quarta-feira, 1 de março de 2017

Literário: Um blog que pensa

(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)

LINHA DO TEMPO: Dez anos, onze meses e dois dias de criação.

Leia nesta edição:

Editorial – Questão de nome.

Coluna De Corpo e Alma – Mara Narciso, crônica, “Chama o síndico! (WBrasil, Jorge Bem Jor)”

Coluna Verde Vale – Urda Alice Klueger, crônica, “Rio de Janeiro/La Paz”.

Coluna Em Verso e Prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “Over the rainbow”.

Coluna Porta Aberta – Daisy Lucas, crônica, “O entrudo”.

Coluna Porta Aberta – Jomar Moraes, crônica, “Quarta-feira de Cinzas”.

@@@

Livros que recomendo:

“Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com  
“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Águas de presságio” – Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.
“A sétima caverna” – Harry Wiese – Contato:  wiese@ibnet.com.br
“Rosa Amarela” – Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br
“Acariciando esperanças” – Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br   
“Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



  

Questão de nome


O nome de uma pessoa – embora sua escolha não dependa dela e seja imposto pelos pais no momento do registro em cartório, logo depois do nascimento – é importante fator de identificação, embora nem sempre seja original. Há milhões de casos de homonímia, que causam enorme confusão e muitas vezes dão dores de cabeça muito grandes ao cidadão. Por exemplo, quem conseguiria catalogar todos os que se chamam José da Silva no País? E nem é preciso abrangência tão ampla. Quantos, em Campinas, são chamados dessa maneira? Tentem contar em uma lista telefônica!

No mesmo caso estão os John Smith, nos Estados Unidos. Ou os Ivans, na Rússia. Ou outros tantos nomes que são mais do que comuns em várias partes do mundo. Mas as obras de um indivíduo – única coisa que lhe sobrevive caso tenha de fato alguma que seja consistente e que mereça ser lembrada – se associam ao nome e nunca à imagem. Muitos não gostam do seu e, na idade adulta, o trocam no cartório. Alguns adotam pseudônimos, com os quais passam para a posteridade.

Estão, neste caso, artistas, esportistas e políticos famosos. Quem conhece, por exemplo, Allen Stewart Konigsberg? Pouquíssima gente sabe de quem se trata. Talvez essa pessoa seja conhecida dessa maneira só pelos parentes mais chegados e amigos mais íntimos, quando muito. Agora se dissermos que se trata do ator e diretor de cinema Woody Allen, a coisa muda de figura. Quase ninguém irá alegar desconhecimento, a menos que se trate de um sujeito extremamente mal informado.

O mesmo ocorre com Frederic Austerlitz (Fred Astaire), Dóris Kapelhoff (Dóris Day), Lucy Johnson (Ava Gardner), Marion Morrison (John Wayne) ou Joseph Levitch (Jerry Lewis), entre outros. Como se vê, o nome fica imediatamente associado àquilo que o seu detentor faz, de bom ou de mau, e é o primeiro referencial para a sua identificação, quer na vida social no dia a dia, quer para a posteridade, dos que conseguem vencer a "segunda morte": a da memória. Quanto mais original for, portanto, mais chances terá de ser lembrado dentro de vinte, trinta, cinqüenta, cem, quinhentos ou mil anos.

Um casal sueco, no entanto, exagerou na dose de originalidade. Registrou o filho, nascido na cidade de Gotemburgo, da seguinte forma: "Brfxxccxxmnpcccclllmnprxvclmnckssqlbb11116". Não pense o leitor que houve falha de impressão e que as letras ficaram todas embaralhadas. Foi exatamente dessa forma que o garoto foi chamado e registrado. Claro que o caso despertou repercussão na imprensa, não apenas da Suécia, mas do mundo todo. A princípio, pensou-se que algum funcionário do cartório tivesse empastelado a certidão de nascimento. Por isso, os pais foram convocados para esclarecer tudo. Perante o tabelião, confirmaram que era exatamente dessa forma que queriam chamar o menino.

