de um milhar de poemas, de uns 300 poetas diferentes e não encontrei quase nenhum que versasse sobre o verão. Claro que se trata de um universo muito pequeno para pesquisa, mas creio que, se o tema fosse muito explorado, eu encontraria uma quantidade maior de composições.


Para não me dar por vencido, no encontro seguinte puxei de cara o assunto. E, de imediato, li este poema de Mário Quintana:


O dia abriu seu pára-sol bordado

O dia abriu seu pára-sol bordado
de nuvens e de verde ramaria.
E estava até um fumo, que subia,
minuciosamente desenhado.

Depois surgiu, no céu azul arqueado,
a Lua – a Lua! – em pleno meio-dia.
Na rua, um menininho que seguia.
Passou, ficou a olhá-la admirado.

Pus meus sapatos na janela alta,
sobre o rebordo... Céu é que lhes falta
pra suportarem a existência rude!

E eles sonham imóveis, deslumbrados,
que são dois velhos barcos, encalhados
sobre a margem tranqüila de um açude.


Quando terminei a leitura, veio a indefectível pergunta: “Onde Quintana se refere ao verão?”. Respondi: “Não o cita explicitamente, mas o deixa implícito”. “Você encontrou só isso?!”, alguém, mais objetivo (ou mais chato?) perguntou. Menti: “claro que não! Encontrei dezenas, só não tive tempo de copiar”. Como não sou bom mentiroso, percebi que não consegui convencer ninguém. Tentando ser mais convincente, li este outro poeminha (o diminutivo refere-se à extensão, claro, não à qualidade), igualmente de Mário Quintana:

Calçada de verão

Quando o tempo está seco,
os sapatos ficam tão contentes
que se põem a cantar.


Desta vez ninguém me questionou sobre onde estava a referência à estação do ano. Estava no próprio título. O questionamento, porém, foi mais objetivo: “Por que só poemas de Quintana?”. Menti de novo: “Por que ele, além de meu conterrâneo, é um dos meus poetas preferidos”. A mentira, óbvio, não estava nas duas justificativas. Quintana, de fato, é meu conterrâneo e é um dos escritores que mais admiro e que me inspiram. Estava no fato de sugerir que não apontei outros nomes só por esse motivo. Na verdade, não os encontrei. Não achei um único poema que falasse de verão e que não fosse do meu ilustre conterrâneo. Devem existir, claro, e muitos. Mas quais? Para não me dar por vencido, tive o descaramento de apresentar aos amigos este outro poema de Mário Quintana – que li no Caderno de Sábado do jornal “Correio da Manhã” de Porto Alegre, publicado em 8 de maio de 1976 e que tive o capricho de copiar – que versa sobre como surge a inspiração:

Os poemas

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo,
como de um alçapão.
Os poemas vêm, os poemas vão,
não têm pouso ou porto,
alimentam-se
um instante em cada par de mãos
e partem.
O que eles te dão
é o inesquecível, o maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

E o poeta não tem razão? Claro que tem. Quanto aos poemas que tratem do verão, prometo, oportunamente, refinar a pesquisa e tão logo encontre poemas sobre o tema (caso tenha êxito, claro) revelá-los aos amigos questionadores e, com certezas, para você também, paciente leitor.

Boa leitura.

