domingo, 3 de janeiro de 2016

Capitalismo (uma fábula)


* Por Hilton Görresen


O sujeito vivia modestamente, em contato com a natureza (de forma limitada, é claro, visto que o melhor da natureza é privilégio dos ricos). Às vezes, para se distrair, fabricava um objeto, cuja matéria prima ia buscar no fundo da floresta, de uma árvore que só ele conhecia, a alevia bundiforme. Deu à sua fabricação um nome esquisito: “malotrincho” que, no antigo dialeto norático, significava “que não serve para nada”. O malotrincho possuía forma indescritível, razão pela qual estou impossibilitado de descrevê-lo.

O que mudou tudo, como acontece nos filmes e novelas, foi uma mulher. Uma mulher bonita, como nos filmes e novelas. Tinha cabelos mais negros do que a asa da graúna e lábios doces como gotas de aspartame. Só não tinha um talhe de palmeira por ter sido abençoada com deliciosas curvas e reentrâncias.

O homem rico (e meio coroa) queria para si a mulher bonita, ofereceu de tudo. Mas a mulher não desejava ser modelo, nem atriz de novela, por isso dispensou a proteção do homem rico. Gostava mesmo era do sujeito pobre.
– O que ele tem que eu não tenho? – dizia furioso o homem.
– Você não sabe fabricar malotrincho!
– Malotrincho? Que diabo é isso?

A mulher explicou pacientemente: malotrincho era algo inexplicável, entendeu?
– Não entendi, mas não interessa. Não sei fabricar, mas posso comprar. É isso, vou comprar toda porra de merdotrincho que ele fizer, você vai ver! – exclamou o homem num rompante de arrogância.

No outro dia, mandou seu secretário com o advogado sondar o sujeito. Tanto fizeram que conseguiram celebrar um contrato de compra exclusiva de malotrinchos. Toda produção seria comprada. Fizesse um milhão de objetos, tava com o dinheiro na mão.

O sujeito, surpreendido, não acreditou muito, mesmo assim viu que toda semana o secretário ia lá, contava os objetos produzidos, entregava um cheque e os levava embora. Pomba, que negócio bom, pensou. Começou, então, a dobrar, triplicar sua produção. O homem rico comprava tudo sem pestanejar.

O fabricante já nem tinha tempo para se alimentar, suas horas de sono eram mínimas; assim, sua capacidade de trabalho chegou ao limite. Teve, então, a ideia de contratar o trabalho de outras pessoas. Aos poucos, sua humilde casa transformou-se em oficina, virou uma colmeia, com o movimento constante e barulhento dos malotrincheiros: uns saiam para colher matéria-prima (colocaram abaixo a floresta de alevias bundiformes); outros aqueciam o material em grandes fornos; uma equipe dava forma ao objeto e outra procedia aos retoques finais. O fabricante havia descoberto que assim a produção tornava-se maior, o que significava mais lucros em seu bolso. Só que, para disfarçar, deu a isso o nome de racionalização do trabalho. 

Para controlar a produção, bem como as receitas e despesas, foi necessário contratar outras pessoas, que nada produziam, mas garantiam o funcionamento de todo o sistema. A burocracia, um mal necessário, dizia. Com isso, naturalmente, o preço do malotrincho teve de sofrer um pequeno reajuste.

O homem rico achava-se já com um enorme galpão atulhado de malotrinchos. E a cada dia chegavam mais.  O que fazer com tantas bugigangas?

Já estava arrependido do negócio, nenhuma mulher, mesmo tendo os cabelos mais negros, etc.,etc., valia tanto assim. Seus representantes tinham arbitrado uma multa astronômica para a parte que rompesse o contrato. Consultou, então, o homem de propaganda, que lhe garantiu dar um jeito na situação.
– Que jeito?
– Vendendo tudo, uai!
– E quem vai querer comprar esta m... de objeto que não serve para nada?

Então o homem de propaganda iniciou uma campanha associando a imagem do malotrincho às coisas mais agradáveis: mulheres, carros, saúde, lindas paisagens, altos salários...”Venha ao paraíso de malotrincho”.

