sábado, 2 de setembro de 2017

Literário: Um blog que pensa

(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, cinco meses e cinco dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – Peso inútil

Coluna Direto do Arquivo – Solange Sólon Borges, poema. “O milagre”.
Coluna Clássicos – Edgar Allan Poe, poema, “Soneto à Ciência”.
Coluna Porta Aberta – Clóvis Campêlo, crônica, “Corisco”.
Coluna Porta Aberta – Flora Figueiredo, poema, “Lunar”.
Coluna Porta Aberta – João Alexandre Sartorelli, poema, “Adeus Ipanema”.


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Livros que recomendo:

Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.

A sétima caverna”Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Peso inútil


O homem carrega, ao longo da sua curta vida, um peso inútil, que o impede de alçar amplos vôos espirituais e de evoluir no sentido de se tornar, de fato, racional. Hoje ele ainda é, digamos, apenas semirracional (e isso, com muita boa vontade). Tem lampejos de racionalidade, é certo, mas em cerca de 50% de suas atitudes (ou até mais), age movido exclusivamente por instinto. Aproxima-se, pois, muito mais do animal que é, do que da “imagem e semelhança de Deus”, que poderia ser.

E qual é essa carga sobressalente, esse peso descartável, que tolhe seu crescimento espiritual? É a ambição pelo que convencionou considerar “bens materiais”, que na verdade só têm alguma utilidade (quando têm e na medida exata das necessidades) enquanto viver. Sua posse, todavia, tem tamanho valor para o homem, ao ponto de influenciar até a maneira como os designa. Tanto que um dos dogmas tido como inquestionável, na maioria das sociedades, é o da “propriedade privada”.

Ninguém se refere a dinheiro, ouro, terras, casas, carros e tantas e tantas quinquilharias que despertam a ambição desenfreada da maioria como “males materiais” (que, na verdade, são). Todos os designam como “bens”. Ou seja, como coisas piedosas e benignas.

Desde criança (e já me encaminho celeremente para sete décadas e meia de vida), nunca consegui entender o obsessivo apego das pessoas por isso que rotulam de “riquezas”. Jamais, nenhum anjo, ou qualquer outro ser superior que eventualmente exista, apareceu-me em sonhos, ou durante a vigília, para me exibir algum documento de partilha do Planeta, em que sejam outorgadas extensas áreas de terra a determinadas pessoas e sua descendência, em detrimento da maioria.

Os bens da Terra, todos eles, houvesse um mínimo de lógica no comportamento humano que justificasse sua classificação como “animal racional”, deveriam ser patrimônios comuns. Pertenceriam a todos os homens, indiscriminadamente. Claro que não são. Jamais serão! E quem defende essa tese, a lógica das lógicas, recebe inúmeros rótulos e epítetos, todos, claro, pejorativos.

É estereotipado, considerado “comunista”, perseguido, encarcerado, não raro torturado e morto ou tido e havido como “alienado”, ou louco (que é praticamente a mesma coisa) e segregado do convívio geral. É uma inversão brutal e catastrófica de valores. Ou seja, o são é tido por demente e vice-versa.

A distorção chega a tal ponto, que os méritos de um indivíduo são definidos (de maneira praticamente consensual) não pelo que ele é, em termos de sabedoria e virtudes, mas pelo que tem, mesmo que se trate de rematado canalha, de incorrigível corrupto, de ladrão convicto, que amealha posses às custas das desgraças alheias.

Erich Fromm escreveu um livro a esse propósito, “Ter e Ser”, cujas teses sequer é necessário repetir. São óbvias demais. Intuitivamente, as pessoas sabem que são corretas, mas se age sempre em sentido contrário. Ou seja, invertem-se os valores: o correto é apontado como errado e vice-versa.

Há poucas, escassíssimas, ínfimas esperanças de mudança desse comportamento. Se acontecer (e se o homem não destruir, antes, seu tão judiado, depredado e poluído domo cósmico), talvez ocorra em um milênio ou mais. Não acredito, todavia, nessa revolução da racionalidade.