Logo o caso caiu no esquecimento. Cinco anos depois, o garoto continuava sem nome. Afinal, essa sucessão de 43 caracteres é ilegível e impronunciável. O casal foi intimado para proceder a mudança e denominar o filho de forma digna e civilizada. Por manter-se irredutível, porém, acabou multado em 5 mil coroas suecas (o equivalente a US$ 735). Quando parecia que os pais do jovem sem nome iriam parar de brincadeira e alterar o registro, os dois resolveram recorrer da multa em um tribunal de recurso fiscal da cidade.

Seus advogados argumentaram que o casal tem crenças esotéricas e que a sucessão de letras e números, na verdade, tem um significado lógico: "Albino". O juiz indagou: "Por que, então, vocês não registraram o filho dessa maneira?". "Porque ele teria azar na vida", responderam. "A formulação é mágica", acrescentaram. Sem comentários... Claro que o tribunal não levou a sério esta e outras argumentações. Entendeu – se com razão ou não nunca se vai saber – que o nome não passava de brincadeira de mau gosto, de uma enorme "sacanagem" com a criança.

Por isso, confirmou a multa e mandou o cartório fazer um novo registro do menino. O nome que passou a constar na certidão é Albino. Uma das argumentações do casal, quando da apresentação do recurso, retirada do processo (ao qual a imprensa teve acesso) é esta "pérola" de ambigüidade: "Os caracteres utilizados são de uma formação pletórica de sentido e tipograficamente expressionista, que nos parece uma nova criação artística". Pobre garoto! Se em uma coisa tão simples, quanto a escolha do nome, houve tanta confusão, o que não deve ocorrer na sua convivência com esses pais? De fato, a ficção jamais conseguirá superar a realidade em termos de coisas insólitas...Ou malucas...

Boa leitura!

O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk



“Chama o síndico!” (W/Brasil, Jorge Ben Jor)


* Por Mara Narciso


Domingo de Carnaval, sol forte, calor, saudades do futuro, caso isso seja possível. Os pássaros cantam, o cachorro do vizinho uiva muitas vezes. A tristeza dele é de emocionar ao mais indiferente. Cair na casa errada, na vida errada, na música errada, que azar! O lixo está na porta desde ontem, e nada. A Taxa do Lixo foi paga em dia. Agora espero pela próxima conta. A coleta ficou restrita e os detritos se acumulam. Falta água, numa crise hídrica de racionamento que já dura quase dois anos. Aqui não chove normal há seis anos, mas choveu forte numa tarde dessas e inundou tudo. Não sei para quem enviar a conta do conserto do carro. Paguei IPVA no começo de janeiro e a quantidade de buracos nas ruas é recorde em relação a todas as administrações municipais anteriores, inclusive as mais omissas. O IPTU chegou. Será de quase mil reais. Abril já apontando com seu IR de arrebentar. Somos trabalhadores otários e pagantes de tudo quanto há, sem receber nada em troca. Recuso-me a acreditar que alguém almeje um cargo apenas por vaidade. A abulia do executivo assusta.

Ouço Moonlight Sonata (Full), de Beethoven. Dela vem uma calma inspiradora. Ontem estive no Carnaval do Bairro Morada do Parque, neste ano não organizado pela Associação dos Moradores devido a problemas pessoais da Diretoria. Policiamento ostensivo e necessário, gente demais, muito além do previsto, e som insuficiente. Nota-se demanda represada do montes-clarense ávido por diversão carnavalesca. Uma semana antes a quantidade de público no ensaio do Bloco Raparigas do Bonfim foi tão grande que gerou insegurança, assombrando a todos, especialmente pelo número de ocorrências policiais.  A sensatez dos organizadores suspendeu a apresentação do grupo. A intenção era brincar o Carnaval de maneira solta, descompromissada, porém mantendo suas bandeiras de ocupação dos espaços públicos e contrárias a homofobia, machismo, racismo e outros atrasos. Então, foi preciso parar tudo, ir para o estaleiro, ainda que alguns componentes do Bloco estivessem no Carnaval do Bairro Morada do Parque.