Depois de um tempo (e alguma grana aplicada), o malotrincho tornou-se o objeto mais necessário do mundo. Homens, mulheres, crianças, todos sentiam-se frustrados se não possuíssem o seu. E o preço de venda tornou-se uma fábula. Os empregados do fabricante, aproveitando o desconto de 2% que lhes era facultado, comprometiam o ordenado para adquirir o sagrado objeto que eles próprios, vejam só, produziam em poucos minutos.


E assim o fabricante de malotrinchos ficou rico; o homem rico, mais rico ainda e os consumidores satisfeitos. E a mulher bonita?  Acabou fugindo com um marinheiro jamaicano que bebia pra caramba. O que se precisa mais para um final feliz?

* Escritor catarinense, autor de seis livros: cinco de crônicas e um de memórias.


Você é bom no que faz?


* Por Gabi Mello


Durante muito tempo, achei que os layouts que eu fazia eram ruins. Obviamente, no início eles eram bem medíocres porque eu não sabia nada com nada, mas eu refiro aos mais recentes, de até antes de 2015. Sempre fui muito elogiada pelos layouts que ostento e por outros que faço a pedidos, porém, sempre achei que o que eu fazia era ruim. Seja no design, seja no desenvolvimento do código.

Acredito que boa parte - se não for a parte inteira haha - se deve às minhas tretas com autoestima baixa, que faz que eu seja autocrítica ao extremo: para mim, nada que eu faço está bom. A verdade é que nos últimos 4 anos e meio eu tenho me sabotado de maneira constante e vergonhosa, sempre achando que não seria capaz de fazer determinada coisa... Quantas oportunidades não devo ter perdido por causa disso, né? Hashtag tolinha.

Lado bom da história é que agora em 2015 eu pareço ter acordado para a vida e tenho me sabotado beeeem menos, mas não vou me prolongar mais nessa parte pois é assunto para outro dia e outro post.

No finzinho do ano passado, recebi um email da Lya Zumblick perguntando se eu fazia codificação de design para Wordpress porque a programadora com quem ela sempre trabalha estava com a agenda cheia até janeiro de 2015. Não vou nem dizer que fiquei bestando, com a cara de bunda, olhando para a tela do computador. Fiquei tão surpresa que até errei o link do blog da mulher quando perguntei se ela era a mesma Lya Zumblick do thesupernova.co. Eu parecia uma fã adolescente, hahaha.

Aí vocês imaginam a felicidade que eu senti quando caiu a ficha: uma designer fantástica considerou trazer o layout dela para mim! *Gritinhos enlouquecidos* Eu, claro, recusei dizendo que eu era só uma garota que acabou de descobrir essa maravilhosa arte de desenvolver para web. Meu conhecimento ainda é tão pequeno, eu sou tipo uma sobrinha com upgrade hahaha.

Outra pessoa que me deixou super feliz foi a Ana Flávia Cador quando elogiou meus layouts para blogs no Blogger, dizendo que eles tinham uma qualidade superior ao que ela geralmente vê por aí. Gente, vocês já viram a qualidade das criações dela? Quando alguém que está vários níveis acima de você, elogia o que você faz é um super incentivo! Quase trabalhamos juntas num layout, eu teria adorado tanto... Pena que não rolou. Mas tô sempre no pé dela perguntando como se faz as coisas no Wordpress, haha (finalmente, fui aprender). Ela sempre solícita me ajudando, obrigada Aninha!

Ter o reconhecimento das duas foi um baita elogio e incentivo. Desde então, já não olho para meus projetos com tanta crítica. Inclusive, mudei algumas coisas na maneira de trabalhar e isso ajudou muito a melhorar a boniteza do resultado final. E esse é o plano: melhorar muito, corrigir as coisas que ainda faço errado e aprender e aprender e aprender. Quem sabe não chegar no nível da Adrielly? (Outra fofa que sempre me responde quando eu tô lá no email dela perguntando coisas de design, haha. Obrigada, Adri!) Nem vou contar, mas tenho planos de continuar nessa área de design e desenvolvimento, inclusive ir além de apenas blogs e sites. Já contei que tô fazendo SI na faculdade? Ê mundão, me aguarde!

