sábado, 1 de janeiro de 2011




Leia nesta edição:

Editorial – Viagem que segue..

Coluna Direto do Arquivo – Deonísio da Silva, crônica “Os sete mistérios do universo”.

Coluna Clássicos – Machado de Assis, conto “Como se inventaram os almanaques”.

Coluna Porta Aberta – Urda Alice Klueger, crônica “Ah! O maravilhoso Verão”.

Coluna Porta Aberta – Luiz Carlos Monteiro, crônica “Aos amigos, feliz 2011!”

Coluna Porta Aberta – Leonardo Boff, artigo “Tipos de carisma: da cabeça (Lula) e das mãos (Dilma)”.

Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação.

Viagem que segue


A vida pode ser comparada a uma viagem, da qual se desconhece o fim e o destino. E, de fato, todos nós, habitantes deste pequenino, mas muito especial planeta, estamos viajando no espaço desde quando nascemos. O universo é sumamente dinâmico. Nele, a cada instante, sem intervalos, galáxias, estrelas, planetas e satélites nascem. No mesmo ínterim, todavia, galáxias, estrelas, planetas e satélites se extinguem. Ou melhor, se transformam. Afinal, na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma. Inclusive cada um de nós.

A Terra é uma espécie de espaçonave (e essa afirmação sequer é metáfora, mas se trata de um fato), que há já alguns bilhões de anos (estima-se que sejam 4,5) singra o oceano do vácuo, junto com os demais planetas do nosso sistema planetário, com o Sol, com a galáxia que ele integra, no caso a Via Láctea, com as comunidades galácticas à qual pertence e sabe-se-lá com o que mais. Qual o destino dessa longa viagem? Quem é que sabe? Para onde estamos seguindo? Só podemos especular. Ou melhor, fantasiar. Explicação? Nem pensar!

Nesta viagem às cegas da nossa vida, cuja duração desconhecemos e cujo destino é mais desconhecido ainda, completamos agora nova etapa, que é o fim de um ano. Por quantas mais passaremos, até que venhamos a nos transformar, em poeira, em árvore, ou, quem sabe numa flor? Ninguém sabe e nunca saberá. Milhões de pessoas, neste momento, estão encerrando suas respectivas jornadas e delas restarão – e por algum tempo – apenas lembranças, até que até elas desapareçam e não restem os mínimos vestígios de que existiram. Afinal, na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma. Outras milhões de pessoas estão começando essa estranha viagem agora, tomando seus lugares, ignorando por quantos anos irão viajar e por quantas “estações”, como esta que ora se inicia, irão passar. Tudo é incógnito. A nave, o espaço, a viagem, o destino, a finalidade, nós etc.etc.etc.

Cada etapa dessa ora feliz, ora estafante jornada, tem sua história, tem suas circunstâncias, seus encontros e desencontros. Antes da chegada a cada uma dessas “estações”, fazemos uma quantidade imensa de planos, promessas, projetos, juras e acalentamos “n” sonhos e esperanças. Nossas resoluções, todavia (pelo menos a maioria), logo acabam esquecidas. O cenário da viagem nos distrai. As tarefas, como tripulantes desta nave, nos absorvem. Somos o que somos e raros de nós conseguimos mudar. Alteramos um hábito aqui, outro hábito ali, mas nada de profundo ou sequer perceptível.

Alegoria semelhante para a mudança de data no calendário foi feita, tempos atrás, mais especificamente em 23 de janeiro de 1966, por Austregésilo de Athayde, na crônica “Relembrar, esquecer...”, publicada em sua coluna “Vana Verba” da Revista “O Cruzeiro”. Escreveu: “Imagino a passagem de ano como quem vai viajando numa longa estrada. Surgem os campos, as montanhas, os rios, as pequenas e grandes cidades. E a marcha prossegue. Umas imagens deixam as outras esmaecidas, até que desaparecem”.

A viagem de Athayde é mais modesta do que a minha. Não é esta principiada no início dos tempos e cujo fim ninguém atina como, quando e onde será, somente fantasia. A dele ocorre neste planetazinha azul do Sistema Solar, quiçá em um único continente (provavelmente a América do Sul) e talvez seja mais limitada ainda, em um país, digamos que seja o Brasil. Passamos pelos “campos” dos dias rotineiros, daqueles que são tão suaves, que sequer deixam marcas na memória, mas que são os mais venturosos (e desejáveis).

