sábado, 30 de novembro de 2013

A dor de uma saudade

* Por Clóvis Campêlo

Talvez a vida não nos seja mais do que uma doce ilusão. Existimos, pensamos e logo tentamos justificar a nossa maneira de viver e de agir. Subjetivamos e desenvolvemos ou nos apossamos de conceitos que servem para nos acalmar os ânimos, nos momentos de maior tensão, ou para servir de item identificatório com quem nos cerca e nos rodeia. Nenhum homem é uma ilha. A solidão é devastadora. Estamos todos no mesmo barco e precisamos alimentar a ideia de que vivemos em uníssono uns com os outros e de que não existiria outro caminho plausível ou justificável dentro da nossa síntese ética (se é que a temos!) ou que aplaque as nossas indagações e ansiedades.

Assim sendo, o futuro sempre nos será uma incógnita e um desafio. Uma página em branco, onde a composição final vai depender da habilidade e da capacidade em nos superarmos e criar novas propostas e situações. Não é a toa, portanto, que tendemos a repetir experiências coletivamente aceitas e bem sucedidas. Se a maioria diz ou fez assim, isso pode nos ser uma garantia de segurança e sucesso. Pra que nos arriscarmos em vão?

O grande problema, porém, surge quando essa sucessão de atitudes supostamente segura e confiável, passa a se mostrar inadequada ou desdobra-se em consequências inesperadas e assustadoras. Quantas crenças e práticas foram abandonadas pela humanidade, ao longo do tempo, por se mostrarem inúteis ou ofensivas quando inicialmente pareciam dignas de confiança? As marcas e cicatrizes que ficam, em consequência disso, são sempre aterrorizantes e definitivas. Diante da tragédia definida, geralmente, só nos resta a resignação, o consolo e um novo aprendizado no sentido de não mais se repetir o equívoco. O homem que pensa e tem a capacidade de imaginar novos mundos e situações, é o mesmo que se deixa enganar por análises equivocadas e traiçoeiras.

Exercitar a individualidade e a autonomia, portanto, não é fácil para ninguém. Não só pelo risco que a novidade sempre traz em seu bojo, como também pelos sistemas regulatórios criados e mantidos, nítidos ou subjacentes, no imaginário e nas crenças da maioria. Toda diferença poderá ser castigada. Ou mantida em quarentena até que se mostre útil e rentável ao sistema dominante e predominante. A ousadia nunca não será feita para a covardia da maioria.

Admito até mesmo que talvez nada valha a pena, mesmo que a alma não seja pequena. Aliás, chega-se a um determinado ponto em que fica difícil até mesmo se fazer novos dimensionamentos ou distinguir o caminho mais novo e adequado.

Talvez a vida não seja mesmo mais do que uma doce ilusão. Existimos e pensamos, mas, mais cedo ou mais tarde, desaguaremos sempre na foz do mesmo rio, no mesmo delta, nas mesmas águas turvas, temerosas e desconhecidas.

Navegar será mesmo preciso?


* Poeta, jornalista e radialista
Viver para contar

* Por Rodrigo Capella

Encontrar os amigos de escola e colocar a conversa em dia é sempre bom e ainda desperta sentimentos únicos. Percebi isso, nessa semana, quando uma amiga, após uma incansável busca pela Internet, conseguiu reunir os amigos de colégio e marcou um encontro num barzinho.

Dez pessoas sentadas frente a frente com o propósito de olhar fotos antigas, tecer comentários e resgatar histórias engraçadas da vida. Quando escondiam o apagador da professora, era uma gritaria só, todos se divertiam. Quando corriam pelos corredores, era uma tremenda curtição. É, a vida nos proporciona momentos inesquecíveis, cabe a nós valorizá-los.

Essa história toda me fez lembrar do livro “Viver para contar”, autobiografia do escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez, que se inicia com um recado ao leitor: “a vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”. É, e é verdade. Logo nas primeiras páginas do livro, a mãe do autor pede para que ele a acompanhe até uma casa antiga, que seria vendida. Nesse momento, a cabeça do Prêmio Nobel se assemelha a uma montanha russa, intercalando momentos reais e flash back, técnica consagrada no filme “Cidadão Kane”.

