sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Olhos acostumados

* Por Ana Soares

O lema de todos os casais é permanecerem atentos, vigilantes para não serem sufocados pela rotina, para não se acostumarem um com o outro ao ponto de não conseguirem mais se enxergar...

Ter alguém com quem dividir a vida e os sonhos é ter  sorte! Ter alguém pra amar é ter sorte e ser amado então, é ter mais sorte ainda...

É fácil se apaixonar frente ao encantamento e longe de todos os problemas existentes no mundo, porque estar apaixonado é exatamente isto -  puro êxtase!

O difícil é doar a alma e o tempo;

Difícil é dividir tarefas, contas a pagar;

Difícil é compartilhar espaços dentro do mesmo espaço...

Difícil é aceitar as convicções alheias sem desrespeitar os seus próprios princípios.

A pessoa pela qual você se apaixonou continua exatamente ali e seu perfume ainda costuma deixar rastros pelos corredores onde passa e os seus olhos ainda brilham. Ela existe e não deixou de ser...

Ela ainda é a pessoa pela qual você se apaixonou.

A Deus eu só peço uma coisa:

- Que Deus nos livre dos nossos olhos acostumados!

Que tudo de bom nos aconteça e sobretudo nos proteja dos nossos olhos tão acostumados;
Que um breve “piscar de olhos” seja o suficiente para nos flagrar e revelar o quão bom é termos um ao outro.

Que a gente aprenda de uma vez por todas que o verdadeiro valor está aqui, em nós, diante dos nossos olhos tão acostumados que já nem veem mais...

* Poetisa e escritora

Pavese para Constance

* Por João Alexandre Sartorelli

Virá a morte
 E terá teus olhos.
 Não me importo como,
 Sei que não agora.

Virá depois
 O vazio ou um território,
 As palavras que escolho,
 Na pedra a minha memória.

* Analista de Sistemas por profissão e poeta por vocação


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 7 anos, sete meses e vinte e nove dias de existência.

Leia nesta edição:

Editorial – Heroi ou vilão?.

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, crônica, “Inundação de esperança”.

Coluna Contradições e paradoxos – Marcelo Sguassábia, crônica, “Alexanderplatz”.

Coluna Do fantástico ao trivial – Gustavo do Carmo, conto “A sogra”.

Coluna Porta Aberta – Elaine Tavares, artigo,“Gravidade”.

Coluna Porta Aberta – Alberto Cohen, poema, “Sofisma”.


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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” – Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
 “Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Heroi ou vilão?

O escritor norte-americano Jack London é uma figura fascinante, para o bem ou para o mal. É uma das personalidades sobre as quais tenho maior quantidade de material informativo, incluindo várias biografias. Caso pretendesse, também, biografá-lo, seria “uma festa”. Teria dados suficientes, quiçá, para produzir uma obra-prima do gênero. Todavia... essa nunca foi minha “praia”. Jamais me passou, sequer remotamente, pela cabeça biografá-lo, ou a outra pessoa qualquer. O que gosto de fazer é “pinçar” aspectos inusitados a propósito de várias personalidades e opinar a respeito. E nesse aspecto, Jack London oferece uma infinidade de temas que merecem ser comentados.

Antes de tudo destaco que ele foi um dos escritores mais bem sucedidos do seu tempo, em qualquer aspecto que se encare o sucesso. Foi, por exemplo, o primeiro homem de letras a conseguir imediata projeção internacional apenas em decorrência de suas histórias. Foi, também, um dos raros que conseguiram ficar ricos (na verdade, ficou milionário), vivendo apenas de Literatura. Escreveu muito, muitíssimo. E sempre ficção. Só de romances, consegui catalogar vinte e dois que ele publicou. Provavelmente, essa cifra é, somente, irrisória parcela do conjunto de sua obra ficcional. De contos – sua especialidade – detectei só seis livros. Mas é impossível contabilizar a quanto sua produção contística ascendeu. Há quem diga que chega a alguns milhares. Exagero? Talvez. A maioria de suas histórias curtas ele publicou em revistas.

Mas o que me chama a atenção nos dados (muitos) que disponho sobre Jack London, não é propriamente nada que se refira à sua carreira. São controvérsias a propósito do seu “início” e de seu “fim”. Ou seja, do seu nascimento e a polêmica que cercou (e ainda cerca) sua morte. O nome verdadeiro de Jack London é John Griffith Chaney. Ele nasceu em São Francisco, na Califórnia, em 12 de janeiro de 1876. Até hoje, passados 137 anos do seu nascimento, persiste ainda a dúvida sobre quem foi seu pai biológico. A maioria dos biógrafos atribui essa paternidade ao astrólogo William Chaney, que vivia, maritalmente, com a mãe do escritor, Flora Wellman, na ocasião em que ela engravidou. Este, por seu turno, sempre negou haver gerado esse (ou qualquer outro) filho, argumentando que não poderia engravidar mulher alguma, porquanto era impotente.