Subimos, também, montanhas, ou seja, obstáculos que nos exigem enorme esforço. Caso sejamos determinados e fortes e, sobretudo, prudentes e sábios, atingiremos o topo. Alcançaremos o pretendido sucesso em nossas atividades. Caso contrário... Perdidos e fatigados, despencaremos no abismo do fracasso, de onde raramente conseguiremos sair.

Mesmo que logremos atingir o cimo, não poderemos nos deter mais do que o tempo necessário para recobrar forças. Em nossa jornada, novas montanhas irão nos desafiar, desde as pequenas e suaves, simulando meras colinas, às majestosas e íngremes cordilheiras, com suas escarpas, vendavais traiçoeiros e neve eterna no cimo, localizado acima das nuvens.

Nestas viagens surgem outros obstáculos, que não apenas as montanhas. Surgem rios, por exemplo, que teremos que vadear para retomarmos o caminho em nossa jornada. Estes podem ser estreitos e rasos como regatos, como pequenos ribeirões, que podemos atravessar até a pé, ou caudalosos e profundos, como os da Amazônia, por exemplo, que nos exigirão o uso de um barco, ou balsa, para a travessia.

Mas a viagem prossegue (para alguns, é claro, porquanto muitos ficam pelo caminho e se transformam em não mais que simples lembrança, até que desapareçam de vez). Nessa jornada, passa-se por pequenas povoações, por vilarejos, por minúsculas cidades ou, até mesmo, por metrópoles. As imagens se sucedem, aparecem, vão diminuindo, diminuindo, ficando esmaecidas, à medida que avançamos para, enfim, desaparecer.

E vem outra estação de parada. Mudamos mais doze páginas do calendário. E retomamos, a seguir, a viagem, até chegar a nossa hora de parar. É essa jornada compulsória, “easy rider”, cuja nova etapa empreendemos hoje, que lhes desejo que seja sumamente suave, compensadora e repleta de boas surpresas. Que as altas montanhas, abismos, rios largos e profundos e outros tantos obstáculos não surjam em nossos caminhos ao longo dos próximos 365 quilômetros, até a próxima estação. Feliz Ano Novo!!!

Boa leitura.

O Editor.

Acompanhe o Editor no twitter:@bondaczuk



Os sete mistérios do universo


*Por Deonísio da Silva


Dizem os esotéricos e outros espíritos dados à pesquisa das ciências ocultas que jamais alguém viu uma cabeça de bacalhau. Ele deve ser o único peixe do mundo que já nasce sem cabeça, pronto para o consumo, e fica nadando lá no Mar do Norte, aguardando a semana santa. Os pescadores o recolhem das águas e só têm o trabalho de salgá-lo e expô-lo ao comércio. Está duvidando? Então, responda: você já viu uma cabeça de bacalhau? Pois é!

Outro mistério do universo é o anão. Alguém já viu anão no berço? Já foi a enterro de anão? Suponho que os anões não nasçam. Eles vêm a furo em algum terreno estufado. Ou quem sabe brotem das florestas. Talvez anão dê em árvore, como aquelas barbas de bode. Um dia o anão se cansa de viver entre tantos galhos e vem dar um tempo entre nós. Passados alguns anos, ele se cansa também da cidade onde está e vai viver em outra. Ou então, depois de muitas migrações, não sendo feliz em nenhuma delas, devido aos nossos preconceitos, o anão volta para a floresta de onde veio. Mas morrer, é certo que não morre. O leitor já foi a enterro de anão? Então!

O terceiro mistério do universo são os gêmeos. Jamais conheci gêmeos negros. Parece que existem, mas jamais foram vistos. Ou foram menos vistos do que o monstro do Lago Ness.

O quarto, o quinto e o sexto mistérios do universo vêm em cascata. Jamais alguém viu um mendigo careca, um filho da – como direi? – outra, que tivesse júnior no sobrenome, ou algum genro que carregasse a foto da sogra na carteira para de vez em quando dar uns beijinhos nela. Ou então, afixada no painel do automóvel com o lembrete: “não corra, genrinho!”