Hoje às 11 horas tem eclipse parcial do sol. Os astrônomos ensinam como assistir ao fenômeno sem prejudicar os olhos. Indiferentes a ciência, os passarinhos estão alegres, e a cidade mais silenciosa nesta manhã. Os foliões ainda não acordaram. Como é habitual nos feriados, a internet está parada. Quase ninguém lê nada, as postagens e curtidas se reduzem escandalosamente. Alguns fugiram para clubes e fazendas, outros viajaram para a praia mais próxima (Ilhéus, Bahia, 750 km). Belo Horizonte, surpreendentemente, tem um Carnaval de rua animado, com grande número de blocos. Nos quatro anos que morei por lá, a cidade parava, ia toda para Sabará e Ouro preto e dizia-se que era possível sair nu às ruas sem ser visto por ninguém. Isso mudou. A TV mostra ruas cheias de gente precavida, com algum dinheiro no sapato, e celular em casa, levando apenas um aparelho antigo para todo o grupo registrar fotos. Milhares de selfies, não!

Na letra da música W/Brasil, de 1990, cujo nome é referência à agência de publicidade de Washington Olivetto, profeticamente Jorge Ben Jor fala:

“Dizem que Cabral 1 descobriu a filial
Dizem que Cabral 2 tentou e se deu mal
Amor, dor, dor
Lá da rampa mandaram avisar
Que todo dinheiro será devolvido
Quando setembro chegar
Num envelope azul índigo
Num envelope azul índigo
Chama o síndico
Tim Maia
Tim Maia
Tim Maia
Tim Maia”.

Uma música pop bem em clima de Carnaval e dá uma sugestão sobre a quem pedir ajuda.

* Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”   


Rio de Janeiro/La Paz


* Por Urda Alice Klueger


Apesar de estar todo o mundo segurando o Tcham, o carnaval mais bonito visualmente, no Brasil, é o do Rio de Janeiro. Andei desligada do mundo, durante o carnaval, num camping onde não chegou a menor notícia sobre o mundo (que bom que a Guerra Fria terminou e a gente não se preocupa mais com o começo da guerra nuclear!), e só me dei conta que era terça-feira de carnaval há pouco, quando cheguei em casa e liguei a televisão. Na telinha, passava um condensado do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro que, cá entre nós, era para botar água na boca de qualquer um de qualquer lugar do mundo. Nosso carnaval é extremamente sensual, leve, solto, lindo, e seu luxo e seu ritmo são inigualáveis. A boca aberta de admiração me pus a comparar o nosso reinado de Momo com o reinado de Momo que vi em La Paz, e, haja diferença! É sobre isso que eu quero falar agora.

Como todos os leitores sabem como é o carnaval do Rio de Janeiro, vamos logo para o carnaval de La Paz.

Na verdade, eu não vi o carnaval de La Paz – estive lá em maio, ele já tinha passado. Mas vi um vídeo a respeito, um vídeo que gostam muito de mostrar aos turistas, e que provocou em mim em Sônia, minha amiga que estava viajando junto, discretos frouxos de riso, para não melindrar os bolivianos.

Em La Paz há um grande carnaval. Desfiles acontecem na avenida principal, com muita gente usando fantasias muito caras, feitas de lã ou em veludo de cores escuras e vivas, como o vermelho e verde, riquíssimas fantasias tipo pajens da Idade Média, afogadas fantasias de mangas compridas (como sentem frio os bolivianos!). Até aí tudo bem, cada povo se fantasia de acordo com o frio que sente, mas aí vem o ritmo.

Bateria de escola de samba, na Bolívia, é algo formado por três homens que tocam bumbo, e marcam o compasso de algo que está mais para marcha do que para outra coisa. Não há passos, nem o menor vislumbre de ritmo, nem nenhuma ginga, nem nenhuma leveza, e não há jeito de se achar que é harmônico aquelas verdadeiras patadas (não estou querendo ofender os bolivianos, mas estou achando outra palavra adequada –aquilo seria patada se fosse dada por brasileiro também) que eles dão no asfalto. Os bumbos e as patadas tinham feito com que Sônia e eu começássemos a nos cutucar e a esconder o riso, quando entrou em cena um bloco de beldades bolivianas, com certeza as divas do carnaval deles. Eram lindas moças com caras de índias, bonitas, e em algum momento das suas vidas elas tinham ouvido falar da sensualidade e das fantasias que existiam num distante lugar chamado Rio de Janeiro. A notícia tinha chegado para elas bem esmaecida, mas tinha. E elas tinham feitos as fantasias mais ousadas de toda La Paz.