O autor se lembra dos amigos de infância, dos professores, de quando iniciou no jornalismo ou ainda quando descobriu o que é sexo. “Viver para contar”, assim como “Cem anos de solidão”, outro clássico de Márquez, requer atenção. Lápis e bloco de anotação são necessários para guardar nomes, cenas e acontecimentos importantes.

Mas, essa era a intenção de Gabriel Garcia Márquez. A vida, para ser vivida com alegria, precisa ser compreendida em detalhes. Somente assim é que aproveitamos os momentos como se fossem únicos e planejamos cada segundo, colocando a criatividade em prática.

Criatividade essa que nunca faltou ao escritor colombiano. Em “Viver para contar”, ele nos mostra como alguns fatos da vida coincidem com a literatura. Seu avô, por exemplo, fabricava peixinho de ouro e no livro há um personagem que faz o mesmo tipo de trabalho. É, vida e literatura se misturam, vida e literatura são essenciais e oferecem o combustível necessário para continuarmos vivendo: as recordações.

(*) Escritor e poeta. Autor do livro “Poesia não vende”, que tem lançamento nacional no dia 03 de abril e traz depoimentos de Ivan Lins, Bárbara Paz e Carlos Reichenbach, entre outros. Informações: www.rodrigocapella.com.br


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 7 anos, sete meses e trinta dias de existência. .

Leia nesta edição:

Editorial – Talento reconhecido só depois da morte.

Coluna Contrastes e confrontos – Urariano Mota, crônica, “Para uma biografia de Joaquim Barbosa”.

Coluna Do real ao surreal – Eduardo Oliveira Freire, crônica, “Ansiedade cíclica”.

Coluna No sopro do Minuano – Rodrigo Ramazzini, conto,  “Negociação”.

Coluna Porta Aberta – Ana Soares, crônica, “Olhos acostumados”..

Coluna Porta Aberta – João Alexandre Sartorelli, poema “Pavese para Constance”.


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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” – Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
 “Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Talento reconhecido só depois da morte

O escritor, salvo exceções, tende a ser mais sensível do que a maioria das pessoas. Claro que não se trata de nenhuma regra que deva ser seguida á risca por quem pretenda exercer, ou já exerça essa atividade. Aliás, nem mesmo existe estudo a esse propósito. A conclusão é minha, com base em observações pessoais, da leitura de algumas centenas de biografias. Quando me refiro a “sensível”, não estou pensando, especificamente, em emotividade. A sensibilidade de que falo é um certo aguçamento dos sentidos, uma capacidade ímpar de observação do que o indivíduo vê, ouve ou lê, para utilizar esse acervo todo em sua literatura.

Isso não quer dizer que quem não conte com essas características não seja ou não possa vir a ser escritor. Pode, sim. Apenas encontrará muito mais dificuldades para exercer seu mister. Quanto mais observadora uma pessoa for, mais facilmente criará personagens verossímeis e recriará cenários e situações que se aproximem, ou mesmo reproduzam, a realidade. Ademais, não me refiro a escritores “ocasionais”, desses que eventualmente escrevam um livro ou dois, mas não façam da literatura sua atividade central. Estou pensando é naqueles que fazem das letras a paixão de suas vidas. Já nem digo que sejam “profissionais”, porquanto o ato de escrever e de publicar livros sequer é considerado uma profissão. Não, pelo menos, no Brasil.

Nada é pior e mais angustiante para um escritor do que ver sua obra desprezada. As reações a isso, óbvio, são as mais variadas possíveis, de acordo com a personalidade e a sensibilidade de cada um. Uns, se conformam com a rejeição (ou, pelo menos, parecem se conformar) e vão procurar outra coisa para fazer que não seja literatura. Outros batalham a vida toda pelo reconhecimento e não se dão por vencidas jamais, até o último suspiro. Outros, ainda, sentem duramente o golpe, caem em depressão, contraem doenças (físicas e/ou mentais) e não raro entregam-se ao álcool e às drogas. E  outros, ainda, vão ao extremo dos extremos e chegam a cometer suicídio. Você acha que é exagero meu? Pois não é. E trago à baila um caso concreto em que o desfecho à sua rejeição como escritor foi exatamente este.