* Designer.


sábado, 2 de janeiro de 2016

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 9 anos, oito meses e trinta dias de existência.

Leia nesta edição:

Editorial – E-books e livros impressos.

Coluna Direto do Arquivo – Fábio de Lima, crônica, “Clodovil, a mosca na sopa”.

Coluna Clássicos – José Bonifácio, o Moço, poema, “Saudade”.

Coluna Porta Aberta – Clóvis Campêlo, crônica, “Vida de cachorro”.

Coluna Porta Aberta – André Luiz Aquino, crônica, “Nossa casa no lago”.

Coluna Porta Aberta – Ysolda Cabral, poema, “Vida sem poesia”.

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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas”Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.
“Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


E-books e livros impressos



A era digital, com sua variedade de opções eletrônicas para todas necessidades e gostos, ensejou o surgimento dos chamados e-books que, salvo engano, vieram para ficar. Muitos vêem renhida disputa entre livros impressos e suas versões eletrônicas, como se ambos fossem incompatíveis, excludentes e como se um sobrevivesse, apenas, sem a existência do outro. Não vejo, porém, as coisas assim. As duas formas de apresentação desse produto de primeiríssima necessidade podem, e devem, conviver harmonicamente, sem conflitos, como opções aos leitores. Pelo menos por enquanto, quando existe matéria-prima relativamente farta para a fabricação de papel, embora os métodos de produção deste ainda sejam altamente poluentes e, portanto, perniciosos ao meio ambiente.

Quando surgiram os primeiros e-books, houve duas reações principais e antagônicas. Uma parte das pessoas previu que o livro eletrônico “mataria”, no médio prazo, o impresso. Outros tantos, todavia, juraram que a versão não impressa não passaria de modismo passageiro, que logo iria desaparecer. Porém... Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. As duas “facções” erraram seus afoitos prognósticos. Não aconteceu, não pelo menos por enquanto, nem uma coisa, e nem outra. Há uma infinidade de pessoas que não abre mão, de jeito algum, do livro tradicional, argumentando com sua “portabilidade”, ou seja, que ele pode ser levado para cima e para baixo, para onde se quiser. Isso era válido, porém, há algum tempo, mas não é mais. O argumento valia apenas quando os e-books só podiam ser baixados no computador. Com a possibilidade disso ser feito agora, também, em tabletes e em smarthfones, essa vantagem do livro impresso desapareceu. Esses aparelhinhos são cada vez mais práticos, menores e mais leves, possibilitando que sejam levados, como os livros impressos, ou até com mais vantagens, para onde quisermos.

Há quem argumente que a leitura de livros na telinha seja cansativa e desconfortável. Será? No meu caso, não tenho problema algum desse tipo. Meus olhos não ficam nem mais e nem menos cansados com essa versão. Mantenho, atualmente, dois tipos de biblioteca. A tradicional conta com uma quantidade muito maior de volumes do que a eletrônica. Pudera! Começou a ser formada há muito mais tempo, há uns 60 anos ou mais. Já a de e-books, pelo pouco tempo em que me foi facultada essa opção, não deixa de ser relativamente volumosa. Já conta com mais de duas centenas de cópias, a maioria de clássicos, disponibilizadas graciosamente por várias entidades culturais ou por seus autores. As duas versões crescem em paralelo, em igual quantidade, pelo menos no meu caso. Tanto compro, mensalmente, vários livros impressos, quanto adquiro, praticamente, a mesma quantidade de e-books.

Reitero que não vejo nenhum motivo para estabelecer concorrência entre os dois tipos de publicação. Entendo que há público para ambos. É certo que uma das grandes vantagens dos e-books é seu preço final (embora, no meu entender, ainda seja muito caro, se for levado em conta seu custo de produção, que é quase “zero”). Além disso, em termos de “portabilidade” é muito mais prático, comportando em pequeníssimo espaço uma quantidade enorme de volumes. Na versão tradicional, um número igual de exemplares seria rigorosamente impossível de transportar.

