domingo, 1 de janeiro de 2012







Leia nesta edição:

Editorial – Pessimismo alienante.

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, crônica “Surpresas de fim de ano”.

Coluna Direto do Arquivo – André Falavigna, crônica “Cacófato não vale?”.

Coluna Clássicos – Rubem Braga, crônica. “Passou”.

Coluna Porta Aberta – Fausto Brignol, crônica “Na véspera da véspera”..

Coluna Porta Aberta – Dra. Rossana Brasil Kopf, crônica “Feliz Ano Novo”.


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Pessimismo alienante


A vida das grandes metrópoles, nesta época especial da História, quando estamos no limiar da segunda década do terceiro milênio da Era Cristã, é caracterizada pela angústia. Torna-se cada vez mais raro surpreender-se alguém com um sorriso de genuína satisfação nos lábios.
O cotidiano é composto por correrias, preocupações com contas, luta por uma posição melhor, verdadeira batalha, por esse lema extremamente vago e de sentido ambíguo, que se denomina “vencer na vida”. Para cada pessoa, isto tem um significado diferente. Os meios de comunicação, por outro lado, a pretexto de pintarem o quadro do que se convencionou classificar de realidade, passam, na verdade, mensagens negativas.
Entendem, certos profissionais, que a comunidade está ávida somente por notícias ruins; por crimes, escândalos, aberrações sexuais e outras tantas distorções de comportamento do animal homem. Só o negativo é manchete. Por quê? Dificilmente alguém conseguirá explicar isto de maneira plausível.
Será que a vida é caracterizada apenas por atos nefastos, por desastres naturais ou provocados, por lágrimas, sofrimentos, dor? Não deveria haver um equilíbrio na informação de desgraças, com atos abnegados e esforços desprendidos? E estes últimos existem, caso contrário, se o mundo, a vida, a realidade que nos cerca fossem constituídos apenas de infelicidades e aberrações, em pouco tempo, nada mais existiria. Ninguém suportaria tanta tragédia.
A pretexto de evitarem a alienação, determinados meios de comunicação, na verdade, alienam seus consumidores do lado positivo da existência. Suprimem informações que deflagrem a alegria de viver nas pessoas. Daí estar surgindo uma nova doença – que talvez, até, existisse antes, mas que somente agora surge à tona e vem afetando um número crescente de indivíduos – que é a síndrome do pânico.
Especialistas estimam que tal problema já atinja a 2% da população. Há quem eleve essa cifra para 5%. Trata-se, pois, de um universo significativo de afetados. A difusão da filosofia do pessimismo, do catastrofismo, do negativismo, certamente tem muito a ver com este mal, se não tudo.
A realidade é muito complexa para ser retratada. Cada um tem uma, que é própria, de acordo com o meio em que vive, a educação que teve, as oportunidades que lhe foram proporcionadas. Passar a toda a população a idéia implícita de que tudo está perdido, de que o mal tende sempre a prevalecer, de que a humanidade caminha, inexoravelmente, para a catástrofe, não passa de um conto da carochinha.
É o outro extremo da atitude alienada e alienante de se divulgar que tudo é róseo, maravilhoso, espetacular. O correto, a mais simples das lógicas diz, é o tempero, o equilíbrio, o meio-termo.


Boa leitura.

O Editor.








Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk






Surpresas de fim de ano


* Por Pedro J. Bondaczuk

Os fins de ano, pelo menos os meus, são caracterizados por duas coisas principais: uma carga dobrada de trabalho e surpresas. Considero o primeiro fato altamente positivo, embora produza inevitável desgaste físico, psicológico e até afetivo. Nada, porém, que uma boa noite de repouso não resolva. Sempre resolveu. Sou, neste período (e felizmente) muito mais requisitado do que no restante do ano. Chovem encomendas de textos natalinos e alusivos à passagem de um ano para outro. Quem os encomenda exige ineditismo, válido, porém, apenas para a primeira publicação. Se souber torná-los atemporais (o que não deixa de ser enorme desafio, mas que tenho tido êxito), posso aproveitá-los em outras ocasiões do ano. E aproveito-os de fato.