O fato é que a mãe de Jack London veio a público, quando o filho já era famoso, para dar sua versão. Assegurou que foi, mesmo, engravidada por Chaney (o que este negou, até a sua morte) e que este exigiu que ela abortasse. Como se recusasse a abortar, o casal separou-se de vez. Quando a criança nasceu, Flora entregou-a à ex-escrava Virgínia Prentiss para criá-la. Dois anos depois, todavia, ela voltou aos cuidados da mãe biológica. Jack, pelo resto da vida, nutriu carinho especial e profundo amor filial por essa generosa mulher singular que o acolheu após o nascimento.

Flora Wellman casou-se com John London, veterano da Guerra da Secessão, parcialmente inválido em virtude dos ferimentos que recebeu quando soldado, que o criou como filho legítimo. Mas, se Chaney não era o pai de Jack London, como sempre afirmou, quem foi? Nunca se soube. Duvido que algum dia se saberá. E a controvérsia persiste até hoje, com versões antagônicas dos vários biógrafos. Uns dizem que Flora mentiu. Outros garantem que o mentiroso foi o astrólogo.

Se o nascimento do nosso personagem sempre esteve (e ainda está) envolto em tanta controvérsia, o que se refere à sua morte, não é diferente. A polêmica gira em torno de se ele cometeu ou não suicídio. O atestado de óbito diz que sua morte foi em decorrência de uremia. Contudo, sabe-se que o escritor, nos seus últimos momentos, recorreu à morfina para suportar as terríveis dores causadas pelos rins avariados. Suspeita-se que a verdadeira causa mortis tenha sido uma overdose da droga. Há quem afirme que, se esta, de fato, se verificou, foi acidental. A corrente majoritária, porém, garante que o excesso de morfina foi aplicado propositalmente pelo escritor. Alguns biógrafos até descobriram, entre a infinidade de contos escritos por Jack London, um em que o personagem “se mata” exatamente da forma como o autor morreu: por overdose da droga. Por tudo o que li a propósito, acredito que ele cometeu suicídio, em 22 de novembro de 1916, aos quarenta anos de idade.

Mas não são, apenas, seu nascimento e sua morte que chamam a atenção, por parecerem coisas saídas da cabeça de um delirante ficcionista, tão inusitados que chegam a parecer inverossímeis. Vários outros episódios da sua vida parecem um enredo exageradamente fantasioso de um conto ou de um romance de quinta categoria. Jack London, por exemplo, participou da famosa “corrida do ouro”, que agitou a Califórnia no século XIX. Não fez fortuna com o metal, mas fê-la com as histórias que narrou desse período em seus romances e contos. As circunstâncias de seus dois casamentos também dariam belo enredo. Como, igualmente, seu envolvimento com plágio. Jack London foi acusado de “comprar”, a preço irrisório, originais de escritores obscuros e utilizá-los, parcial ou totalmente, como sendo seus. Ao cabo da leitura de suas biografias (li mais de uma versão), fico na dúvida se o biografado foi um intelectual talentoso, dinâmico e empreendedor ou se não passou de refinado malandro que nunca desperdiçou oportunidades para enriquecer e estar sempre em evidência, sem se importar com os meios empregados.

Boa leitura.


O Editor

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk. 
Inundação de esperança


* Por Pedro J. Bondaczuk

A esperança é fidelíssima companheira que nunca nos abandona, nem nos piores momentos e circunstâncias. Impede que venhamos a dar qualquer batalha por perdida – quer seja no amor, no esforço pela sobrevivência ou no empenho por um mundo melhor e mais justo – retemperando nossas forças, reacendendo o brilho e o fogo nos olhos e na alma e nos exortando a prosseguir.

Esperamos neste mundo e em outro que, mesmo que não exista no terreno concreto, passa a existir em nosso coração e mente. Abrimos mão de muita coisa, ao longo da vida, premidos pelas circunstâncias, mas jamais nos separamos dessa companheira dileta e leal, que independe de qualquer lógica ou razão, chamada esperança. E fazemos bem em agir dessa maneira.