Li, há algum tempo, no portal G1, matéria informando que 40% das escolas particulares do País já adotam livros didáticos em formato de e-books. A vantagem é óbvia. Em vez dos estudantes levarem para a sala de aula uma mochila abarrotada de volumes (e imaginem o peso a carregar), com o risco de esquecer alguns ou mesmo de vários não caberem nela, levam somente um leve e prático tablete, sem que haja nenhum prejuízo para a leitura e consequente aprendizado. E creio que a tendência é a desse percentual chegar, muito em breve, a 100% ou quase, com a adesão das escolas públicas. As vantagens são evidentes, e isso sem falar sequer em preço que, claro, é fator dos mais relevantes.

Nem por isso, contudo, o livro impresso “morreu”, nem corre qualquer risco (ao menos por enquanto) de morrer. E nem precisa desaparecer. Ambas as versões podem, e devem, conviver, pois há gosto e público para ambos. Quando foi inventado o cinema, dizia-se que o teatro iria “morrer”. Não morreu. O mesmo aconteceu em relação ao cinema, quando do advento, evolução e popularização da televisão. Os três estão aí, vivíssimos, cada qual com seu papel e com seu público, sem que um ameace os outros. Creio que vá ocorrer o mesmo em relação ao livro impresso e aos e-books. Acredito que a tendência dos escritores seja a de recorrer às duas versões simultaneamente para seus livros, cada qual voltada a faixas específicas de consumidores.

Eu, por exemplo, agi assim em relação ás minhas duas mais recentes obras. “Cronos e Narciso” e “Lance fatal” foram publicados, simultaneamente, tanto na versão impressa, quanto na eletrônica. E a despeito dos e-books serem muito mais baratos, as vendas deles foram (e estão sendo) relativamente iguais (ou próximas da igualdade) aos impressos.  Entendo que não importa o formato em que uma obra é oferecida ao público. Importa que haja qualidade e variedade e campanhas muito bem feitas de divulgação para atrair o máximo possível de leitores.

Boa leitura.


O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk  
Clodovil, a mosca na sopa


* Por Fábio de Lima



O título desse texto poderia ser “Brasília nunca mais será a mesma”. Esse foi o slogan do candidato a deputado federal, por São Paulo, Clodovil Hernandes. O estilista e apresentador de TV foi o 3º deputado federal mais votado do Estado, atrás apenas do dinossauro político, Paulo Maluf e do deputado reeleito, Celso Russomanno. Mas, seria um título óbvio e, verdade seja dita, o que não podemos falar (nunca) de Clodovil é que ele seja alguém previsível.

Nascido em junho de 1937 numa pequena cidade do interior de São Paulo chamada Eliziário, filho adotivo de um casal de origem espanhola, o novo deputado veio para a capital ainda nos anos 50, mas só conseguiu tornar-se estilista famoso nos anos 70. Na época, ele protagonizava, ao lado do, também estilista, Dener, uma história de sucesso da alta-costura no Brasil. Depois Clodovil entrou para a TV e seu jeito intempestivo e sincero o transformou num Dom Quixote das palavras, brigando sempre com inimigos reais e, principalmente, ilusórios.

Hoje, ele poderia estar satisfeito e acomodado no trono de um vencedor. Mas quem pensa que o ‘jovem’ deputado de quase 70 anos está satisfeito, engana-se. Provavelmente ele acha que é pouco 493.951 mil votos. Já declarou que merecia ter recebido pelo menos 2 milhões. Mas como isso já é passado – agora sua preocupação deve ser de como deixará seu gabinete bem decorado e a sua altura, em elegância. Clodovil está errado? Penso que não. Tudo em Brasília deve ser muito chato e feio mesmo. Ele começa bem seu plano político, na minha opinião.

Então, fico imaginado como será a chegada de Clodovil no Congresso. Penso que alguns deputados mais antigos e arrogantes desprezarão o paulista que fez de seu talento, inteligência e, também, frescura, as principais armas para uma vida de sucesso. É claro que muitos leitores e muitos políticos torcerão o nariz para a palavra sucesso associada a Clodovil. Mas é puro despeito. Ele tem uma trajetória de vida incontestavelmente vencedora.