Apesar do cansaço que geram, essas encomendas são sempre bem vindas. Alguns desses textos (diria que a maioria) são remunerados, o que melhora (e muito) o meu orçamento. E mesmo os que são gratuitos (raros, por sinal), trazem lá suas vantagens. Entre outras coisas, ajudam a divulgar meu nome, quer na mídia impressa quer na internet e, por conseqüência, divulga minha obra literária, o que é não somente desejável, como crucial para um escritor remando contra a maré para interessar potenciais leitores a adquirirem seus livros. Portanto, quando menciono essa carga de trabalho dos finais de ano, a despeito da exaustão que produz, não estou, claro, me queixando (embora haja quem ache que sim). Apenas cito o fato a título de constatação.

Eu ficaria, isto sim, sumamente preocupado se essas solicitações diminuíssem ou (o que seria desastroso) cessassem. Salvo engano, porém, a tendência é que aumentem ainda mais nos próximos anos. Tomara! É# certo que adoto certas cautelas bem antes das encomendas começarem a chegar, lá pela metade de setembro. Leio o máximo que posso textos alusivos ao Natal e Ano Novo, até para não escrever nada de parecido. É a originalidade que torna o que3 escrevo mais atrativo. Pelo menos presumo que o seja.
Todavia, citei outra coisa que, invariavelmente, caracteriza meus finais de ano: surpresas. Nem sempre elas são positivas, embora a maioria seja mesmo. O que me surpreendeu negativamente neste 2011, por exemplo, foi o inverso do que havia me surpreendido positivamente em 2010, 2009, 2008 e assim por diante. Está confuso? Explico. Nos anos anteriores, um dos fatos que me causavam maior surpresa era a quantidade imensa de cartões de boas festas, impressos ou eletrônicos, que me enviavam. Houve ano de receber até três centenas deles, muitos de pessoas que eu sequer desconfiava que tivessem meu endereço ou mesmo que me conhecessem.

Neste ano, a surpresa foi inversa. Recebi só uma e uma única dessas mensagens. Claro que a primeira reação que tive foi a de decepção. É verdade que meus amigos mais íntimos, aqueles escritores com os quais troco “figurinhas” o ano todo, manifestaram seu apreço por mim pessoalmente. Com isso, fizeram economia. Mas deixaram de “documentar” suas manifestações. Daqui a dez anos, por exemplo, como vou saber quem me cumprimentou e quem não? Não saberei!

Mas a surpresa maior não foi a ínfima quantidade de mensagens de boas festas que recebi. Foi a preciosidade em que se constitui a única que recebi. Sem menosprezar quem quer que seja, ela vale muito mais do que as 300 recebidas em alguns anos ou mesmo se recebesse três mil ou três milhões. Quem me brindou com sua lembrança foi um dos intelectuais mais ilustres, que sempre admirei e que jamais supus que sequer soubesse da minha existência. Todavia, sabia. Ou sabe. Tanto que me enviou originalíssimo e precioso cartão de boas festas.

E quem foi essa personalidade? Foi uma pessoa com currículo extensíssimo, que, sem exagero, perfaz grosso volume de um livro. Foi o lingüista e poeta Carlos Vogt, que entre tantas coisas positivas que fez, foi reitor da reputadíssima Universidade Estadual de Campinas, a nossa Unicamp. Sua trajetória, tanto acadêmica quanto literária, é notável. No primeiro caso, basta citar que recebeu, em 2005, a comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico da Presidência da República. De quebra, foi agraciado com o título de “Doutor Honoris Causa” da École Normale Supérieure de Lyon, na França.

Como escritor, seus feitos são igualmente notáveis. Entre tantos feitos, ganhou três Prêmios Jabuti, o que atesta sua qualidade. Seus livros (e cito apenas os de poesia), são preciosidades de refinada inspiração. Cito, de passagem, apenas alguns, para não maçar o leitor, como “Metalurgia” (Companhia das Letras), “Mascarada” (Editora da Unicamp), “Paisagem doméstica” (Massao Ohno), “Geração” (Brasiliense) e “Pisca alerta” (Landy Editora).

