terça-feira, 14 de abril de 2009







Zé Com Fome e Kurosawa

* Por Fábio de Lima



Zé Com Fome e Kurosawa comeram cada um sua banana e saíram para o trabalho naquela manhã chuvosa de Sexta-Feira Santa. Precisavam muito papelão e latinhas de alumínio para conseguirem comer umas sardinhas na hora do almoço. Com a carroça vazia e o cachorro Kurosawa, Zé Com Fome seguiu desviando da miséria. E bota fome na barriga de Zé, porque Kurosawa abana o rabo sem saber de quê!

Zé Com Fome e Kurosawa deram sorte na primeira esquina e juntaram num poste, com cheiro de mijo, segundo o próprio Zé, caixas de papelão em abundância. De frente para o poste um prédio de vidro escrito em letreiro bonito Vatomarnoku Importação & Exportação. E Kurosawa coçou as pulgas enquanto Zé Com Fome encheu a carroça. E bota sorte na cabeça de Zé!

Zé Com Fome e Kurosawa são ateus e, embora Deus não esteja em seus planos, agradeceram assim mesmo a ELE pela chuva que caia bonita trazendo sorte aos dois guerreiros. Kurosawa mostrava os dentes como a sorrir a benção de ser cachorro no País do futuro. E Zé Com Fome também mostraria os dentes num sorriso bonito se dentes tivesse para mostrar. E bota alegria nos olhos de Zé!

Zé Com Fome e Kurosawa reviraram sacos de lixo em busca de riquezas e de algumas latinhas também. Kurosawa achou uns pasteis e umas empadinhas misturados com papel higiênico e nota fiscal. Kurosawa não sabe ler, mas Zé sabe. Então Kurosawa come os pasteis e as empadinhas enquanto Zé analisa, com olhos de contador, a nota fiscal lambuzada de catchup e merda. E bota análise nos dedos de Zé!

Zé Com Fome e Kurosawa só pararam depois de horas. E de frente ao banco olharam orgulhosos a bandeira do Brasil tremulando forte na chuva de vento. E ambos abanaram os rabos com orgulho de serem cachorros, mas não vagabundos. E a felicidade era tanta depois de uma manhã de trabalho que nem notaram as câmeras de segurança a vigiarem a alegria dos dois Dom Quixotes brasileiros em pleno campo de batalha. E bota coragem na carroça de Zé!

* Jornalista e escritor, ou “contador de histórias”, como prefere ser chamado. Está escrevendo seu primeiro romance, DOCE DESESPERO, com publicação (ainda!) em data incerta.

5 comentários:

  1. Crônica emocionada. Mais vale que uma missa de carolas. Enquanto lia, lembrei de Dodeskaden. Ah, erguer-se e prosseguir, apesar da miséria ... isso é que é! Parabéns, amigo Fábio!

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  2. Preciso ir numa missa de carolas. Nunca fui. Deve dar um belo texto...! Um abraço, meu amigo Daniel.

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  3. Retrato do nosso Brasil !
    O cachorro é o melhor amigo do homem.
    Parabéns Fábio, por história tão emocionada e emocionante.
    Bjs

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  4. Lixo, pobreza e beleza podem convivem em sua pena sensível, Fábio. Gostei especialmente do sorriso bonito , ainda que sem dentes, do Zé.
    Beijos e parabéns, amigo!

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  5. A miséria poética resumiu-se na frase: "E ambos abanaram os rabos com orgulho de serem cachorros, mas não vagabundos." Tem a força de um torpedo em quem tem o privilégio de ter consciência.

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