Refiro-me ao romancista e soldado norte-americano John Kennedy Toole, nascido na cidade de Nova Orleans, estado da Louisiana, em 17 de dezembro de 1937. Ele tinha plena convicção de que escrevia bem, mas esta nunca foi compartilhada pelas pessoas que o cercavam e com as quais conviveu. Como ele poderia saber que tinha esse talento? Não poderia estar enganado? Não poderia estar sendo enganado por uma vaidade exacerbada? Poderia, claro, mas não estava.

Ora, quem é leitor compulsivo (e para ser escritor, é desejável que se seja), tem maneira até bastante simples e objetiva de aferir a qualidade do que escreve. Basta comparar seus textos com os livros de outros escritores. Nesse caso, só vai se enganar se quiser. Ou se sua vaidade for tão grande, tão estúpida e até monumental e seu senso crítico, em contrapartida, for ínfimo ou nem mesmo existir. Uma pessoa culta, porém, dificilmente se deixará cegar, achando que tem um talento que na verdade não tenha.

Ocorre que tudo o que John Kennedy Toole escrevia era sistematicamente rejeitado pelos editores. Procurou dezenas de editoras e o resultado sempre, e invariavelmente, foi o mesmo. O leitor mais desconfiado deve estar pensando: “Impossível que todos estivessem enganados. Que um ou dois se equivoccassem, vá lá. Mas todos?! O sujeito escrevia mal mesmo e não se conformava”. Certo? Errado! Pelo menos nesse caso, todos se enganaram! Como sei? Simples! Seu romance “A Confederacy of Dunces”, publicado postumamente, foi um estrondoso sucesso de crítica e de público. Tornou-se best-seller nacional. “Coincidência”, dirão alguns mais céticos. Não, não foi. Foi qualidade! Querem saber por que de tanta convicção? Porque esse magnífico livro valeu ao autor, embora, claro, postumamente, um Prêmio Pulitzer de ficção, a maior premiação literária dos Estados Unidos!!!

E olhem que esse romance magnífico só não permaneceu no ineditismo eterno e não se perdeu por completo por causa da persistência, ou teimosia, da mãe de Toole. Alguns anos após sua morte, depois de tentar publicar e ver os originais novamente rejeitados por dezenas de editores, ela os encaminhou, já prestes a se dar por vencida, ao novelista Walker Percy. Este leu-os, perplexo, e se entusiasmou. Tomou a peito providenciar sua imediata publicação, valendo-se do seu prestígio pessoal. Deu no que deu. Ou seja, na consagração de Toole, inclusive com um raro Pulitzer póstumo. Não sei se esse prêmio já foi outorgado postumamente a qualquer outro escritor. Mas, caso tenha sido, foi um procedimento raríssimo.

Esse reconhecimento não poderia ter vindo antes, quando o soldado-escritor, ou escritor-soldado como queiram, estava vivo? Poderia e deveria. Mas... não foi. A rejeição literária provocou (ou agravou) a profunda depressão em John Kennedy Toole, que resultou em tragédia. Em 26 de março de 1969, no auge do desespero e da amargura, o jovem e talentoso escritor cometeu suicídio, na cidadezinha de Biloxi, com um tiro na cabeça. Tinha, apenas, 31 anos de idade. E o romance premiado com o Pulitzer não foi o único dos seus livros a fazer sucesso postumamente. “The Neon Bible” também esgotou várias edições, mostrando que o talento que Toole garantia ter e que tantos negavam era um fato. E era até maior do que ele próprio supunha. Há quem diga que o jovem sofria de paranóia antes mesmo de ter seus livros rejeitados. Admitindo que de fato sofresse, a falta de reconhecimento ao seu talento não teria agravado esse distúrbio e o levado a se suicidar? Óbvio que sim!!! Viram como não exagerei em minhas colocações?!

Boa leitura.


O Editor

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk.        
Para uma biografia de Joaquim Barbosa

* Por Urariano Mota

No livro da vida de Joaquim Barbosa, que um dia ainda será escrito, deverá aparecer em muitas páginas, com merecido destaque, a excepcional sobrevivência do agora ministro e presidente do STF. O futuro biógrafo, no entanto, deverá usar um filtro, um bom poder de relação entre fatos na aparência desconexos, que se perdem nos currículos de Joaquim Barbosa com uma rara esperteza montados.     