Nas presentes gerações, não há o menor indício de que esse súbito ataque de sabedoria e bom-senso venha a ocorrer. A probabilidade parece ser exatamente a contrária. Ou seja, que o homem se torne crescentemente mais ensandecido e obcecado pelo seu avassalador egoísmo e que sua porcentagem de animalidade cresça vertiginosamente, com a conseqüente redução, na mesma proporção, de sua já tão escassa “imagem e semelhança com Deus”.

Quem tem, busca, obsessivamente, não apenas conservar o que já juntou, mas juntar mais, e mais, e mais. Quem não tem... empenha-se em se apossar, pela astúcia (às vezes) ou pela força (na maior parte dos casos) do que os possuidores se empenham em proteger, não raro com as próprias vidas. O homem não confia no homem e tem, no semelhante, a visão de um antagonista, um rival, quando não um inconciliável inimigo ao qual se propõe a destruir, em vez de ver nele um parceiro. E as coisas pioram, nesse sentido, não mais de século para século, mas de dia para dia.

Já vão longe os tempos, por exemplo, em que você podia se sentir seguro em sua casa, mantendo as portas sempre abertas, escancaradas até, cerrando-as apenas à noite, para evitar a entrada de animais. Hoje, há trancas por toda a parte. Há muros e grades imensos, sofisticados sistemas de alarme, vigilância contínua por câmeras, cercas elétricas etc. protegendo os seus “bens” do assédio dos despossuídos. E estes, quando eventualmente saem dessa condição, e se tornam proprietários (tremenda raridade), repetem, exatamente, os mesmos procedimentos dos que antes condenavam. Não são, pois, nada melhores do que eles.

Rabindranath Tagore, com a sensibilidade e a intuição dos poetas, que, salvo exceções, enxergam além das aparências, escreveu estes versos memoráveis, em um de seus tantos poemas, que ilustram a caráter estas considerações: “Coloque uma carga de ouro nas asas de um pássaro e ele nunca mais voará pelo céu”. Imagine o homem, que já normalmente não voa (a não ser com as engenhocas que criou)! Como voará na amplidão infinita da racionalidade com tamanho peso descartável (do qual teima em não se desfazer) nas costas?!

Boa leitura!

O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk

O milagre


* Por Solange Sólon Borges

Quando descobrirmos
a nossa incapacidade
perante a imutabilidade
da vida, então,
teremos morrido.

Não há
outros paraísos,
a não ser
os paraísos perdidos.

* Jornalista, dedica-se a diversos gêneros literários. Entre outras atividades, atua em alguns programas “O prefácio”, sobre livros e literatura. Um deles é o programa Comunique-se, levado ao ar pela TV interativa ALL TV (2003/2004). Apresentou, também, “Paisagem Feminina”, pela Rádio Gazeta AM (1999), além de crônicas diárias na Rádio Bandeirantes e na Rádio Gazeta — emissoras das quais foi redatora, repórter, locutora e editora.


Soneto à Ciência

* Por Edgar Allan Poe

Ciência! Do velho Tempo és filha predileta!
Tudo alteras, com o olhar que tudo inquire e invade!
Por que rasgas assim o coração do poeta,
abutre, que asas tens de triste Realidade?

Poderia ele amar-te, achar sabedoria
em ti, se ousas cortar seu voo errante e ao léu
quando tenta extrair os tesouros do céu,
mesmo que a asa se eleve indômita e bravia?

Não furtaste a Diana o carro? E não forçaste
a Hamadríade do bosque a procurar, fugindo,
estrela mais feliz, que para sempre a esconda?

Não arrancaste à Ninfa as carícias da onda,

e ao Elfo a verde relva? E a mim, não me roubaste
o sonho de verão ao pé do tamarindo?


(Tradução de Oscar Mendes).