Como seriam as fantasias das ousadas bolivianas bonitas? Eram de veludo também, afogadas e de mangas compridas, mas elas estavam arrasando com uma ousadia total: ao invés de saias compridas, tinham feito uns saiotes rodados, que desciam uns dez centímetros abaixo da bunda, e mostravam as pernas envoltas em meias de seda. A chegada delas foi a maior sensação, muitos homens desceram da calçada para ver mais de perto aquele charme todo, e passaram a segui-las quase com a língua para fora da boca. E então começou a acontecer o inimaginável: nossas divas também tinham ouvido falar numa coisa chamada ginga, e tentaram criar a sua – o resultado era mínimo, elas se limitavam a mexer com os quadris para cá e para lá rapidamente, faltava muito para que aquilo se tornasse um rebolado. Só que algumas (eram umas oitos) conseguiam, eventualmente, um efeito surpreendente: com aquele balançar rápido das sainhas rodadas, às vezes faziam aparecer a beiradinha de uma calcinha de renda branca.

Gente, a galera ia ao delírio! Com aquela semi-ginga e o eventual aparecimento da renda branca das calcinhas, os homens foram à loucura! A calçada inteira desceu para a rua, para ver mais de perto, e quase dava para ouvir, no vídeo, o pulsar descompassado dos corações de todos aqueles espectadores enlouquecidos pelo máximo de sensualidade que a sua gente era capaz de ousar. Nessa hora, diante do vídeo, Sônia e eu nos afogávamos para conter o riso, ao compararmos instintivamente o que víamos com o que sabíamos que era o carnaval no Brasil, principalmente o maravilhoso carnaval do Rio de Janeiro.

Assim conservadora é a nossa gente andina. Fico pensando se soltarmos um punhado de paceños na Marquês de Sapucaí, qualquer carnaval desses. Será que eles sobreviveriam à ousadia da sensualidade e do ritmo brasileiros? Lembro do velho ditado que diz que a gente se acostuma a tudo, mas será que a gente se acostuma mesmo? Gostaria de ver a experiência dos bolivianos soltos no Rio de Janeiro no carnaval.

(Texto publicado originalmente em 1996)

* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR, autora de vinte e seis livros (o 26º lançado em 5 de maio de 2016), entre os quais os romances “Verde Vale” (dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12 edições).





Over the rainbow


* Por Núbia Araujo Nonato do Amaral

A madrugada ensaia um amanhã atípico.
Será este dia açoitado por ventos furiosos
que desvendarão ninfas em trajes esvoaçantes?
Admito um certo exagero,
mas ainda assim um dia atípico.
Remontas hoje uma sequência,
onde tuas pegadas te levam
pra estrada de tijolos amarelos.
O leão, o homem de lata e o espantalho,
indecisos, lhes cedem a vez.
Dorothy meu amigo, há muito retornou,
deixando no ar a doce ternura
de quem encanta apenas com um sorriso.

* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário


O entrudo


* Por Daisy Lucas


Que palavrinha mais estranha essa, “entrudo”. À primeira vista, seu significado parece ser o de alguém que vai entrando assim num lugar, sem mais nem menos, sem pedir licença, uma pessoa intrometida.

Nada disso, impressão errada. “Entrudo” era o nome dado pelos portugueses ao Carnaval.

Bom, como tantas coisas ruins (e tantas boas), o Carnaval foi trazido para o Brasil pelos portugueses lá pelo início dos anos 600, e se chamava entrudo por causa de uns bonecos de madeira que eram feitos para representar pessoas que o povo queria humilhar. Sim, porque o povão sempre nutriu um desejo secreto de humilhar os donos do poder, e aí estamos falando de tempos muito mais antigos, desde a Babilônia.