O sétimo e último mistério do universo é o ex-veado. Os dicionários mais pudicos preferem registrá-lo como aquele bichinho – já começam errando o gênero da entidade - tímido e veloz, cuja carne é muito apreciada. Mas não registram o ex-veado, personagem que freqüentava os pecados da carne com muito mais gana quando na antiga condição.

Há certa luxúria em todas as alusões à carne, dado que padres e doutores da Igreja vituperaram a pobre carne, que deveria ser humilhada pelo espírito até a vitória final. Penso que aí está mais uma prova evidente de machismo que as feministas se esqueceram de condenar, pois o dito a carne é fraca não passa de uma dissimulação da superioridade masculina do espírito.

A pobre carne passa a vida espezinhada pelo espírito e pelo tempo. Quando chega a hora de partir, já está acabadona, mas o espírito emerge todo fagueiro, triunfante. À semelhança de um mocinho do velho oeste, ele sempre vence no fim. Também em nosso corpo quem manda é a velha estrutura da casa grande & senzala. A carne é a nossa mucama. Trabalha e dá prazer ao espírito. Um dia fica bem velhinha e morre, se não perecer antes em algum trabalho ou prazer perigoso.

Nossa vida é cheia de sutis complexidades e raramente nos damos conta de como são insondáveis os pequenos mistérios do universo. É fácil a ciência fazer uma breve história do tempo e tratar de bilhões de anos-luz em menos de 300 páginas. Eu quero ler é uma lauda explicando esses sete mistérios. Nenhum sábio tornou inteligíveis sequer os três principais: onde estão as cabeças dos bacalhaus, para onde vão os anões depois desta vida e em que se transformam os ex-veados ao abandonarem tal condição.

* Escritor, Doutor em Letras pela USP, autor de 30 livros, alguns transpostos para teatro e TV. Assina colunas semanais no Jornal do Brasil, na Caras e no Observatório da Imprensa. Dirige o Curso de Comunicação Social da Universidade Estácio de Sá, no Rio.