Seu cartão de boas festas é originalíssimo (só poderia ser). Na frente, traz um poema de apenas três linhas, intitulado “Vazio”, que diz:

Tudo é tão grande
que nada pequeno
cabe nessa imensidão


E arremata, como que em complemento: “O Natal também!”. Ou seja, o evento é tão importante pelo seu significado que cabe a caráter nessa imensidão que é o vazio universal.

No outro lado do cartão há outro poema, na verdade um soneto, intitulado “Bolero”, que diz:

Abraça-me assim, esta noite preciso sentir
como nunca meu desejo encontrar
não quem amo e que está por aqui,
mas a mesma que amei e andava por lá

no país da infância, quando conheci
a confusa presença que me fez amar
uma ausência infinita também feita de ti
que em nós nos prendia para nos libertar

Hoje embarga a solidão minha amargura
de navegar, no exílio, fera lembrança
de como foi tranqüila a loucura

de amar, constantes, nossa distância
e juntos, solidários, nos sentir sem cura
do mal que o amor na bondade alcança

Como se vê, não exagero quando afirmo que a surpresa positiva ofuscou e anulou a negativa de não ser lembrado por quem sempre se lembrou de mim. Encerrei o ano, pois, no absoluto lucro e começo 2012 com todo o gás, no maior entusiasmo, buscando recuperar o prestígio junto a eventuais admiradores que eventualmente tenham me esquecido e conservar a lembrança desse magnífico poeta por anos e anos a fio.

* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas). Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk






Cacófato não vale?

* Por André Falavigna

Eu sempre tive um enorme apreço por essa baixeza gratuita, descompromissada, inconseqüente e marcadamente paulistana que hoje é motivo de tantas censuras e mesmo de tantas sanções. Em São Paulo, anda cada vez mais difícil encontrar lugares onde ainda floresçam aqueles tipos grossos e simples, tantas vezes colocados aquém da sua própria capacidade, freqüentemente apanhados numa curva qualquer da vida e, então, esquecidos para dentro do bairro de onde um dia surgiram. Muitos desses sujeitos, tivessem sido orientados a tempo, seriam advogados, médicos, engenheiros, publicitários ou qualquer outra coisa (como jornalistas esportivos, por exemplo); seriam tudo isso e num padrão melhor do que esse com o qual habitualmente lidamos por aí. Não tendo sido orientados, ou mesmo desorientando-se por livre e espontânea vontade (isso é muito mais comum e melhor do que se pensa), viram-se da mesma maneira e, bem ou mal, tocam a vida numa dignidade que só é surpreendente para a condescendência boçal de pessoas muito sensíveis. Pessoas do tipo das que freqüentam aulas de ciências sociais. Em outras ocasiões, tornam-se engenheiros, médicos e advogados, ou mesmo qualquer outra coisa, e sem qualquer orientação. Em todas as hipóteses realizam, enfim, um ou dois objetivos na vida que os faz, por assim dizer, realizados. E isso, a despeito de todo esse preconceito hoje em voga contra a vida burguesa, é infinitamente mais valioso do que “um outro mundo possível”. É mais valioso, inclusive, porque é possível mesmo, e porque faz referência à vida de homens e não à de anjinhos desastrados.