Há pessoas, porém, tão desencantadas face aos sofrimentos que têm, aos tropeços que experimentam, aos fracassos que vivenciam e às decepções que colecionam, que asseguram não ter mais nenhuma esperança na vida. Estão erradas, claro. No fundo, bem no âmago de seus corações, escondidinhas, estas ainda se fazem presentes. Não há quem não as acalente, mesmo que secretamente, ou de maneira inconsciente.

Até mesmo os moribundos, que vislumbram o espectro da morte ao seu redor, esperam uma miraculosa reação do seu organismo e a recuperação. Sempre que uma esperança morre, face à dureza da realidade (e isso é bastante comum e até corriqueiro), outra nasce de imediato, silenciosa e até despercebida, porém mais forte e vigorosa.

Gustave Flaubert afirmou, pela boca de um dos seus personagens, que “a recordação é a esperança do avesso. Olha-se para o fundo do poço como se olhou para o alto da torre”. E o romancista francês está coberto de razão. Quando temos esperança, olhamos para o alto, na certeza de que, aquilo que tanto queremos, vai, de fato, acontecer, sendo apenas questão de tempo. Às vezes, nunca acontece. Ainda assim, a sensação que nos fica é das mais doces e promissoras.

Quando recordamos, porém, pensamos em algo que já passou, que aconteceu, que foi bom enquanto durou, mas que se acabou, sem chance de retorno. Considero, pois, a recordação muito mais frustrante e amarga do que a esperança. Mesmo que seja agradável, traz, em si, implícito, um sentimento de perda, de algo irrecuperável. A esperança, por seu turno, por mais louca que seja, nos abstrai da realidade, principalmente quando esta é amarga e dura, e sempre nos serve de bem-vindo consolo.     

Não raro nos desesperamos por pouca coisa, e achamos que, para nós, nada mais faz sentido. Raros são os que sabem lidar bem com pontuais fracassos e eventuais frustrações. Nada como um dia depois do outro! O que conta, mesmo, é a vida que, apesar dos percalços e dos sofrimentos físicos e morais que eventualmente nos imponha, sempre vale a pena. Basta que atentemos para o seu real sentido e sua sublime transcendência.

Concordo com o que diz Érico Veríssimo, através de um dos seus personagens, no romance “Olhai os lírios do campo”: “Olha as estrelas. Sempre há esperança na vida”. Num universo tão imenso – de uma grandiosidade que a nossa mente até é incapaz de abarcar e entender – e embora não passemos, nele, de infinitésima partícula, temos o privilégio de existir. E de ter noção dessa existência. Por pior que seja a nossa situação, a solução para nossos males pode estar próxima, no segundo seguinte..

Cultivar esperanças, portanto, é um hábito saudável. Mas requer algumas cautelas, sem as quais corremos o risco de descambar para frustrações, amarguras, desilusões e profunda infelicidade. Por exemplo, devemos esperar o que seja possível, realizável, factível e alcançável e sem impor prazos para que isso aconteça.

Mas não podemos e nem devemos nos limitar apenas a esperar. Precisamos agir, com prudência e perseverança, no sentido de conseguirmos o que tanto desejamos, já que nada cai prontinho do céu em nosso colo. E, sobretudo, é conveniente que nos previnamos da possibilidade de que o que tanto esperamos não se concretize nunca, para que não nos frustremos.

Nesse caso, nada impede que substituamos uma esperança por outra, adotando, em relação a ela, as mesmas cautelas e cuidados que adotamos em relação à que não se realizou. Fernando Pessoa exorta e adverte a respeito: “Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas”.

O ser humano, obra-prima da criação, não foi feito, apenas, para viver um cotidiano tedioso e banal, em um mundo repleto de violência, misérias e injustiças. Todavia, para que alcance a grandeza que lhe foi destinada, para que conquiste a nobreza da qual possui pleno potencial, tem que mudar. Precisa evoluir, e muito, mental, espiritual e comportamentalmente. Tem que dominar seus instintos. Deve exercitar, em toda a sua plenitude, com constância e de forma incansável, a capacidade de amar. Precisa cultivar valores, como a bondade, solidariedade, justiça e fé e exercitá-los no dia a dia, transmitindo-os às novas gerações.

O poeta Mauro Sampaio diz isso de forma sábia e bela, nestes versos do seu poema “Esperança”:

“Um dia
os montes se abaterão aos nossos pés
e levantaremos do chão as estrelas caídas!”.