Como se inventaram os almanaques

* Por Machado de Assis


Come-te, bibliógrafo! Não tenho nada contigo. Nem contigo, curioso de histórias poentas. Sumam-se todos; o que vou contar interessa a outras pessoas menos especiais e muito menos aborrecidas. Vou dizer como se inventaram os almanaques.
Sabem que o Tempo é, desde que nasceu, um velho de barbas brancas. Os poetas não lhe dão outro nome: o velho Tempo. Ninguém o pintou de outra maneira. E como há quem tome liberdades com os velhos, uns batem-lhe na barriga (são os patuscos), outros chegam a desafiá-lo; outros lutam com ele, mas o diabo vence-os a todos; é de regra.
Entretanto, uma coisa é barba, outra é coração. As barbas podem ser velhas e os corações novos; e vice-versa: há corações velhos com barbas recentes. Não é regra, mas dá-se. Deu-se com o Tempo. Um dia o Tempo viu uma menina de quinze anos, bela como a tarde, risonha como a manhã, sossegada como a noite, um composto de graças raras e finas, e sentiu que alguma coisa lhe batia do lado esquerdo. Olhou para ela e as pancadas cresceram. Os olhos da menina, verdadeiros fogos, faziam arder os dele só com fitá-los.
- Que é isto? murmurou o velho.
E os beiços do Tempo entraram a tremer e o sangue andava mais depressa, como cavalo chicoteado, e todo ele era outro. Sentiu que era amor; mas olhou para o oceano, vasto espelho, e achou-se velho. Amaria aquela menina a um varão tão idoso? Deixou o mar, deixou a bela, e foi pensar na batalha de Salamina.
As batalhas velhas eram para ele como para nós os velhos sapatos. Que lhe importava Salamina? Repetiu-a de memória, e por desgraça dele, viu a mesma donzela entre os combatentes, ao lado de Temístocles. Dias depois trepou a um píncaro, o Chimborazo; desceu ao deserto de Sinai; morou no Sol, morou na Lua; em toda parte lhe aparecia a figura de bela menina de quinze anos. Afinal ousou ir ter com ela.
- Como te chamas, linda criatura?
- Esperança é o meu nome.
- Queres amar-me?
- Tu estás carregado de anos, respondeu ela; eu estou na flor deles. O casamento é impossível. Como te chamas?
- Não te importe o meu nome; basta saber que te posso dar todas as pérolas de Golconda...
- Adeus!
- Os diamantes de Ofir...
- Adeus!
- As rosas de Saarão...
- Adeus! adeus!
- As vinhas de Engaddi...
- Adeus! adeus! adeus! Tudo isso há de ser meu um dia; um dia breve ou longe, um dia...
Esperança fugiu. O Tempo ficou a olhar, calado, até que a perdeu de todo. Abriu a boca para amaldiçoá-la, mas as palavras que lhe saiam eram todas de benção; quis cuspir no lugar em que a donzela pousara os pés, mas não pôde impedir-se de beijá-lo.
Foi por essa ocasião que lhe acudiu a idéia do almanaque. Não se usavam almanaques. Vivia-se sem eles; negociava-se, adoecia-se, morria-se, sem se consultar tais livros. Conhecia-se a marcha do sol e da lua; contavam-se os meses e os anos; era, ao cabo, a mesma coisa; mas não ficava escrito, não se numeravam anos e semanas, não se nomeavam dias nem meses, nada; tudo ia correndo, como passarada que não deixa vestígios no ar.
- Se eu achar um modo de trazer presente aos olhos os dias e os meses, e o reproduzir todos os anos, para que ela veja palpavelmente ir-se-lhe a mocidade...
Raciocínio de velho, mas tudo se perdoa ao amor, ainda quando ele brota de ruínas. O Tempo inventou o almanaque; compôs um simples livro, seco, sem margens, sem nada; tão somente os dias, as semanas, os meses e os anos. Um dia, ao amanhecer, toda a terra viu cair do céu uma chuva de folhetos; creram a princípio que era geada de nova espécie, depois, vendo que não, correram todos assustados; afinal, um mais animoso pegou de um dos folhetos, outros fizeram a mesma coisa, leram e entenderam. O almanaque trazia a língua das cidades e dos campos em que caía. Assim toda a terra possuiu, no mesmo instante, os primeiros almanaques. Se muitos povos os não tem ainda hoje, se outros morreram sem os ler, é porque vieram depois dos acontecimentos que estou narrando. Naquela ocasião o dilúvio foi universal.