Às vezes parece que não, mas o habitat do paulistano de boteco e padaria está diminuindo drasticamente, ano após ano. Isso levará nosso homem à extinção. E, não, eu não me refiro só ao avanço dos shoppings e da ditadura do padrão coisa fofa para nossos bares, fruto de uma certa fartura material combinada a nenhum senso estético. Refiro-me também ao fato de que uma cidade grande com a nossa não pode suportar, com uma economia pequena como a dela, tanta gente como somos. Associe-se esse fato (porque se trata de um fato) ao longo bombardeamento sistemático de todas as bases nas quais se construiu toda uma moralidade, e você terá uma ou duas pessoas que, dentre centenas de milhares de famílias de pobres e sem perspectiva, arrumarão uma desculpa para champinhinizar alguma moça que tenha achado divertida a idéia de dar um trepadinha na floresta. Tanto faz se a moça é pobre ou rica: o importante é que seja “bonita e gostosa”. Associe-se também, a título de informação complementar e só, essa mesma degradação moral à qualquer tipo de fartura material, e você conseguirá obter nove ou dez sujeitos, no seio de algumas dezenas de milhares de famílias ricas e cheias de futuro para dar, dispostos a tocar fogo em mendigos bêbados, ou mesmo num índio, bêbado ou não, que se pareça com um mendigo bêbado. O homem de bem, aquele sujeito que ainda por cima é achincalhado em todas as salas de ensino, do colegial ao MBA, ele está cercado. Sejam suas posses maiores ou menores, como ele é de “classe média”, não pode prestar. Ou merece ser sangrado em praça pública porque tem dois carros, ou deve ser tomado como um estúpido que não se revolta mesmo tendo que apanhar ônibus lotado todo dia. E, daqui a pouco, ele não tem nem mais onde beber em paz.

E isso é triste, mas não é a pior parte. Que não topássemos, nunca mais, com nenhum desses cafajestes moralistas, e que isso se desse por causas naturais (se um cometa desabasse sobre o Belém, por exemplo), isso seria compreensível. Ainda poderíamos nos embriagar, sob a Lua, rememorando os hercúleos êxitos etílicos de uma ou outra figura mais ditosa. Mas não é isso que está acontecendo. Estão criminalizando é a idéia do macho de boteco ignorante e porco. Porque, se um homem não pode mais fazer piadas com negros, viados, aleijados e afins, se um homem não pode mais tirar sarro nem de macumba, nem do São Paulo Futebol Clube e nem do PT (ou do PSol), se ele não pode mais bater na própria mulher de vez em quando, ele é já não é mais um homem: ele é apenas “um outro homem possível”.

Vou ilustrar a coisa contando um episódio de Carlos Roberto Donato, o Donato. Ele é do Cambuci, um patrimônio do Cambuci, mas quem já teve a oportunidade de sair com ele por aí sabe que se trata de um cidadão da cidade. Se quisesse, seria vereador com alguma facilidade.

Um aparte para a voz de Donato: é tão grossa quanto é possível uma voz ser grossa. É metálica, e ele sempre fala muito alto.

E há mais sobre ele. É um homem com o exato senso poético para adivinhar se uma mulher quer apanhar, mesmo quando ela não pede. Bebe bem, mas só cerveja. Surpreendentemente, é são-paulino. Deve ser um dos últimos são-paulinos que ainda fuma e acha certo, sem pedir desculpas. É o único artista plástico são-paulino, em toda a orbe, que não dá o cu. Só pode ser a exceção que confirma a regra.

Ele está quase sempre com dois óculos, um escuro encaixado por sobre um outro claro, este de grau. Usa uma corrente longa e gosta de pulseiras e anéis. Veste-se com heterodoxia espantosa para o nosso tipo médio. Calças vermelhas, camisas estampadas abertas, jaquetas oficiais de times americanos de esportes americanos. Bermudas, chinelos, chuteiras e jeans. Imprevisível. O homem é quase fashion.

Entende de cachorros e vive de passear com os cachorros dos outros, atualmente e por enquanto.

Um dia, não faz muito tempo, estávamos todos no Empório A&M, no Cambuci. Uma pequena mercearia onde se encontra de tudo, e onde se pode beber como um porco. Tem uma bela vista (vê-se até o sol morrer dali) e fica a poucos metros de duas bocas de farinha. No Cambuci, isso não quer dizer que o local seja perigoso. Também não quer dizer que seja seguro. Quer dizer que não faz diferença, inclusive porque a farinha por lá é péssima. Servem uns sanduíches bons, azeitonas em conserva e tremoços, e a cerveja vem muito, muito gelada sempre. Sempre mesmo. Isso faz diferença.