Pensem nos amigos que o Clodovil deve ter. Imagino que não sejam muitos. Pensem agora nos inimigos. Imagino que sejam muitos. Ele já brigou com boa parte da imprensa brasileira e, principalmente, com boa parte dos donos de veículos de comunicação. Qualquer pessoa estaria acabada neste meio nefasto que é a mídia, da qual faço parte e critico com conhecimento de causa. Mas, Clodovil sempre consegue um espaço para aparecer, dar suas opiniões, brigar com mais pessoas e levar a vida adiante. Ele é um sobrevivente.

Agora em Brasília terá um bom salário durante seu mandato – terá a oportunidade de brigar com muito deputado chato – e dizer coisas que eu ou você gostaríamos de dizer, mas não temos coragem ou oportunidade. É evidente que inúmeras declarações dele gerarão polêmica. É esperado também que muitas de suas ações políticas mostrem-se fracassadas e inúteis. É provável até que ele não fique mais que uma semana em Brasília e volte de lá brigado com pelo menos 50% dos 512 deputados que compõe o Congresso junto com ele. Mas, se tudo isso acontecer é por que estava escrito no roteiro. Não aquele roteiro que eu ou você escreveria – mas o roteiro que só Clodovil Hernandes é capaz de escrever.

Eu, mero jornalista e vomitador de palavras, não votei no Clodovil, mas torço por ele em Brasília.  Ele é o vingador dos pobres? Não. Ele é o vingador dos ricos? Não. Ele é o vingador dos estilistas ou apresentadores de TV? Também não. Quem é ele, então? Não sei e é provável que nem ele o saiba – mas esse brasileiro com cara de índio, com trejeitos femininos, estatura baixa e corpo franzino, não desiste nunca – como diz o slogan de um país de mentiras que pensa ser a Suíça. Portanto, espero que Clodovil Hernandes seja uma “Mosca na Sopa”. Espero que a terra dos “300 picaretas” jamais seja a mesma.

(*) Jornalista e escritor ou “contador de histórias”, como prefere ser chamado. É Diretor de Programação da CINETVNET (www.cinetvnet.com.br), TV pela internet. Está escrevendo seu primeiro romance, DOCE DESESPERO.

Saudade



* Por José Bonifácio, o Moço



I

Eu já tive em belos tempos
Alguns sonhos de criança;
Já pendurei nas estrelas
A minha verde esperança;
Já recolhi pelo mundo
Muita suave lembrança.
Sonhava então - e que sonhos
Minha mente acalentaram?!
Que visões tão feiticeiras
Minhas noites embalaram?!
Como eram puros os raios
De meus dias que passaram?!
Tinha um anjo de olhos negros,
Um anjo puro e inocente,
Um anjo que me matava
Só c’um olhar - de repente,
- Olhar que batia na alma,
Raio de luz transparente!
Quando ela ria, e que riso?!
Quando chorava - que pranto?!
Quando rezava, que prece!
E nessa prece que encanto?!
Quando soltava os cabelos,
Como esparzia quebranto!
...................................................

Por entre o chorão das campas
Minhas visões se ocultaram;
Meus pobres versos perdidos
Todos, todos acabaram;
De tantas rosas brilhantes
Só folhas secas ficaram!