- Agora, sim, disse Esperança pegando no folheto que achou na horta; agora já me não engano nos dias das amigas. Irei jantar ou passar a noite com elas, marcando aqui nas folhas, com sinais de cor os dias escolhidos.
Todas tinham almanaques. Nem só elas, mas também as matronas, e os velhos e os rapazes, juizes, sacerdotes, comerciantes, governadores, fâmulos; era moda trazer o almanaque na algibeira. Um poeta compôs um poema atribuindo a invenção da obra às Estações, por ordem de seus pais, o Sol e a Lua; um astrônomo,. ao contrário, provou que os almanaques eram destroços de um astro onde desde a origem dos séculos estavam escritas as línguas faladas na terra e provavelmente nos outros planetas. A explicação dos teólogos foi outra. Um grande físico entendeu que os almanaques eram obra da própria terra, cuias palavras, acumuladas no ar, formaram-se em ordem, imprimiram-se no próprio ar, convertido em folhas de papeI, graças... Não continuou; tantas e tais eram as sentenças, que a de Esperança foi a mais aceita do povo.
- Eu creio que o almanaque é o almanaque, dizia ela rindo. Quando chegou o fim do ano, toda a gente, que trazia o almanaque com mil cuidados, para consultá-lo no ano seguinte, ficou espantada de ver cair à noite outra chuva de almanaques. Toda a terra amanheceu alastrada deles; eram os do ano novo. Guardaram naturalmente os velhos. Ano findo, outro almanaque; assim foram eles vindo, até que Esperança contou vinte e cinco anos, ou, como então se dizia, vinte e cinco almanaques.
Nunca os dias pareceram correr tão depressa. Voavam as semanas, com elas os meses, e, mal o ano começava, estava logo findo. Esse efeito entristeceu a terra. A própria Esperança, vendo que os dias passavam tão velozes, e não achando marido, pareceu desanimada; mas foi só um instante. Nesse mesmo instante apareceu-lhe o Tempo.
- Aqui estou, não deixes que te chegue a velhice... Ama-me...
Esperança respondeu-lhe com duas gaifonas, e deixou-se estar solteira. Há de vir o noivo, pensou ela.
Olhando-se ao espelho, viu que mui pouco mudara. Os vinte e cinco almanaques quase lhe não apagaram a frescura dos quinze. Era a mesma linda e jovem Esperança. O velho Tempo, cada vez mais afogueado em paixão, ia deixando cair os almanaques, ano por ano, até que ela chegou aos trinta e daí aos trinta e cinco.
Eram já vinte almanaques; toda a gente começava a odiá-los, menos Esperança, que era a mesma menina das quinze primaveras. Trinta almanaques, quarenta,. cinqüenta, sessenta, cem almanaques; velhices rápidas, mortes sobre mortes, recordações amargas e duras. A própria Esperança, indo ao espelho, descobriu um fio de cabelo branco e uma ruga.
- Uma ruga! uma só!
Outras vieram, à medida dos almanaques. Afinal a cabeça de Esperança ficou sendo um pico de neve, a cara um mapa de linhas. Só o coração era verde como acontecia ao Tempo; verdes ambos, eternamente verdes. Os almanaques iam sempre caindo. Um dia, o Tempo desceu a ver a bela Esperança; achou-a anciã, mas forte, com um perpétuo riso nos lábios.
- Ainda assim te amo, e te peço... disse ele.
Esperança abanou a cabeça; mas, logo depois, estendeu-lhe a mão.
- Vá lá, disse ela; ambos velhos, não será longo o consórcio.
- Pode ser indefinido.
- Como assim?
O velho Tempo pegou da noiva e foi com ela para um espaço azul e sem termos, onde a alma de um deu à alma de outro o beijo da eternidade. Toda a criação estremeceu deliciosamente. A verdura dos corações ficou ainda mais verde.
Esperança, daí em diante, colaborou nos almanaques. Cada ano, em cada almanaque, atava Esperança uma fita verde. Então a tristeza dos almanaques era assim alegrada por ela; e nunca o Tempo dobrou urna semana que a esposa não pusesse um mistério na semana seguinte. Deste modo todas elas foram passando, vazias ou cheias, mas sempre acenando com alguma coisa que enchia a alma dos homens de paciência e de vida.
Assim as semanas, assim os meses, assim os anos.
E choviam almanaques, muitos deles entremeados e adornados de figuras, de versos, de contos, de anedotas, de mil coisas recreativas. E choviam. E chovem. E hão de chover almanaques. O Tempo os imprime, Esperança os brocha; é toda a oficina da vida.