O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk






Médicos também adoecem

* Por Mara Narciso


No Brasil formam-se por ano 16 mil e quinhentos médicos. Os Conselhos de Medicina querem fechar algumas escolas médicas por não formarem bons médicos. Apenas 40% dos recém-formados fazem Residência Médica. Para suprir essa lacuna foram criados os cursos de especialização, que tentam, mas não substituem as residências.
Tempos atrás o saber médico não era questionado. Antes da divulgação de assuntos médicos em revistas leigas, televisão e internet, havia uma mística de magia oculta na antipedagógica letra ruim. Devido ao pouco acesso a informação, a sociedade aceitava uma receita e escassas palavras. A Medicina cabia em alguns livros, e hoje uma doença enche toda uma biblioteca. Era de praxe esconder do doente o que ele tinha, mas com o tempo se viu que a participação da pessoa era primordial para a melhora, ainda mais com a cronificação de doenças que antes eram fatais.
A ignorância geral sobre doenças tornava parte dos médicos pessoas misteriosas, de saber inatingível, até mesmo prepotentes. A proletarização da Medicina tirou a independência financeira do médico, antes um profissional liberal, que passou a ter empregos e receber de terceiros e não diretamente do cliente. Como o médico não ganha tão bem quanto antes, para manter a família, precisa trabalhar em vários locais. Devido aos deslocamentos e excesso de doentes, não tem como atender adequadamente, ficando cansado e mostrando-se frio e até mal educado.
Por imaturidade, alguns profissionais podem mostrar impaciência com a dificuldade de a pessoa entender o que lhe é explicado, ou quando o doente mostra desinteresse, podendo ser alertado com palavras cortantes. É possível que parte deles já tenha agido dessa forma. É necessário treinar a tolerância e estimular a paciência. Mas ainda assim, permanecem as coisas de médicos, a inacessibilidade, a pressa, a propalada letra ruim e os intermináveis atrasos.
“Paciente espera médico, e não médico espera paciente”, é o que sempre se ouviu. O atraso médico institucionalizado é uma falta de respeito. Uma fonte de stress extra para o cliente. Ao médico é difícil controlar o tempo da consulta, dominar sua agenda, pois mesmo havendo uma média de minutos para o atendimento dentro de cada especialidade, há casos que demandam mais tempo e com isso entram no outro horário. Assuntos hospitalares são ainda mais imprevisíveis.
Certo médico mandava sua secretária marcar consultas a partir das 8h. Ao fim do expediente matinal, às 11h30m, a secretária telefonava-lhe dizendo que a sala estava cheia. Do outro lado ele explicava que ainda iria demorar, pois estava em banho de imersão na hidromassagem. Mais pacientes, em outro local estavam em jejum esperando para fazer exames, mas estes só seriam atendidos após as consultas. Quando? Talvez depois de mais tarde.
Quando o médico passa mal, e apresenta-se sem condições de continuar no atendimento, avisa através da sua secretária aos que estão a sua espera. Quando os clientes ficam sabendo do fato, podem reclamar que deveriam ter sido avisados no dia anterior, e que não sabiam que médico adoecia. Mas como? Caso assim fosse, bastaria estudar Medicina para se tornar imortal.
Nada pior do que os insuportáveis conselhos, mas é bom desligar o celular durante a consulta. Educação cabe em todo lugar, da parte dos médicos e dos pacientes, que agem algumas vezes de forma imprudente, de entrar durante a consulta do outro e querer ser atendido de qualquer maneira. Diante das dificuldades, aí sim, é preciso paz nos consultórios, calma, voz suave de ambos os lados, explicações adequadas, atenção, boa letra, preço justo, e, por favor, atrasos menores, dentro das boas normas de educação. Médico chegar com mais de uma hora de atraso é desumano.

*Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”-






Três narrativas de Tolstói


* Por Marco Albertim

O conde Liev Tolstói tinha 27 anos quando escreveu a trilogia que narra parte da guerra da Crimeia. O cenário é Sebastopol; a cidade é bonita, mas antes de tudo é celeiro da marinha do império russo. Tolstói se alistara como tantos outros moços, filhos da aristocracia russa. Quiçá, como os demais, nutrindo o sonho de pendurar no peito a medalha de São Jorge. Nos urdumes, o novel oficial tem a busca doentia pela “verdade”, posto que não há personagem ungido a herói. Contos de Sebastopol chega pela primeira vez ao leitor brasileiro, vertido do russo.
Já no primeiro conto, o compromisso do escritor com o que os seus sentidos absorvem, mostra-se na força narrativa. Em Sebastopol no mês de dezembro, utiliza-se de um interlocutor oculto, inda que designado pelo pronome. O pronome é tão indistinto quanto tem o impulso de prova testemunhal. Os olhos não se furtam a distinguir os contornos de uma carroça arrastada por camelos, “rangente, em direção ao cemitério para onde leva cadáveres ensanguentados, que se amontoam até quase a borda...” Não é só o cerco dos olhos, é a proximidade do olfato ao “odor particular de carvão de pedra, esterco, umidade e carne de vaca. (...) lenha, carne, gado auroque, farinha, sucatas de ferro etc.” A abreviatura, cuja função é não enfastiar o leitor, deixa-o, no entanto, cercado por destroços de um espólio miserável.
Tolstói por certo não se sentiu confuso entre o contista e o cronista, porquanto já incursionara nas obras de Púchkin, Liérmontov, Herzen e Turguêniev. Gontcharóv daria à luz ao seu Oblómov em l859, nove anos antes de Guerra e Paz e quatro anos depois da experiência de Tolstói na Crimeia. O certo é que o conde, como a puxar o interlocutor pelo ombro, diz: “Agora, se você tem nervos fortes (...) verá a faca curva e afiada penetrar na carne branca e saudável; verá com que grito terrível e dilacerado, com que imprecações o ferido súbito retoma a consciência; verá o oficial médico atirar a um canto o braço cortado;”
Sem se dar conta de que a guerra decorre de condições objetivas, sobretudo de ordem econômica, diz que “a guerra é loucura”; depois de supor que poderia ser travada homem contra homem em quantidades iguais; “Por que não vinte mil contra vinte mil? Por que não vinte contra vinte?” A suposição descamba nas cogitações do oficial Mikháilov, em Sebastopol em maio. “Certamente serei morto hoje, (...) eu sinto. E o pior é que eu não precisava ir, eu mesmo me ofereci. São sempre os que pedem para ir que são mortos.” Tolstói imiscui-se no juízo ambivalente do personagem. O conforto de que não fora tomado pela covardia, aflora quando vê uma bomba explodir perto de si. “Seja feita a tua vontade. E por que eu decidi servir na guerra?” O perfil do covarde, o autor acentua no epílogo do conto.
A rapidez dos combates, ou o flagrante de que os soldados só se dão conta dos segundos nos instintos de sobrevivência, é focada quando o oficial Kozieltsov é ferido. É em Sebastopol em agosto. “Tomaram Schwartz”, informam-no. “Está tudo perdido!”
“Besteira!”, responde o oficial. O autor retoma a narrativa referindo-se “a uma esplanada aberta, as balas caíram sobre eles literalmente como granizo; duas o atingiram, mas não teve tempo de saber onde, se estava ferido ou apenas contundido.” Aqui o leitor vê o oficial tombar, ouve sua respiração ofegar.
Contos de Sebastopol são narrativas ágeis e abundantes, prenhes de vidas cercadas de morte. Como na deportação de Máslova, no romance Ressurreição (1899). A personagem, junto a mais de seiscentos prisioneiros, é deportada para o cumprimento de pena na prisão de uma região longínqua. “!(...) os prisioneiros começaram a sair em pares, com os chapéus em forma de panqueca sobre as cabeças raspadas, com sacos pendurados nos ombros, arrastando os pés acorrentados e sacudindo a única mão livre, enquanto a outra segurava o saco nas costas.”
Contos... têm a tradução de Sonia Branco, professora de literatura russa na Faculdade de Letras da UFRJ.


*Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.






Tua

* Por Marleuza Machado


Sigo-te,
a todo momento,
enquanto sombra tua...
Não te acercas
porque,
às vezes,
sou brisa suave,
noutras,
vento bravio...
Não te apossas
porque,
às vezes,
sou verso arredio,
noutras,
deliciosa poesia...
Se,
porventura duvidas,
que, de mim,
fiz sombra tua,
ponha-me à prova!
Seduza-me,
sem demora,
e me faça real
na tua fantasia.

• Poetisa e jornalista


Uma vida bem escrita

* Por Fabiana Bórgia


Estava pensando sobre isso, quando refleti, mais uma vez, sobre o significado da palavra felicidade. Como escrever bem a própria vida? Como ser feliz? Aliás, o que é ser feliz?
Pergunta curta, mas difícil de ser respondida, pois a felicidade traduz um estado de espírito muito mais profundo do que satisfação. Assim, a resposta é demasiada longa e a procura infinita. Há aqueles que levam uma vida toda para descobri-la. E há aqueles que nunca descobrem, a não ser por meio das perdas. Porém, há também aqueles que sabem bem o que é a felicidade, mas por pensarem muito sobre o assunto, acabam transformando a felicidade, extremamente simples, em complexa e distante.
Afinal, o que é felicidade? E como ser feliz, se o ser humano é feito de erros e acertos?
Tudo na vida vale a pena, exceto se trouxer um sofrimento desnecessário a alguém. Aliás, ninguém é feliz causando a tristeza alheia.
Só é feliz quem aprende, quem luta, quem ama verdadeiramente, quem perdoa, quem supera. Quem confunde felicidade com prazer, certamente não é feliz.
Quem acredita que ser feliz é viver o momento, também não é feliz. A vida pode ser feita de momentos, mas apenas o que forma laços é capaz de construir.
Até hoje eu procuro acertar. E se erro, sei que foi a primeira e última vez.
Não costumo repetir erros, quando eles afetam outras pessoas. Meus erros só podem afetar minha própria pessoa.
Ser feliz é construir a virtude, é ir atrás do amor que consegue nutrir esperanças. Ser feliz é ter força e sabedoria para acertar. É acreditar que Deus pode fazer a perfeição, que você, por si só, nunca vai ser.
Se eu não soube definir, pelo menos estou procurando sim ter uma vida bem escrita.

• Escritora por vocação e advogada por formação. Paulista por natureza e carioca por estado de espírito. Engenheira de sonhos: alguém em eterna construção. Autora do livro “Traços de Personalidade”