* Poeta e ficcionista norte-americano, considerado o criador dos gêneros contos policiais e histórias de terror.
Corisco

* Por Clóvis Campêlo

Corisco era o apelido do cangaceiro Cristino Gomes da Silva Cleto (10 de agosto de 1907, Água Branca, Alagoas - 25 de maio de 1940, Jeremoabo, Bahia). Foi casado com Sérgia Ribeiro da Silva, alcunha de Dadá. Corisco era também conhecido como Diabo Louro.

Em 1924, Corisco foi convocado pelo Exército Brasileiro para cumprir o serviço militar. Em uma briga de rua, Corisco matou um homem. no ano de 1926, e tomou a decisão de aliar-se ao bando do cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, apelidado Lampião. Corisco era conhecido por sua beleza, seu porte físico atlético e cabelos longos deixavam-no com uma aparência agradável, além da força física muito grande, por estes motivos foi apelidado de Diabo Louro quando entrou no bando de Lampião.

Corisco sequestrou Sérgia Ribeiro da Silva, a Dadá, quando ela tinha apenas treze anos. Corisco ensinou Dadá a ler, escrever e usar armas. Corisco permaneceu com ela até no dia de sua morte. Os dois tiveram sete filhos, mas apenas três deles sobreviveram.

Desentendimentos com o chefe Lampião levaram Corisco a separar-se do bando e a formar seu próprio grupo de cangaceiros, mas isso não afetou muito o relacionamento amigável entre ambos.

Em meados de 1938, a polícia alagoana matou e degolou onze cangaceiros que se encontravam acampados na fazenda Angico, no estado de Sergipe; entre eles encontravam-se Lampião e Maria Bonita. Corisco, ao receber essa notícia, vingou-se furiosamente.

Em 1940, o governo Vargas promulgou uma lei concedendo anistia aos cangaceiros que se rendessem. Corisco e sua mulher Dadá decidiram se entregar mas, antes que isso acontecesse, foram baleados. O cerco contra o cangaceiro e seu bando foi no estado da Bahia, na cidade de Miguel Calmon, em um povoado denominado Fazenda Pacheco.

Corisco e seu bando repousavam em uma casa de farinha no momento do combate após almoçarem. O ataque foi comandado pela volante do Zé Rufino, juntamente com o tenente José Otávio de Sena. Dadá precisou amputar a perna direita e Corisco veio a falecer naquele mesmo ano. Com as mortes de Lampião e Corisco, o cangaço nordestino enfraqueceu-se e acabou se extinguindo.

Corisco foi enterrado, no cemitério da consolação em Miguel Calmon, na Bahia. Depois de alguns dias sua sepultura foi violada, e seu corpo exumado. Seus restos mortais ficaram expostos durante 30 anos no Museu Nina Rodrigues ao lado das cabeças de Lampião e Maria Bonita.

* Poeta, jornalista e radialista.




Lunar

* Por Flora Figueiredo

A lua aconteceu hoje rasgada,
pois brigou com um trovão
da madrugada.
Não gostou do seu clarão.
Sentiu-se ultrajada.
Recolheu seu pedaço ferido
e o manteve escondido
daqueles que se amavam sob seu encanto.
Assim incompleta,
a lua amoitou-se numa nuvem preta
e choveu em pranto. 

In O Trem Que Traz a Noite, 2000 

* Poetisa, cronista, compositora e tradutora, autora de “O trem que traz a noite”, “Chão de vento”, “Calçada de verão”, “Limão Rosa”, “Amor a céu aberto” e “Florescência”; rima, ritmo e bom-humor são características da sua poesia. Deixa evidente sua intimidade com o mundo, abraçando o cotidiano com vitalidade e graça - às vezes romântica, às vezes irreverente e turbulenta. Sempre dentro de uma linguagem concisa e simples, plena de sutileza verbal, seus poemas são como um mergulho profundo nas águas da vida. 



Adeus Ipanema

* Por João Alexandre Sartorelli

Sob os Rios que vão,
Uma Babilônia submersa e distraída.
A especulação expulsa
O pulso dos espetáculos,
A ausência de vínculos
E a crença nos astros.
Eu que não adivinho,
Eu que nem me disfarço.

* Analista de Sistemas por profissão e poeta por vocação