"Almanaque das Fluminenses", 1890, Rio de Janeiro, H. Lombaerts & Cia., págs. 9, 12, 15, 18, 21, 24.

Fonte: Contos Avulsos - Machado de Assis - org. de R. Magalhães Júnior - Editora Civilização Brasileira / Cia Brasileira de Livros - 1956

• Fundador da Academia Brasileira de Letras e um dos maiores escritores de todos os tempos



Ah! O Maravilhoso Verão

* Por Urda Alice Klueger


Eu nasci no verão, numa madrugada de carnaval, e a minha mãe me contou que, quando estava indo para a maternidade, a música que ouviu foi “Sassaricando”. Dá para aquilatar o astral do meu nascimento; estou sassaricando até hoje, e sempre tenho a impressão de que o fato de ter nascido no verão e no carnaval foi que fez de mim uma pessoa que curte o verão mais que as outras.
Daí, hoje, perguntei ao meu amigo Júnior se ele tinha uma sugestão para a minha crônica, e ele me deu a felicidade de sugerir que eu escrevesse sobre o verão. Pôxa, como não tinha pensado nisso antes? O verão é o tempo mais maravilhoso do ano, dá para escrever trocentas crônicas sobre ele, e fico aqui, agora, pensando, o que mais agradaria ao leitor.
Podemos falar dos adoráveis incômodos do verão: os carros cheios nas sextas-feiras à noite, os congestionamentos a caminho da praia, a água que está faltando quando se chega lá, as queimaduras de sábado, que impedem o Sol de domingo, todas essas adoráveis coisas que seriam horríveis em outra estação, mas que dão um charme todo especial ao verão.
Podemos falar, também, das delícias e da suavidade das ondas nos dias de sol, do encanto das noites quentes, da lindíssima cor bronzeada que a população exibe em Fevereiro, das batidinhas de morango, do reagge ouvido no carro horas de congestionamento – tudo, tudo há para se falar quando é verão, mas acho que é melhor contar uma histórinha.
Desde menina que freqüentava a Praia de Armação do Itapocoroy (Penha/SC) e conhecia todos os seus segredos. Um deles é um costão lindíssimo que liga o canto da Praia de Armação à Praia de Paciência, que atravessei a pé pela primeira vez lá pelos 14 anos, e que nunca mais deixei de atravessar. Leva-se bem umas duas horas para se fazer o trajeto, subindo e descendo pedras de todos os tamanhos, mas a natureza, lá, é tão majestosa, que vale a pena qualquer sacrifício para atravessar-se aquele pedaço de mundo ainda desconhecido dos turistas. Fiz a travessia muitas vezes, em todos os verões da minha juventude, e fui fazê-lo de novo, já perto dos 40 anos.
Foi num Ano Novo, creio que na entrada de 1990. Fomos acampar em Armação, e na manhã de Primeiro de Janeiro, resolvemos inaugurar o ano fazendo aquela travessia pelo costão.
Minha turma ia muito animada, e já tínhamos vencido mais ou menos a metade do caminho, quando aconteceu o inesperado: depois de mais de 20 anos de prática naquelas pedras, eu escorreguei e cai de cara no costão. Dizer que me machuquei é pouco: fiquei foi lanhada pelo corpo todo, e corte de pedra sangra que é uma barbaridade. Que fazer? Voltar ou ir para a frente dava na mesma, estávamos na metade do caminho, e não havia, por ali, nada nem ninguém que nos pudesse acudir, além de minha irmã e meus amigos, que não podiam fazer nada. Decidi ser forte, e, brincando, pedi-lhes:
- Quem se perder, siga o rastro de sangue, que vai achar o resto da turma!
Capengando, sangrando no rosto, no corpo, na perna, continuei fazendo a farra, quando aconteceu o inesperado: lá em cima, um passarinho que parecia um galinha resolveu se aliviar e, para usar uma palavra polida, deu-me um banho de cocô, abundante cocô líquido que me atingiu nos cabelos, nos óculos, no rosto, no corpo todo. Não tinha chorado ao cair, mas ai me deu vontade de chorar, só não adiantava fazê-lo. A solução foi entrar no mar e tomar um banho, o que até ajudou a diminuir os muitos sangramentos que as pedras tinham feitos dois ou três minutos antes. Dentro do mar, via minha turma morrendo de dar risada, e acabei rindo junto. Que forma de começar um ano! Como seria ele?
Na verdade, aquele ano foi muito bom, E, como esse incidentes aconteceram no verão, ficaram com um gosto bom de verão. Os cortes sararam em uma semana, mas a história ficou para ser contada muitas e muitas vezes. Não é qualquer um que, no verão, consegue cair num costão e tomar um banho de cocô de passarinho quase ao mesmo tempo. Tem-se que ter-se nascido no verão, ao som da música “Sassaricando”.
Que pena que o verão não seja o não todo! Já estou com saudades antecipadas dele!

* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR

Aos Amigos, feliz 2011

* Por Luiz Carlos Monteiro


Antes de qualquer conversa, começo por desejar um 2011 de intensas e múltipas realizações a todas as pessoas que conheço ou convivo cotidianamente. Sem discriminação de gênero ou de outras roupagens e feitios, aí estão incluídos amigos, familiares, vizinhos, conterrâneos, companheiros de jornada, conhecidos de longe ou de perto. Isso se estende também a desconhecidos de quem talvez venha a ser amigo um dia, e mesmo ainda àqueles com quem me desavim por algum motivo que se mostra, no instante em que escrevo, com a sua importância relativizada. Nesta listagem não poderia esquecer, de modo nenhum, os visitantes deste blog que mantenho há um ano. Com alguns, faço contato presencial e com outros, apenas virtualmente. Com ambos, os sinais de amizade são reforçados pelo gosto da literatura.
Aliás, neste âmbito, o ano que finda foi bastante produtivo, em especial para os projetos coletivos. O acontecimento literário mais importante foi, certamente, a realização da Fliporto em Olinda, no mês de novembro. Nossa participação direta se deu com o lançamento do livro Cronistas de Pernambuco, em colaboração com Antônio Campos, curador da festa, como parte de um projeto maior da editora Carpe Diem, a trilogiaPernambuco em antologias. Atendendo ao convite de Sérgio Pires e Fátima Falbo, da agência publicitária Atma Promo, realizamos, até agora, três mesas-redondas sobre Carlos Pena Filho e sua obra, na condição de eventos internos à exposiçãoCarlos Pena Filho: 50 anos de memória, no Santander Cultural. Dispusemos de uma boa cobertura da imprensa e participamos do livro em formato álbum que leva o nome da exposição. Esperamos concluir algum projeto que restou inacabado em 2010 ou de anos anteriores.
Mantivemos uma forte interação com a blogosfera através da reprodução de textos e publicação de inéditos em espaços locais e de outros estados. Destacamos, no Recife, o Jornal da Besta Fubana, do escritor Luiz Berto, que hospedou a nossa coluna “O Mundo Circundante”; o blog NotaPE que, através de Cristiano Ramos, nos abrigou como colaborador. Fizemos também intervenções no Interpoética, Portal Vermelho, Substantivo Plural, Literatura sem Fronteiras, para citar apenas estes. Publicamos em maior ocorrência textos de poesia e crítica literária no blog Literário, de Pedro Bondaczuk, de Campinas (SP).
Não é novidade para ninguém que o mundo se transforma a cada segundo. Mudam crenças pessoais, hábitos sociais, culturas aparentemente solidificadas, orientações éticas e valores políticos, e ainda a concepção histórica e teórica de sistemas filosóficos, literários e artísticos. Algumas mudanças são imperceptíveis inicialmente, mas com a passagem do tempo acostuma-se a elas. E é neste sentido que mudaram flagrantemente as formas de comunicação, com a chegada das redes sociais e dos espaços de divulgação proporcionados por sites e blogs.
Acima de qualquer coisa, permanecemos humanos e nenhuma transformação terrena pode mudar isso, exceto a morte, este sumidouro do desconhecido. Humanos e perecíveis, nosso nome somente servirá de herança e repasto se deixarmos alguma obra de relevância para quem virá depois. O que se reafirma como algo de extrema dificuldade, pois requer a junção perfeita do que a inteligência pensou e o talento facilitou ao espírito criativo. E assim uma espécie de compulsão criativa se veicula nos diversos setores do conhecimento e da arte, resultando em obras que tanto poderão ter a sua duração elastecida como simplesmente ficarem esquecidas até que alguém as resgate do limbo e as exponha a uma visualidade inesperada. Tais obras, configuradas por livros, quadros, esculturas, filmes, imagens fotográficas, composições musicais, prédios de valor patrimonial e artístico, contudo, não estão imunes à destruição pelas não tão improváveis catástrofes que assolam países, como produto das guerras localizadas e das forças cósmicas da Natureza, que não entram em acordo nem rendem tributos ao homem quando querem se manifestar.
Expressamos os nossos melhores agradecimentos aos seguidores e a todos aqueles que enviaram, através de e-mails, inclusive de outros países, uma quantidade significativa e especial de comentários aos escritos do blog, embora alguns não necessariamente para que os publicássemos. Aos que nos enviaram livros, informamos que, na medida do possível, realizamos as respectivas leituras, mesmo que muitos deles não tenham sido comentados ou avaliados em texto ou artigo.
E que em 2011 continuemos a trabalhar a literatura, partilhando-a fraternalmente nos instantes, situações e vivências possíveis.