Assim, por exemplo, não lhe bastará repetir o que é universal na Wikipédia, pois a enciclopédia online apenas repete o que é público e sabido. Nela se registra que  Joaquim Benedito Barbosa Gomes nasceu em Paracatu, Minas Gerais, em 7 de outubro de 1954. E que aos 16 anos viajou sozinho para Brasília, onde arranjou emprego na gráfica do Correio Braziliense, e terminou o segundo grau, sempre estudando em colégio público. Bravo, sempre em colégio público. Depois obteve seu bacharelado em Direito na Universidade de Brasília, onde, em seguida, conquistou o mestrado em Direito do Estado. Mais uma vez, bravo, exemplar, dizemos os leitores.

Ao que mais adiante se completa: Joaquim Barbosa foi Oficial de Chancelaria do Ministério das Relações Exteriores, de 1976 a1979, tendo servido na Embaixada do Brasil em Helsinki, Finlândia, e depois, teria deixado o trabalho no  Ministério para se tornar advogado do Serpro, de 1979 a 1984. Mas já aqui se impõe uma suspensão. A wikipédia estaria mesmo certa? É uma massa de dados que perturba, pela ascensão jubilosa e mistura de um burocrata ao mérito. No entanto é um pouco antes, que o futuro biógrafo chegará ao mais importante.

Acompanhem, por favor, relacionem 2 coisas. Observem que não batem duas informações.  Há um lapso acima, da Universidade de Brasília para o primeiro emprego público. Em 1976, aos 22 anos, pois Joaquim Barbosa nasceu em 1954, ele se torna Oficial de Chancelaria no Ministério das Relações Exteriores. Muito bem, bravo. Mas o currículo Lattes na universidade, com dados fornecidos pelo próprio hoje ministro Joaquim Barbosa, informa que ele “possui graduação em Direito pela Universidade de Brasília (1979)”. O que isso significa?

Simples. Três anos antes de se graduar em Direito, o futuro presidente do STF já tomava posse como Oficial de Chancelaria, um cargo que exige nível superior, conforme se descreve aqui, no site do Ministério das Relações Exteriores Clique aqui : “Os integrantes da Carreira de Oficial de Chancelaria são servidores de nível de formação superior, capacitados profissionalmente como agentes do Ministério das Relações Exteriores, no Brasil e no exterior”. 

Como pôde o ministro ser Oficial de Chancelaria sem possuir nível superior? Das duas uma: ou mudou a exigência legal para o importante cargo de carreira, que representa o Brasil no exterior, ou então o ministro entrou como Auxiliar de Chancelaria, que exige instrução de nível médio. E nesse último caso, ele estaria mentindo, no currículo publicado em seu perfil no STF ou na posse no Ministério das Relações Exteriores.  

Há outros pontos ainda obscuros na biografia do ministro Joaquim Barbosa. Por exemplo, o espancamento que ele fez à esposa. A gente não escreve estas coisas com prazer, mas faz parte do ofício lembrar que em setembro de 1986, sua ex-mulher Marileuza Francisco de Andrade  registrou boletim de ocorrência em que acusou Barbosa de tê-la espancado. Bater em mulher está longe de ser um modelo de ética, convenhamos. Aliás, nesse capítulo o ministro é um homem exemplar, pela negação.

Há pouco tempo, comprou um apartamento em Miami,  nos Estados Unidos, usando uma empresa que abriu para obter benefícios fiscais.  No mercado, o valor estimado do imóvel fica entre R$ 546 mil e R$ 1 milhão. Ao criar uma empresa para a transação, Joaquim Barbosa diminuiu o custo dos impostos que  seus herdeiros terão que recolher para transferir o imóvel após sua morte.

Mais: o grupo Tom Brasil já empregou Felipe Barbosa, filho de Joaquim Barbosa, para assessor de Imprensa na casa de shows Vivo Rio, em 2010. Nada demais, não fosse um forte inconveniente: a Tom Brasil é, ou deveria ter sido,  investigada no inquérito 2474/STF, do chamado "mensalão", cujo relator é  Joaquim Barbosa. 

Por último, no limite deste espaço, o futuro biógrafo deverá registrar um caso de  camaradagem entre o presidente do STF e o apresentador de tevê Luciano Huck. Luciano pediu a Joaquim Barbosa a gravação de uma mensagem de aniversário para Hermes Huck, pai de Luciano. Simpático, amigão,  Joaquim gravou um vídeo felicitando o sogro de Angélica. Lindo, queremos dizer: antes do vídeo, Felipe, o filho de Joaquim Barbosa, havia sido contratado para integrar a equipe do “Caldeirão do Huck”.