Havia dois ritos que, acredita-se, deram origem ao Carnaval. Um era a Saceia, festa em que escolhiam um prisioneiro, vestiam-no como rei e assim ficava ele durante três dias. Era o próprio… usava roupas de rei, comia comida de rei e, às vezes, até lhe permitiam dormir com a rainha, vejam só! Naquela época — que horror! — ser esposa de rei era mais como fazer parte do guarda-roupa do que propriamente fazer parte de seus relacionamentos. Pois bem, acontece que, depois que a farra dos três dias acabava, o prisioneiro-rei era chicoteado e enforcado. Fim de festa.

Mas não pensem que o rei se safava facilmente de outro sufoco. No início da primavera, no templo do deus Marduk — o deus protetor da Babilônia, era o rei que perdia seu status e poder e era surrado bem em frente à estátua de Marduk. Esse rito tinha como objetivo mostrar que, com todo o seu poder, o rei era submisso a Marduk. Depois de levar uns tapas, o soberano voltava novamente a mandar no pedaço.

Mais tarde, na Idade Média, uns rapazes se vestiam de mulher e saíam pelos campos por três dias, invadindo casas, comendo e bebendo e eventualmente dando uns “pegas” nas moças bonitas que encontravam. Outros se vestiam de mulher ou de nobre e saíam imitando procissões nas quais cantavam músicas obscenas ou de afronta à nobreza; o incenso queimado no evento era um fumo fedorento, resultante da maceração de sapatos velhos.

Nessa época, o carnaval era conhecido como Festa dos Loucos… Claro, só a loucos poderiam permitiam atos que desacatavam as leis e a moral da igreja.

Já o entrudo de Portugal era uma festa mais inocente, ou poderíamos dizer, mais “controlada”, pela simples razão que a Igreja, preocupada com a possibilidade de que o desrespeito à nobreza chegasse ao mundo divino, acabou com a farra e decretou, no século VIII, que as festas de Carnaval se dariam nos dias anteriores à quaresma, numa clara demonstração daquele provérbio… “Já que o estupro é inevitável, relaxa”.

Assim, no entrudo de Portugal a crítica era feita através de uns bonecos enormes feitos de madeira, como vemos ainda hoje na cidade de Olinda, e a diversão se dava através de brincadeiras e jogos. As brincadeiras eram guerra de ovos de água suja, frutas podres e até de urina, que aos poucos foram sendo substituídos por guerra de limão. A festa ficou mais cheirosinha, mas nunca perdeu seu aspecto crítico e pagão. E pelo mundo inteiro vemos as demonstrações pagãs do Carnaval, que ainda guardam certas características medievais, como os “banhos”, só que não mais fedorentos, mas de espuma ou de talco, as máscaras e as fantasias com as quais as pessoas se transformam no que quiserem, de rei a bandido.

E assim, vamos vivendo nosso Carnaval, louvando os que no Carnaval, e somente no Carnaval, se transformam em bandidos, apenas para fazer uma crítica aos verdadeiros bandidos. No caso do Brasil, alguns deles estão encerrados em prisões, mas sem a mais leve esperança de que, como nos tempos a.C., tudo não passe de uma brincadeira que vai acabar no terceiro dia. E salve a Lava-Jato.

* Jornalista e escritora.



Quarta-feira de Cinzas


* Por Jomar Moraes


Hoje é dia de…


Referindo-me claramente à expressão que acima se lê, como título desta croniqueta, em 1990 reuni umas tantas delas, e as publiquei num livro intitulado “Cinza das quartas-feiras”. Esse título tomou como ponto de partida o sintagma locucional bem conhecido, Quarta-Feira de Cinzas, dia de todas as ressacas etílicas e morais, porém no calendário católico apostólico romano, o dia vestibular da Quaresma, suposto período de contrição, de arrependimento e até de autopunição pelos excessos praticados no auge do tríduo, em que, acima e além de todos os preceitos e valores, é a carne fremente, indomada e indomável, que vale. Carnaval, carnevale.

