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Não mais que um luxo
* Por Mara Narciso
Milena Narciso, a minha mãe, queria fazer a festa do meu casamento. Na época não havia necessidades hollywoodianas de hoje, mas ela mandou vir de Barbacena um carro de flores, e encomendou meu vestido numa boa costureira. Porém, eu quis me casar numa quinta-feira e escolhi um vestido de tecido de algodão, sem bordados, cauda ou véu. Quando cheguei à porta da igreja, falei com meu pai: “o circo já está montado; podemos começar o espetáculo”. O meu jeito dramático de ser e avessa ao luxo é antigo, mas não me impede de flertar com ele.
O TCC - Trabalho de Conclusão de Curso, mais pomposo até agora deve ter sido “Mastígio”, interpretado - não ousarei dizer apresentado - pelo meu colega André Carvalho. Versava sobre a massificação do luxo, a incoerente popularização do prestígio. A instalação na sala da banca examinadora mostrava, no efeito impactante da chegada, com spots vermelhos, tapete da mesma cor, e duas elegantes recepcionistas, que vestir o tema, e não apenas entrar nele, seria indispensável para a sua compreensão. Teto rebaixado por tecido fino e preto feito caudas drapeadas suspensas, cortinas amplas, cadeiras adornadas com tecido preto acolchoado, ar condicionado ligado - um frio europeu é chique -, bancadas recobertas por brocados brancos bordados de preto, com o mesmo desenho da moldura do documentário que seria mostrado, vasos brancos, em estilo grego, com amplos ramalhetes de rosas brancas, mostruário de produtos finos, e garçons em roupa de gala, compunham o cenário do que estava por vir.
Diante dos três professores, num ambiente a meia luz, com destaque sobre o seu traje, André Carvalho falou sobre um assunto que lhe é muito caro: o luxo e suas vertentes. O cerimonialista, como gosta de ser referido, tem um vocabulário tão rico quanto seu ramo; bem articulado, fala com vibração do que mais entende: moda. Após a parte teórica, foi apresentado o seu produto: um documentário com entrevistas a pessoas que gostam, usam ou vendem luxo. A avaliação da banca foi ótima, quase total, porém contrariando os presentes, para os quais a nota justa seria dez.
Então, os garçons, rapazes lindos e vestidos a rigor, entraram espoucando champagne francês, e servindo camarão em mine-travessinhas brancas, e depois bombons finos e outros mimos. Tudo foi surpreendente, do contexto ao texto, pois, com seu discurso autêntico, a apresentação de André Carvalho não foi uma aula, foi um passeio de conversível, com direito a brisa e sol no rosto e cabelos do feliz intérprete.
Ontem, o novo jornalista deu uma festa no Automóvel Clube de Montes Claros para comemorar os 20 anos da sua empresa Voga Agency, seu aniversário de 38 anos e sua recente formatura. A especialidade de André são as festas temáticas de aniversário e casamento. Para a sua própria festa escolheu a Belle Époque, e na entrada, uma tenda de tecido vermelho formava um túnel, cujo chão estava coberto por tapete também vermelho, encimado por outro acolchoado dourado, dando o tom luxuoso da festa. Havia um grupo de belos rapazes de terno preto e chapéu, ladeando um Chevrolet Cline Master 1947. Luzes giratórias brancas e vermelhas davam ao ambiente da chegada um clima cinematográfico com clarões jogados para o céu. Moças pouco-vestidas de dançarinas de can-can compunham a cena introdutória, junto a penteadeiras de época, e que mais tarde deram um show de dança. Na escadaria central, que leva ao salão, André Carvalho esperava os convidados sob um pórtico de artísticas cortinas de três cores em composé. Vestido de preto, sobre a cabeça ostentava uma cartola branca. O elegante anfitrião combina com tudo, até mesmo com excentricidades.
Ao adentrar a festa, o ambiente de sonho invade o convidado, com suas mesas cobertas por longas toalhas cor-de-vinho, e sobre elas, outro tecido preto rendado, bem ao estilo francês. Vasos com rosas vermelhas e com velas acesas davam o toque romântico na festa com jeito familiar, na qual era permitido conversar, pois a música estava no tom certo. Num ponto do salão, barmen faziam malabarismos com garrafas, enquanto preparavam drinks tropicais nas mais diversas cores e composições.
Mais tarde aconteceu a cerimônia de brinde em família e um breve discurso do anfitrião, que, muito a vontade, falou que a sua lista de convidados obedeceu ao critério da afetividade, o que muito honrou aos presentes. Mesmo correndo o risco de ferir susceptibilidades nos ausentes, foi servido um abundante jantar francês, para 360 convidados. A mesa de bombons foi outra orgia para a visão (obra de arte com estética impecável), e para a gustação. Sabores finos foram apreciados pelos afortunados amigos. Ao amanhecer haveria um magnífico café da manhã.
Para usufruir bens de qualidade é preciso pertencer ao melhor dos mundos: o universo do luxo, em expansão em Montes Claros, o qual supre a avidez feliz de recentes e antigos consumidores.
*Médica, jornalista e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”.
* Por Mara Narciso
Milena Narciso, a minha mãe, queria fazer a festa do meu casamento. Na época não havia necessidades hollywoodianas de hoje, mas ela mandou vir de Barbacena um carro de flores, e encomendou meu vestido numa boa costureira. Porém, eu quis me casar numa quinta-feira e escolhi um vestido de tecido de algodão, sem bordados, cauda ou véu. Quando cheguei à porta da igreja, falei com meu pai: “o circo já está montado; podemos começar o espetáculo”. O meu jeito dramático de ser e avessa ao luxo é antigo, mas não me impede de flertar com ele.