O futuro biógrafo não poderá esquecer dados tão edificantes.

* Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici e “Soledad no Recife”.  Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios brasileiros.
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Ansiedade cíclica

* Por Eduardo Oliveira Freire

Li uma crônica que escrevi há algum tempo e percebi muitos erros. Revisei, mas fiquei a pensar se realmente o trabalho do escritor é solitário, ou existem amigos do escritor que leem, corrigem os erros de ortografia e até as palavras truncadas.

Ele pode até passar horas a desenvolver suas ideias e revisá-las várias vezes, mas será que não tem uma ajudinha sequer? Nem preciso confessar que quando pinta uma ideia, publico logo nas redes sociais. Depois, percebo as “atrocidades” que fiz com a língua portuguesa. Inclusive, já queimei meu filme com muita gente.

Fiz até um conto que aborda meus medos de aspirante a escritor: Quando sonho que estou na noite de autógrafo do meu livro de contos e quando vou fazer a dedicatória, escrevo algo errado. Aí, surge a fofoca que não sou eu que escrevi a obra e sim o Ghost-writer.

Não quero ser uma fraude!!!!Preciso entender que preciso revisar meus textos, ninguém chegará para mim: “Você é ótimo, deixa ajudá-lo a consertar algumas coisas”.. Não sou mais criança e tenho que colocar a mão na massa. Pois, um escritor para apurar sua técnica necessita ler, estudar e treinar muito.

Não posso ficar em berço esplêndido, esperando alguém decifrar o que desejo expressar. Eu mesmo preciso decifrar os pensamentos que jorram em mim.

* Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante a escritor


Negociação

* Por Rodrigo Ramazzini

Raul decidiu trocar o carro. A história de três anos com o automóvel fabricado no final da década de 90 tinha chegado ao fim. Foi sozinho até uma das revendas de veículos da cidade. Um erro. Nunca se vai sozinho a uma revendedora de carros fazer negócio. Vira-se presa fácil. São muitas as artimanhas verbais articuladas durante uma negociação desse tipo pelos vendedores. Mas, Raul não é santo e também possui os seus “pecadilhos” automobilísticos.

Chegando lá, foi recepcionado por um sorridente vendedor. Logo, apareceu um “comentarista automotivo”, meio gordinho que caminhava com os pés abertos, como os ponteiros de um relógio marcando 10 horas e 10 minutos. Afinal, revenda de carro que se preze precisa ter um comentarista em sua equipe que avalize a aquisição do cliente. Assim, iniciou a negociação de Raul para adquirir um novo carro.
- Boa tarde!
- Boa tarde! Luiz, vendedor, prazer!
- Prazer, Raul! Gostaria de dar uma olhadinha nos carros...
- Fique a vontade, Seu Raul. Procura algum modelo em especial?
- Quero um carro de um ponto seis para cima. Já tive um ponto zero, mas não me adaptei...
- Certo! Deixa eu ver... Já sei! Tenho o modelo certo para o senhor. Tenho certeza que vais gostar. Venha comigo...

Os dois caminharam cerca de 20 metros até o veículo.
- O que achas desse, Seu Raul? Uma beleza, né? Um ponto oito, ano dois mil e dez, faz tranquilamente treze quilômetros em rodovias. Licenciamento e IPVA deste ano pago... Vistoria em dia... Carro muito inteiro. Muito bom de motor e lataria. Tem direção hidráulica, pneus novos, ar-condicionado de fábrica, GPS, pintura e bancos originais. Raridade para esse ano! Faço-o por um bom preço para o senhor!

O comentarista, que até então acompanhava a dupla de longe, aproximou-se e entrou em ação para cumprir a sua função, disparando adjetivos para o carro em série:
- Esse carro aí era de mulher! Única dona. Tirou zero da fábrica e rodou pouco... Podes olhar a quilometragem. Muito bom mesmo! Eu que estou andando com ele. Estou apaixonado. Até comentei com o Luiz que, se pudesse, iria ficar com ele para mim de tão bom que é! Pode levar que não vais te arrepender!
- Sei..., retrucou Raul espiando o painel do carro para analisar a veracidade da informação.