Mas, como ia dizendo e fiquei na metade do caminho, tomei o sintagma locucional quarta-feira de cinzas e a partir dele cheguei ao título do livro, que é, repito, “Cinza das quartas-feiras”. Não se trata de um mero jogo de palavras, mas de um título que continua fazendo sentido, e que no passado fazia mais sentido ainda, pois nas quartas-feiras de cinzas, durante seguidos anos, este nosso jornal não circulava, fato que me valia o único dia de férias que eu tinha por certo, no decurso de cada ano. Hoje o aperreio aumentou, pois nem bem estamos a duas semanas da tal quarta-feira de cinzas, o pessoal da Redação começa a telefonar, lembrando que a crônica da quarta-feira fatal tem de ser entregue antecipadamente. E sobre isso, falo no texto a seguir transcrito, sem nenhum constrangimento, porque, sendo meu, como de fato é, posso usá-lo como e quantas vezes me aprouver.

Sobre ser de crônicas o citado meu livro, assim o considero, apoiado na indiscutível autoridade de Fernando Sabino, um dos príncipes da crônica brasileira, que no livro “A falta que ela me faz”, escreve, a certa altura: “Crônica? Nunca a célebre definição de Mário de Andrade (sobre o conto) veio tão a propósito: crônica é tudo aquilo que chamamos de crônica”.

‘As crônicas ora reunidas apareceram, primeiramente, no suplemento Alternativo (seção “Hoje é Dia de…”), de O Estado do Maranhão, onde escrevo às quartas-feiras, desde fevereiro de 1984.

Pelo menos sob um aspecto este volume tem um mínimo de unidade: seu conteúdo, salvo raras exceções, é datado, tópico, circunstancial. Corresponde à minha interpretação de fatos do cotidiano maranhense e brasileiro. Reflete atitudes e sentimentos decorrentes dos estímulos mais diversos. Tudo, pelo comum, escrito no calor da hora, e com a pressa de quem é incapaz de fazer crônicas antes de esgotado o prazo estabelecido pela Redação.

Isso explica pequenas modificações de forma que, aqui e ali, julguei necessário introduzir nestes textos destinados à existência por um dia, e que agora podem – quem sabe? – ganhar alguma sobrevida. Para o que nasceu com destino tão precário, já é muito.

Ficam, assim, dessas quartas-feiras que o passar do tempo vai contando às centenas, as cinzas que encherão os vazios das quartas-feiras de cinzas, quando a ressaca ao irresistível tríduo não deixa nenhuma alternativa para a edição do Alternativo, o que dá ao cronista suas curtas, únicas e merecidíssimas férias.

Talvez a publicação deste livro seja uma comprovação a mais de que Plínio, o Velho, dizia uma verdade, que tantos repetiram, entre eles Cervantes, e que pode entrar nesta paráfrase, com o auxílio da conhecida sentença de Mallarmé: nenhum livro é tão mau que não tenha algo de bom, e tudo, neste mundo, existe para terminar num livro’.

Depois de transcrever-me a mim mesmo, entre aspas simples, trago à colação, para terminar, um belo e tematicamente apropriado soneto de meu saudoso confrade Fernando Viana, que muito me honrou com sua amizade.

Confete

Este confete eu guardo: é uma lembrança
do meu, do teu, do nosso Carnaval!
– três dias de ilusões que a gente lança
na conta do recalque universal…

Lembro o Pierrô e a Colombina mansa,
enlaçados na síncope irreal
do beijo que, trocado após a dança,
sublimou nosso instante emocional!

Só restou da fogueira desses dias,
sob as cinzas das doidas alegrias,
este fulvo confete cor de mel;

restou este confete ínfimo e triste
– mas, ah! quanta saudade não existe
num tão pequeno disco de papel!

(Do livro “Seara”, Sioge, 1979)


* Jornalista e escritor, membro da Academia Maranhense de Letras, falecido em agosto de 2016.