O TCC - Trabalho de Conclusão de Curso, mais pomposo até agora deve ter sido “Mastígio”, interpretado - não ousarei dizer apresentado - pelo meu colega André Carvalho. Versava sobre a massificação do luxo, a incoerente popularização do prestígio. A instalação na sala da banca examinadora mostrava, no efeito impactante da chegada, com spots vermelhos, tapete da mesma cor, e duas elegantes recepcionistas, que vestir o tema, e não apenas entrar nele, seria indispensável para a sua compreensão. Teto rebaixado por tecido fino e preto feito caudas drapeadas suspensas, cortinas amplas, cadeiras adornadas com tecido preto acolchoado, ar condicionado ligado - um frio europeu é chique -, bancadas recobertas por brocados brancos bordados de preto, com o mesmo desenho da moldura do documentário que seria mostrado, vasos brancos, em estilo grego, com amplos ramalhetes de rosas brancas, mostruário de produtos finos, e garçons em roupa de gala, compunham o cenário do que estava por vir.
Diante dos três professores, num ambiente a meia luz, com destaque sobre o seu traje, André Carvalho falou sobre um assunto que lhe é muito caro: o luxo e suas vertentes. O cerimonialista, como gosta de ser referido, tem um vocabulário tão rico quanto seu ramo; bem articulado, fala com vibração do que mais entende: moda. Após a parte teórica, foi apresentado o seu produto: um documentário com entrevistas a pessoas que gostam, usam ou vendem luxo. A avaliação da banca foi ótima, quase total, porém contrariando os presentes, para os quais a nota justa seria dez.
Então, os garçons, rapazes lindos e vestidos a rigor, entraram espoucando champagne francês, e servindo camarão em mine-travessinhas brancas, e depois bombons finos e outros mimos. Tudo foi surpreendente, do contexto ao texto, pois, com seu discurso autêntico, a apresentação de André Carvalho não foi uma aula, foi um passeio de conversível, com direito a brisa e sol no rosto e cabelos do feliz intérprete.
Ontem, o novo jornalista deu uma festa no Automóvel Clube de Montes Claros para comemorar os 20 anos da sua empresa Voga Agency, seu aniversário de 38 anos e sua recente formatura. A especialidade de André são as festas temáticas de aniversário e casamento. Para a sua própria festa escolheu a Belle Époque, e na entrada, uma tenda de tecido vermelho formava um túnel, cujo chão estava coberto por tapete também vermelho, encimado por outro acolchoado dourado, dando o tom luxuoso da festa. Havia um grupo de belos rapazes de terno preto e chapéu, ladeando um Chevrolet Cline Master 1947. Luzes giratórias brancas e vermelhas davam ao ambiente da chegada um clima cinematográfico com clarões jogados para o céu. Moças pouco-vestidas de dançarinas de can-can compunham a cena introdutória, junto a penteadeiras de época, e que mais tarde deram um show de dança. Na escadaria central, que leva ao salão, André Carvalho esperava os convidados sob um pórtico de artísticas cortinas de três cores em composé. Vestido de preto, sobre a cabeça ostentava uma cartola branca. O elegante anfitrião combina com tudo, até mesmo com excentricidades.
Ao adentrar a festa, o ambiente de sonho invade o convidado, com suas mesas cobertas por longas toalhas cor-de-vinho, e sobre elas, outro tecido preto rendado, bem ao estilo francês. Vasos com rosas vermelhas e com velas acesas davam o toque romântico na festa com jeito familiar, na qual era permitido conversar, pois a música estava no tom certo. Num ponto do salão, barmen faziam malabarismos com garrafas, enquanto preparavam drinks tropicais nas mais diversas cores e composições.
Mais tarde aconteceu a cerimônia de brinde em família e um breve discurso do anfitrião, que, muito a vontade, falou que a sua lista de convidados obedeceu ao critério da afetividade, o que muito honrou aos presentes. Mesmo correndo o risco de ferir susceptibilidades nos ausentes, foi servido um abundante jantar francês, para 360 convidados. A mesa de bombons foi outra orgia para a visão (obra de arte com estética impecável), e para a gustação. Sabores finos foram apreciados pelos afortunados amigos. Ao amanhecer haveria um magnífico café da manhã.
Para usufruir bens de qualidade é preciso pertencer ao melhor dos mundos: o universo do luxo, em expansão em Montes Claros, o qual supre a avidez feliz de recentes e antigos consumidores.
*Médica, jornalista e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”.
errata: o nome do carro é chevrolet fleetmaster
ResponderExcluiressas festas regadas a néctar e ambrosia são mt divertidas mas sempre há o risco dos mais humildes acabarem viciando nelas e n querer saber de tomar nd que n seja champa nhe
adorei o texto
Que luxo, heim. E que criatividade, considerando-se o tema escolhido pelo novo jornalista para seu TCC. Seu texto, Mara, nos levou até lá. Parabéns.
ResponderExcluirNão gosto do luxo, sinceramente
ResponderExcluirnão me encaixo nele.
Fico pensando na minha tia numa festa dessas
com uma vasilha de Tuperware que aparece como
por encanto para surrupiar alguma coisa.
Ótimo texto.
Beijos
Uma descrição tão cuidadosa que quase senti o gosto dos doces. É a Mara jornalista revelando esse mercado crescente do luxo. Parabéns e brijos, querida!
ResponderExcluirObrigada gente. Você foram generosos como sempre. É um prazer vê-los aqui.
ResponderExcluirTambém não gosto dessas festas luxuosas,Mara, gostei sim foi do seu texto. Sempre preciso.
ResponderExcluirBeijos
Risomar, mesmo atrasada venho agradecer a sua passagem por aqui e o comentário simpático. Obrigada!
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