O vendedor assumiu novamente as rédeas da conversa, fazendo um questionando direcionado:
- O que achaste? Bonito, né? Vamos fechar negócio? Aproveita porque já tem um monte de gente interessada neste veículo, Seu Raul! Uns ficaram de voltar amanhã até...
  
Raul apreciou o carro. Era bem o modelo que desejava quando saiu de casa. Inclusive, a cor. Mas, não demonstrou. Era preciso manter a seriedade em meio à negociação. Por fora, depois de uma inspeção detalhada, Raul concluíra que o veículo estava impecável. Foi então que, surgiu o convite.
- Quer dar uma voltinha? Aposto que o senhor não vai se arrepender...

Incentivado pelo vendedor, Raul resolveu fazer um Test Drive no veículo. Retornou quinze minutos depois apaixonado, porém manteve a postura séria. Enfim, entrou nos detalhes da negociação:
- Quanto?
- Vinte e um mil e quinhentos reais. Uma barbada! Carro dado. Ainda, financio em quantas parcelas o senhor quiser, com os juros bem baixos por mês...
- Hum! Aceitas carro no negócio?
- Sim! O do senhor que está lá na rua?
- Isso!
- Posso dar uma olhada?
- Vamos lá...

Os dois caminharam até o carro fora da revenda. Lá, o vendedor deu duas voltas entorno do veículo e proferiu sua análise:
- Tem um monte de coisinha para fazer no teu carro... Um amassadinho na lata que vai sair uns quinhentos reais... Um pneu mais quinhentos reais...

Enquanto o vendedor descrevia os problemas encontrados, Raul pensou no que o seu amigo Juca lhe falara, que vendedor de carro usa uma faixa de moeda própria, que é a moeda quinhentos reais, pois tudo gira em torno desse valor. A confirmação dessa teoria surgiu a seguir. 
- Seu Raul! Dou sete mil e quinhentos pelo carro...

Raul, que não é bobo, antes de sair para negociar, havia olhado o preço médio do seu carro na internet, por meio da tabela FIPE, e sabia que o valor de venda do modelo do seu automóvel variava em torno de nove mil reais. Contrapropôs:
- Dá dez nele que fechamos negócios...   
- Bah! Mas, aí o senhor me quebra as pernas, Seu Raul. Tem um monte de coisinha para fazer no carro. Vou gastar um monte de saída... Em troca, o senhor vai levar um carro quase zero...
- Então, não tem negócio.
- Posso subir, no máximo, para oito mil. Se não vou perder dinheiro...

Raul pensou por instante. Tinha consciência que a avaliação sairia abaixo do mercado. Mas, pechinchar é uma arte em meio às negociações. Lascou:
- Fecho em oito mil, mas os papéis de transferência e afins... Ficam por tua conta... E o resto eu financio... Aceitas?

O vendedor refletiu brevemente e sentenciou:
- Negócio fechado!

Os dois apertaram as mãos e foram cuidar da papelada que envolve este tipo de negociação. Na saída da revenda, depois dos cumprimentos finais e da partida de Raul, em meio a acenos com as mãos, o comentarista automotivo comentou para o vendedor:
- Finalmente, conseguiste vender aquele carro. Achei que tinha um sapo enterrado nele. Quase dois meses aqui dentro parado. Não é possível!
- Pois é...
- Será que não vais te incomodar no futuro?
- Por quê?
- Por causa daquele probleminha no motor...
- Nãããããããão! Aquele motor ali roda seis meses ainda tranquilamente antes de estourar. Daí, quando der a merda, já vai estar fora de garantia. Há! Há! Há!
- Há! Há! Há!

No outro lado da cidade, enquanto mostrava o novo carro à esposa, Raul narrava orgulhosamente como saíra ganhando no negócio.
- Graças a Deus que me livrei daquele carro. No máximo, em um mês, aquela caixa de marcha começaria a dar problema... Teria que trocar os pneus... Enfim... Iria gastar um monte para arrumar!  Enrabei o cara. Ele ainda avaliou alto o nosso carro... Achei que daria menos... Agora, é aproveitar o carro novo... Este é só colocar gasolina e andar. Com certeza, um ano sem se incomodar com ele!



* Jornalista e contista gaúcho