Eu ia dizendo: estávamos lá, bebendo, bem no início de um fim de tarde que não iria longe. Não era para ir. Então, surgiram os BOs. BOs é como algumas das minhas pessoas preferidas se referem a meninas impúberes que elas gostariam de comer. Nunca vão comer nenhuma, mas a idéia é ótima. Todos ficaram olhando os tais BOs, com olhos impublicáveis. As meninas vinham em nossa direção, e já estavam na calçada em frente à nossa. Nesse ponto, prudentemente, tomaram o rumo da rua de cima e foram sumindo de vista. Daí cometeram um erro: deram as costas para o público. Um de meus irmãos disse assim de uma das crianças (não eram mais do que crianças): _ olha essa daí: daqui a uns dois, três anos, já dá pra comer.

Nem pedofilia era direito, a não ser que se admitisse a hipótese da pedofilia retroativa. Porque dali dois, três anos, a coisa já caia em presunção relativa de violência. Nem estupro dava para garantir. Em suma: cadê a graça? Foi então que Donato deu um rumo diferente ao assunto: _ Anos? Daqui a duas, três horas, já dava pra mandar ver nela faz tempo!

Não vou comentar o aspecto paradoxal da proposição, quanto ao tempo. Achamos engraçado. Rimos. Mas uma pessoa sem os dois ou três primeiros copos poderia achar até sem graça. Ela resistiria durante certo tempo. Provavelmente só até, poucos minutos depois, quando a conversa já havia tomado outro rumo, os BOs reaparecerem e, desta vez, entrarem na mercearia. A menina que se prestava à imolação imaginária daqueles homens finos estava com vontade de sorvete, e as amigas a acompanharam. O espaço é exíguo, quase todos ficamos de pé quase o tempo todo. É pouco mais que um corredor. Todos abriram espaço, alguns tiveram que sair para as escadinhas da ladeira, copinho americano na mão.

A mocinha realmente prometia. Esguia, morena, cabelões cacheados, já prenunciava curvas limpas. O rosto eu nem vi, que não sou homem de olhar rosto. Não estava, ainda, própria para o consumo. Para piadas e elucubrações lúbricas, era o prato perfeito.

Eis a coisa: a menina, sem pressa, escolhe o sorvete. Abre o freezer, daqueles de “porta de correr”, transparente. Muita atenção a todos os movimentos. Já não eram mais só os dois, três primeiros copos que haviam descido. Muito destilado, vagabundo ou bom, já havia descido. Tensão e suor no ar. Do alto de nos seus no máximo doze anos, ela se debruça, fica nas pontas do pés e dobra o dorso para baixo, para alcançar um picolé mais fugidio. Obviamente, suas nádegas, nessa hora, apontaram para cima, enfiadas numa dessas calças de colégio público que, depois de muito usadas, mais parecem calças de pijama. Muita gente pensou muita coisa pela qual pagará algum tempo no purgatório. Mas apenas Donato disse, com sua voz estrepitosa e grave:

_ Ah, e essa hora que não passa!

E é com esses momentos que querem acabar. É com esse tipo de homem, de pequeno herói de bairro, que estão tentando exterminar. Estão, mais do que destruindo suas florestas, exterminando-o numa caça predatória, covarde e imoral. As baleias que se fodam. Precisamos salvar o paulistano comum, as piadas baixas, o ambiente saudável dos bairros reacionários. Precisamos salvar a Mooca, o Ipiranga, o Cambuci. Eu sou do Cambuci. Sou, portanto, cambucetense. Pilão de socar alho? No Cambuci tinha. Futebol de campo tinha. Lá tinha de tudo. Não se assustem, não vou terminar a rima. Não tenho tempo. Acabou o expediente e eu vou ao empório. Comprar pão antes de ir pra casa. Ver o sol se pôr. Bêbado.

(*) André Falavigna é escritor, tendo publicado dezenas de contos e crônicas (sobretudo futebolísticas) na Web. Possui um blog pessoal no qual lança, periodicamente, capítulos de um romance. Colabora com diversas publicações eletrônicas.