Compete ao ser humano identificar, valorizar e viver a plena felicidade, que existe, latente, dentro de si. E nunca, em circunstância alguma, guardando as cautelas que realcei acima, abrir mão da esperança. Nunca abra mão da sua, querido leitor!



* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas). Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk 



Alexanderplatz

* Por Marcelo Sguassábia

I

Me diz: quando é que eu ia imaginar topar contigo em Berlim, se na minha cabeça aquele você de ontem, com gosto  amanhecido de cerveja e de preguiça, ainda estava lá onde havia te deixado, montando cavalo de carrossel e de aparelho nos dentes? Como é que pode me aparecer assim, sem me dar chance de aparar a barba, re-nata de sítio extinto?


II

Meio fêmea-fúria, meio mulher-nirvana, contigo no carro roubado. A cada troca de marcha a minha mão roçando o vestido, do joelho para a coxa. Sentia que te levava às nuvens que inexistiam no céu daquele dia, doida varrida envolta em pouca vergonha. À falta de boas moitas, ia no acostamento mesmo, o sol sem pena fervendo a lata. A carne exposta. O almíscar vencido.


I
II

Brincou comigo, te encontrar tão fora de contexto. Alta, linda, senhora da vida. Sem lembrança nenhuma da mão boba do câmbio e dos cavalos do parque. Agora, os dois defronte, querendo se livrar da falta do que dizer. E o teu quase sorriso, de esquálido protocolo, feria o meu desajeito. Estátuas em Alexanderplatz.

* Marcelo Sguassábia é redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).





A sogra

* Por Gustavo do Carmo

Além de não querer que a namorada sofresse com as suas manias, Albano morria de medo de ser mal visto pela futura sogra por não trabalhar e depender do dinheiro do pai. Assim, resistia a assumir um relacionamento mais sério.

Até que conheceu e foi fisgado por Lorraine, filha única e órfã de pai. Albano citou todas as suas manias, como mudar de canal da televisão toda hora, nunca frequentar missas ou cultos, boates e academias de jeito nenhum, cortar as unhas com a própria mão, entre outras. Ele também tinha vergonha de não ter nenhuma experiência profissional.
— Não se preocupe com isso. Vou dar um jeito.

Esse foi o primeiro problema que Lorraine resolveu. Pediu para o seu tio Lair arrumar um emprego para o namorado. O senhor, bondoso e influente, conseguiu uma vaga de redator na agência de publicidade de um amigo para Albano, que agarrou com unhas e dentes a oportunidade, tornando-se um ótimo profissional.

Albano finalmente realizou a sua tão sonhada independência financeira. Enriqueceu e pôde pedir Lorraine em casamento. Com o noivado, não teve escapatória: ele precisava conhecer a sogra, que era viúva.

Durante  um ano de namoro, Albano sempre arrumava uma desculpa para adiar o encontro com a mãe de sua amada. Lorraine compreendeu o medo do namorado, assim como todas as suas manias.

Dona Lourdes cobrava a filha.
— Você não vai me apresentar o seu namorado não, minha filha? Até o seu tio Lair o conhece e eu não.
— Eu já tentei. Mas o Bano é muito tímido.

A senhora aceitou a primeira desculpa, mas voltou a cobrar no mês seguinte.
— Mãe, vou te contar a verdade: ele tem medo de conhecer a senhora! O Bano acha que a senhora não vai gostar dele.
— Ah, ele não deve é ser boa pessoa. Onde já se viu? Ter medo de conhecer a sogra. 
— Claro que já se viu. As sogras são sempre temidas pelos maridos.
— Ele deve estar tramando algum golpe do baú, isso sim! Tome cuidado!
— Deixa de bobagem, mãe! Já não lhe disse outra vez que o Albano é muito tímido?
— Então ele deve ser um bobo. Se afasta desse tipo de gente.
— Se fosse bobo ele não faria tanto sucesso como publicitário.

Dona Lourdes encerrou com uma rosnada contrariada. Já Lorraine, pela primeira vez, cobrou o noivo para conhecer a sua mãe.
— Amor, por favor!  Você tem que conhecer a minha mãe. Ela já está desconfiando de que você não presta.
— Poxa, Lô. Eu estou tentando criar coragem.
— Pois então crie! Se não criar a gente termina o namoro por aqui! Disse Lorraine, pela primeira vez furiosa com Albano.
— Do que ela gosta, então?

A partir daí, Albano pediu um dossiê sobre a sogra para a namorada: do que ela gosta, do que ela odeia, dos assuntos que deve conversar, dos assuntos que ele deve evitar. E Lorraine disse tudo.  A mãe era religiosa, adorava receber flores, gostava de dançar e era viciada em cupcakes.

