Últimos dias de Guararapes
* Por
Leonardo Dantas Silva
No Instituto Ricardo
Brennand, situado em terras de São João da Várzea, que no século XVII serviram
de quartel às tropas insurretas pernambucanas, o visitante dos nossos dias
poderá ter um encontro com o Imaginário da Fé nas duas Batalhas dos Montes Guararapes,
ocorridas em 1648 e 1649.
Numa área de cerca de
1.200 metros quadrados, o visitante é conduzido ao tempo do Brasil Holandês, um
espaço de nossa história compreendendo os anos de 1630 a 1654 em que o Nordeste
brasileiro veio a ser dominado pelos holandeses.
Nesse período de
guerras cruentas, de tocaias, guerrilhas e escaramuças, duas batalhas foram
travadas nos Montes Guararapes, a 19 de abril de 1648 seguindo-se de outra em
19 de fevereiro de 1649.
Na primeira Batalha dos
Montes Guararapes, 5000 soldados da Companhia das Índias Ocidentais, sob o
comando do general Sigmund von Schkoppe, vieram a ser derrotados por 3.500
infantes dos terços de João Fernandes Vieira, Vidal de Negreiros, Filipe
Camarão e Antônio da Silva. Nas baixas do exército holandês figuravam 523
feridos e 515 outros, entre mortos e prisioneiros, dos quais 46 oficiais. Neste
confronto, perderam as vidas, do lado dos holandeses, os coronéis Hendrick van
Haus, Cornelis van Elst e Servaes Carpentier, ficando feridos o general von
Schkoppe e o coronel Guilherme Houthain. Do lado dos luso-brasileiros foram
computados 84 mortos e mais de 400 feridos.
Dez meses depois, em 19
de fevereiro de 1649, os dois exércitos vieram novamente medir forças nos
Montes Guararapes, quando 2.600 infantes que integravam as tropas
luso-brasileiras, sob o comando do general Francisco Barreto de Menezes, vem
derrotar 3.510 combatentes do exército da Companhia das Índias Ocidentais
comandados pelo tenente-general Johan van den Brincken.
Neste segundo
confronto, enquanto nas perdas do lado luso-brasileiro foram computados 47
mortos e 200 feridos, do lado dos holandeses perderam a vida o
comandante-geral, tenente-general Johan van den Brincken, o vice-almirante
Giesseling e 101 outros oficiais que, somados às demais baixas, perfaziam um
total de 1.044 mortos e mais de 500 feridos.
Montes Guararapes
O fim do Brasil
Holandês vem acontecer cinco anos mais tarde, quando da capitulação das tropas
holandesas, assinada pelo general Sigmund von Schkoppe, na noite de 26 de
janeiro de 1654, e a entrega por conseguinte de todas as praças até então
ocupadas em terras do Nordeste Brasileiro.
Em memória das duas
vitórias nos Montes Guararapes, ocorridas nos anos de 1648 e 1649, o general
Francisco Barreto de Menezes, Mestre-de-Campo, general do Estado do Brasil e
governador da capitania de Pernambuco, mandou erguer uma capela em louvor a
Nossa Senhora dos Prazeres (1656).
Por se tratar de uma
guerra religiosa, travada durante 24 anos (1630-1654) entre os exércitos da
Companhia Holandesas das Índias Ocidentais, constituídos em sua maioria por
mercenários luteranos e calvinistas, contra as tropas luso-brasileiras,
constituídas por católicos romanos, cresce de importância a presença do
sobrenatural nessas duas Batalhas dos Montes Guararapes.
Nesse contexto surge a
devoção a Nossa Senhora dos Prazeres, povoando o imaginário coletivo com a
crença de ter sido graças ao seu apoio conquistado essas duas vitórias nos
Montes Guararapes.
Com o passar dos anos
foram confeccionados sete painéis votivos, seis dos quais atualmente em
exposição no Instituto Ricardo Brennand, retratando as duas batalhas, decisivas
na reconquista do Brasil Holandês em 1654.
Esses ex-votos,
pintados nos séculos XVIII e XIX, destinavam-se conservar para posteridade os
feitos luso-brasileiros, usando para isso uma forma didática de apresentação em
que são identificados por numeração própria os principais personagens, bem como
a disposição dos terços e brigadas de infantaria envolvidas, tornando-se assim um
documento raro de informações do ponto de vista da Antropologia, Sociologia e
História.
Sob o título
GUARARAPES, sob o Imaginário da Fé aqueles que forem ao Instituto Ricardo
Brennand, na Várzea, serão convidados a arruar pela memória dos feitos de
nossos antepassados, quando de suas vitórias sobre os exércitos holandeses.
Além dos painéis
votivos, retratando às duas batalhas, os visitantes irão conhecer de perto a
imagem original de Nossa Senhora dos Prazeres que, em 1656, veio a ser
entronizada no primitivo templo erguido em seu louvor nos Montes Guararapes.
Colocada dentro de uma
capela, tendo por cobertura o primitivo forro e retábulo primitivo da Igreja de
Nossa Senhora da Conceição dos Militares (Rua Nova), recentemente restaurado
pela equipe da restauradora Pérside Omena, a imagem de 50 centímetros vem
atraindo a atenção do grande público visitante.
Paralelamente foi
montada uma exposição com armas originais da Coleção Ricardo Brennand, em uso
pelos exércitos do século XVII, uma mostra de livros sobre Guararapes e um
vídeo contando a história dos dois maiores confrontos bélicos acontecidos no
território brasileiro.
Arruar através do
Imaginário de Guararapes é o convite que nos é feito pelo Instituto Ricardo
Brennand até o próximo dia 18 de maio; no horário das 13 às 17 horas, das
terças-feiras aos domingos.
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Historiador, jornalista e escritor do Recife/PE
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