* Poeta, crítico literário e ensaísta, blog www.omundocircundande.blogspot.com

Tipos de carisma: da cabeça (Lula) e das mãos(Dilma)

* Por Leonardo Boff

O Brasil conheceu ultimamente duas rupturas de magnitude histórica: elegeu um operário presidente e, em seguida, uma mulher, filha de imigrantes búlgaros, resistente da ditadura militar e testada na tortura. Isso não é sem significação. Depois de 503 anos sem alternância no poder, tempo em que as elites dominaram neste pais, criaram-se as condições concretas políticas e sociais para romper esta continuidade. Um filho da pobreza, Lula, irrompeu com um carisma avassalador que modificou o cenário político brasileiro.
Agora o sucede uma mulher, Dilma Vana Rousseff. Antes de mais nada é uma mulher. Para os que vêm da cultura patriarcal e androcêntrica ainda dominante na sociedade, que não se deu conta da revolução cultural trazida pelas mulheres, há mais de um século, o fato de ser mulher não significa nada. Para muitos deles, funciona em suas cabeças, o que ensinava Aristóteles, o repetia Tomás de Aquino e que ainda guarda ressonância no Código de Direito Canônico e na psicologia de Freud: a mulher é um homem que ficou a caminho e que não chegou ainda à sua plenitude. Por isso, o lugar que lhe cabe é apenas de coadjuvante. E eis que emerge uma mulher que rompe com este preconceito e se mostra como presidente que assume conscientemente sua função. Em seguida, é uma mulher que mostrou coragem ao se opor à truculência dos que sequestravam, torturavam e matavam em nome do Estado de Segurança Nacional (entenda-se Segurança do Capital). Uma mulher que ajudou a construir uma democracia aberta, sem rancor e sem ódios, como se viu na campanha presidencial, de baixíssima intensidade ética e se qualificou brilhantemente como administradora em várias funções públicas.
Ela não tem o tipo de carisma de Lula que é o carisma da cabeça, que mais que palavras fala coisas, que diz a verdade direta e pronuncia discursos convincentes. Ela tem o carisma das mãos, do fazer: correto, bem planejado e rigorosamente cobrado. Sem perder a ternura de mulher, se mostra exigente, como deve ser.
Há carismas e carismas. A categoria carisma não pode ser monopolizada por um tipo de carisma, aquele da palavra criativa e do fascínio que suscita. Há outros tipos de carisma que não necessariamente passam pela palavra falada. Se assim fosse, Chico Buarque de Holanda não seria inegavelmente o carismático que é, pois seu carisma não se realiza pela palavra falada, mas no romance, na poesia e genialmente na música.
Expliquemos melhor este conceito de carisma que vai além do sentido dado por Max Weber. Raro na literatura grega e vétero-testamentária, foi introduzido por São Paulo que o usou dezenas e vezes em suas epístolas. O carisma está ligado a duas outras realidades: ao Espírito e à comunidade. O Espírito é entendido como a fantasia de Deus, o princípio divino de toda criatividade e invenção. Esse Espírito suscita todo tipo de carismas como da inteligência, do aconselhamento, da consolação dos doentes, do ensino, da palavra fácil, da direção de uma comunidade. O carisma não é do reino do extraordinário, mas do ordinário da vida como o de cantar, de fazer música e de entreter a comunidade. Não existe nenhum membro ocioso:”Cada qual tem o seu próprio carisma, um de um modo outro de outro”(1Cor 7,7).
Os carismas vêm do Espírito mas se destinam à construção e à animação da comunidade. Eles não são para a autopromoção mas para o serviço aos demais. Definindo: carisma é a função concreta que cada qual desempenha dentro da comunidade a bem de todos (l Cor 12,7;Ef 4,7), função entendida na fé como atuação do Espírito Criador presente na comunidade.
Apliquemos isso ao caso Dilma. Seu carisma, no entendimento acima, é o do fazimento, da administração, do governo, do planejamento de um projeto de Brasil e da diligência para que seja realizado no sentido da justiça social e ecológica, da inclusão dos destituídos, com ética pública, transparência nas decisões e controle dos procedimentos. Talvez após o carisma da cabeça convém que seja completado com o das mãos o operosas.
Para que esse carisma se realize não basta a vontade de Dilma. Precisa-se do apoio da sociedade, da boa-vontade geral e de todos os que labutam pelo bem do povo a partir dos últimos.

* Leonardo Boff é teólogo e autor de Tempo de Transcendência: o ser humano como projeto infinito, Vozes (2009), entre outros tantos livros de sucesso. Foi observador na COP-16, realizada em Cancun, no México.