Passou


* Por Rubem Braga


O ano passou. Não sei se vós, leitor amigo, ou vós, distinta leitora, o passastes bem. Eu, como já passei muitos, os tenho passado de todo jeito, e ainda hoje esse segundo que vem depois da meia-noite me perturba.
Já passei ano só, em terra estranha, ou – o que é mais amargo – na minha; ou andando como um tonto na rua ou afundado num canto de bar ruidoso; ou tentando inutilmente telefonar; dormindo; com dor de dente. E quando digo de todo jeito estou dizendo também de jeito feliz, entre gente irmã ou nos braços de algum amor eterno – braços que depois dobraram a esquina do mês e da vida, e se foram, oh! provavelmente sem sequer a mais leve mágoa nos cotovelos, apenas indo para outros braços.
Passam os anos, passam os braços; mas fica sempre, quando a terra dá outra volta em si mesma, essa emoção confusa de um instante. Conheço pessoas que fogem a esse segundo de consciência cósmica, afetando indiferença, indo dormir cedo – como se não estivessem interessadas em saber se esta piorra velha deste planeta resolveu continuar girando ou não. É singular que entre tantas festas religiosas e cívicas nenhuma chegue a ser tão emocionante e perturbe tanto a humanidade como esta, que é a Festa do Tempo. É como se todos estivéssemos fazendo anos juntos; é o Aniversário da Terra.
Se a alma estremece diante do Destino, o espírito se confunde; reina uma tendência à filosofia barata; vejam como eu começo a escrever algumas palavras com maiúsculas, eu que levo o ano inteiro proseando em tom menor, e mesmo o nome de Deus só escrevo assim para não aborrecer os outros, ou para que eles não me aborreçam..
Já ao nome do diabo, não; a esse sempre dei, e dou, o 'd' pequeno, que outra coisa não merece a sua danação. A ele encomendamos o ano que passou - e a Deus, o Novo. Que vá com maiúscula também esse Novo; fica mais bonito, e levanta nosso moral.
E se entre meus leitores há alguma pessoa que na passagem do ano teve apenas um amargo encontro consigo mesmo, e viveu esse instante na solidão, na tristeza, na desesperança, no sofrimento, ou apenas no odioso tédio, que a esse alguém me seja permitido dizer: "Vinde. Vamos tocar janeiro, vamos por fevereiro e março e abril e maio, e tudo que vier; durante o ano a gente o esquece, e se esquece; é menos mal. E às vezes, ao dobrar uma semana ou quinzena, ás vezes dá uma aragem. Dá, sim; dá, e com sombra e água fresca. E quem vo-lo diz é quem já pegou muito sol nos desertos e muito mormaço nas charnecas da existência. Coragem, a Terra está rodando; vosso mal terá cura. E se não tiver, refleti que no fim todos passam e tudo passa; o fim é um grande sossego e um imenso perdão.

Rio, janeiro de 1952

• Rubem Braga é considerado o maior cronista brasileiro






Na véspera da véspera

* Por Fausto Brignol

Na véspera da véspera, antes da mágica e invisível passagem, antes do dia que antecede o momento da virada - quando todos os corações estarão alertas e esperançosos, mesmo os que se sentem mais oprimidos e deserdados – é o momento de fazer as contas com a vida, de deixar-se divagar em sonhos de sestas atrasadas, de dar aquele passeio que durante o ano inteiro foi adiado, somente para cumprimentar os vizinhos com palavras novas e sorrisos sinceros.

Porque é o dia da sinceridade, quando nos perguntamos – talvez naquele momento de pequena solidão e aconchego com o espelho e a sombra – se está valendo a pena. Todo momento de sinceridade é um momento cruel, porque tem a ver com desnudar-se e verificar cicatrizes; com retirar máscaras; com procurar novas forças e novas esperanças e de confrontá-las.

Na véspera da véspera avaliamos as nossas forças e as nossas fraquezas e não nos cobramos demasiadamente, porque sabemos que tudo, até então, tem sido feito com fé e amor ou, no mínimo, com esperança. Porque é o dia da esperança; dia em que buscamos a firmeza que somente os sonhos não nos trazem e fazemos da doação um ato de entrega e carinho. Porque todo momento de esperança é um momento de entregar-se ao universo com a alma descoberta e a tranqüilidade que afasta os tufões internos.