Para a tão esperada apresentação, Albano levou um buquê de flores e uma caixa de cupcakes de chocolate com creme de maracujá fresquinhos, comprados no shopping perto da casa de Lorraine. A noiva não tinha falado sobre as preferências de sabor e nem de marca do doce. Dona Lourdes ficou satisfeita de imediato. Albano não deu margens para desconfiança. A senhora encantou-se pelo genro de imediato.

Ele aproveitou e pediu para a sogra a mão de Lorraine em casamento. Dona Lourdes, claro, aceitou e depois disse para a filha que o genro era muito romântico.

Albano também descobriu um assunto que Dona Lourdes adorava: histórias. Contou várias sobre a sua família. Os dois passaram horas conversando. Tantas horas que o cinema que ele iria com Lorraine ficou para outro dia. Depois outro, depois outro. A cada dia Albano conversava mais com Dona Lourdes do que namorava Lorraine.

Em uma das visitas, Albano levou uma caixa cheia de fotos antigas. De novo, ficaram horas conversando. No domingo, ele passou a acompanhar a sogra na missa. Para ciúmes de Lorraine, que ficou sobrando na relação, e da mãe de Albano, Dona Adelaide, que reclamou com a nora que o filho nunca ia à missa com ela.

Dona Lourdes retribuiu o carinho e passou a mimar o genro cozinhando seus pratos preferidos, como capeletti, bife mal passado com batatas fritas e arroz com feijão vermelho. Também dava presentes como livros e miniaturas de carros. Lorraine, claro, continuava com ciúmes. Dona Adelaide idem, pois Albano quase não almoçava mais em casa.

A agência de publicidade onde Albano trabalhava foi vendida para um grupo paulista e ele foi demitido. O casamento, antes certo, ficou fora dos planos. Lorraine passou a usar o desemprego do noivo para envenenar a sua relação de amizade com a sogra.
— Mãe, você aceita um genro desempregado?
— Normalmente não. Mas o Albano eu aceito porque ele é um bom rapaz e vai conseguir outro emprego logo.

A relação começou a esfriar. As manias do rapaz também passaram a incomodar a moça. Lorraine e Albano começaram a discutir com frequência.

Dona Lourdes usava panos quentes:
— Calma, minha filha. Não seja tão intempestiva! Ele está nervoso por causa do desemprego!
— Ele nem está procurando emprego!
— E adianta procurar? As pessoas só conseguem emprego indicadas.
— E ele também está dando em cima de outra mulher na minha frente.
— Você está com tanto ciúme do seu sentimento de mãe pelo Bano que já está vendo o que não existe.

Um dia, revoltada, depois de mais uma missa em que ficou sobrando na conversa, Lorraine apelou:
— Você decide, Albano: ou eu ou a minha mãe! Você está tendo um caso com ela?
— Claro que é você, amor! Eu não tenho culpa de que ela gostou de mim!
— Mãe, você está dando em cima do meu noivo?
— Que isso, minha filha! Olha o respeito! O Albano é o filho homem que eu nunca tive.

Dona Lourdes nem era mulher atraente. Já tinha 70 anos, cabelos brancos e era gorda. Ela ficou uma semana sem falar com a filha por causa das acusações injustas de roubar o namorado da filha. Dona Adelaide, mãe de Albano, fez o mesmo com o filho quando descobriu que ele ia à missa com a sogra e iria a um baile da terceira idade com a sogra. Já Lorraine terminou o noivado. Foi a gota d’água.

O casamento já estava esquecido e as manias de Albano insuportáveis. Lorraine tirou a aliança do dedo e a jogou fora. Voltou a frequentar as danceterias e a academia. Não que o namorado tivesse proibido, mas ela tinha evitado os lugares que ele odiava para agradá-lo. Agora estava livre para fazer o que quisesse.
— Está satisfeita, mãe? Terminei tudo com o Albano! Ele agora é todo seu! Desabafou outro dia.
— E quem disse que eu queria ele?! Eu só o papariquei para testar a sua fidelidade! Se encantou tanto por mim que se esqueceu de você. Depois que vocês terminaram, nunca mais me procurou! E ainda se acomodou com o desemprego!  Esse tipo de homem não presta! Além disso está obeso, tem umas manias chatas e ainda é porco!  

* Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos” pela Editora Multifoco/Selo Redondezas - RJ. Seu  blog, “Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por leitores