Na véspera da véspera encontramos o silêncio e aquele resto de pureza que ficou em algum momento da infância e que sempre desprezamos como desnecessário, mas que, agora, torna a sua presença imperiosa e a vaga lembrança como uma brisa de primavera a balançar a rede vazia na varanda e a anunciar uma chuva abençoada em um fim de tarde com cheiro de terra molhada que nunca esquecemos.

Mas também é o dia do rufar de tambores internos. De preparar-nos para mais uma grande caminhada que traz o sabor do indefinido e que nos desafia a escolher caminhos inquietos, mas a ir em frente, porque o importante é continuar, mesmo quando as encruzilhadas se multiplicam e provocam a ansiedade dos desabrigados. Porque o abrigo é o caminhar, e o caminho escolhido sempre será o certo, porque foi o escolhido, e nas nossas escolhas está escondida a força para o próximo passo

• Jornalista e escritor


Feliz Ano Novo


* Por Dra. Rossana Brasil Kopf


FELIZ ANO NOVO À luz da ciência, a virada de ano não passa de um limite cronológico, o período de 365 dias e 6 horas da translação, quando a Terra completa uma volta ao redor do Sol.
E a tradição nos permite dar a essa passagem o clima feérico que nos leva a pular ondas, fazer brindes, vestir o branco, comer lentilha, romã e distribuir louros.
Debaixo das superstições, contagiados pela oportunidade que o novo começo nos dá de recomeçar, talvez seja a hora de mudar. E a mudança brota da consciência para se concretizar na química que nasce da união de coração e mente.
Quem sabe seja a hora de parar de fumar, de recuperar a boa forma, de buscar o novo trabalho, de comprar um carro, encontrar a cara-metade, morar na casa própria...
Mas, melhor seria que, ao mesmo tempo, tivéssemos olhos para as conquistas abstratas, para a renovação dos valores e das prioridades.
Já passou do tempo do ser humano entender que a felicidade não é um bem material, mas um estilo de vida que se adota e se preserva em cada atitude, em cada pensamento, em cada palavra. Demoramos a notar que as mansões de nada valem quando seus ocupantes são incapazes de transformá-las em lares. Desperdiçamos tempo sem perceber que anéis não reluzem sem dedos que os ostentem, carrões não se justificam quando rodam com passageiros e rumo a destinos incertos.
Daqui a pouco o ano termina, precisamos nos conscientizar de que, se não fizemos o melhor, pelo menos tentamos. O sol está prestes a raiar no horizonte anunciando o novo ano que vai nascer; o momento é de muita euforia, haverá muita troca de beijo, abraços, troca de presentes e as mais belas mensagens de boas festas.
Todo ano é assim, a esperança se renova na certeza de dias melhores. É chegada a hora de dar uma trégua para fazer um minucioso balanço de tudo que foi vivido em sua vida até agora. Faça um rascunho, analise cada momento vivido, que eu tenho a certeza de que você vai achar o seu ponto de equilíbrio para seguir com muito mais segurança esse novo desafio que terá pela frente O mundo ainda gira em torno do homem e o homem se perde na vertigem de rodar numa busca desesperada do que só se encontra dentro de si próprio.
Que o ano novo exerça a magia e o poder de nos induzir à reflexão para que, nas entranhas do pensamento e do sentimento, cada um de nós se conscientize de que o erro que nos beneficia hoje pode ser a cobrança do amanhã em forma de tragédia. Que as pessoas sejam capazes de fazer o bem sem olhar a quem, para receber o bem sem saber de quem. Que o respeito seja a moeda essencial nas relações humanas. Que a ética e a moral sejam práticas rotineiras em nome do bem coletivo. Que o mundo resgate o dom de se reinventar em suas verdadeiras evoluções, sem maquiar as mazelas que nos fazem reféns de sonhos vazios.

• Psicanalista e Advogada