II  

Oh! que já fui feliz! - ardente, ansioso
Esta vida boiou-me em mar de encantos!
Os meus sonhos de amor eram mil flores
Aos sorrisos de aurora, abrindo a medo
    Nos orvalhados campos!
Ela no agreste monte; ela nos prados;
Ela na luz do dia; ela nas sombras
Pardacentas do vale; ela no monte,
No céu, no firmamento - ela sorrindo!
Então o sol surgindo feiticeiro,
Entre nuvens de cores recamadas,
    Segredava mistérios!
Como era verde o florejar das veigas,
Brandinha a viração, múrmura a fonte,
Meigo o clarão da lua, a estrela amiga
    Na solidão do Céu!
Que sedes de querer, que amor tão santo,
Que crença pura, que inefáveis gozos,
Que venturas sem fim, calcando ousado
    Humanas impurezas!
Deus sabe se por ela, em sonho estranho
A divagar sem tino em loucos êxtases,
Sonhei, penei, vivi, morri de amores!
Se um quebro fugitivo de seus olhos
Era mais do que a vida em plaga edênica,
Mais do que a luz ao cego, o orvalho às flores,
A liberdade ao triste prisioneiro,
E a terra da pátria ao foragido!!!
    Mas, ai! - tudo morreu!...
Secou-se a relva, a viração calou-se,
Os queixumes da fonte emudeceram,
Mórbida a lua só prateia lousa,
A estrela amorteceu e o sol amigo
No verde-negro seio do oceano
    Chorando a face esconde!
Meus amores talvez morreram todos
Da lua no clarão que eu entendia,
Nessa réstia do sol que me falava,
Que tantas vezes me aqueceu a fronte!

III

Além, além, meu pensamento, avante!
Que idéia agora a mente me assalteia?!
    Lá surge afortunada,
Da minha infância a imagem feiticeira!
Quadra risonha de inocência angélica,
Minha estação no Céu, por que fugiste?
E que vens tu fazer - agora à tarde
Quando o sol já desceu os horizontes,
E a noite do saber já vem chegando
    E os lúgubres lamentos?
Minha aurora gentil - tu bem sabias
Como eu falava às brisas que passavam,
Às estrelas do Céu, à lua argêntea,
sobre nuvem purpúrea ao Sol já frouxo!
Ante mim se erguia então o venerando
O vulto de meu Pai - perto, ao meu lado
Minha irmãs brincavam inocentes,
Puras, ingênuas, como a flor que nasce
Em recatado ermo! - Ai! minha infância
Não voltarás... oh! nunca!... entre ciprestes
Dormes daqueles sonhos esquecida!
Na solidão da morte - ali repoisam
Ossos de Pai, de Irmãos!... embalde choras
Coração sem ventura... a lousa é muda,
E a voz dos mortos só a campa a entende.

Tive um canteiro de estrelas,
De nuvens tive um rosal;
Roubei às tranças da aurora
De pérolas um ramal.
De aurinoturno véu
Fez-me presente uma fada;
Pedi à lua os feitiços,
A cor da face rosada.
Contente à sombra da noite
Rezava a Virgem Maria!
De noite tinha esquecido
Os pensamentos do dia.
Sabia tantas histórias
Que não me lembra nenhuma;
Ao meus prantos apagaram
Todas, todas - uma a uma!

IV

Ambições, que eu já tive, que é delas?
Minhas glórias, meu Deus, onde estão?
A ventura - onde vivi na terra?
Minha rosas - que fazem no chão?
Sonhei tanto!... Nos astros perdidos
Noites... noites inteiras dormi;
Veio o dia, meu sono acabou-se,
Não sei como no mundo me vi!
Esse mundo que outrora habitava
Era Céu... paraíso... eu não sei!
Veio um anjo de formas aéreas,
Deu-me um beijo, depois acordei!
Vi maldito esse beijo mentido,
Esse beijo do meu coração!
Ambições, que eu já tive, que é delas?
Minhas glórias, meu Deus, onde estão?
A cegueira vendou-me estes olhos,
Atirei-me num pego profundo;
Quis coroas de glória... fugiram,
Um deserto ficou-me este mundo!
As grinaldas de louro murcharam,
Nem grinaldas - somente a loucura!
Vi no trono da glória um cipreste,
Junto dele uma vil sepultura!
Negros ódios, infames traições,
E mais tarde... um sudário rasgado!
O futuro?... Uma sombra que passa,
E depois... e depois... o passado!
Ai! maldito esse beijo sentido
Esse beijo do meu coração!
A ventura - onde vive na terra?
Minhas rosas - que fazem no chão?
Por entre o chorão das campas
Minhas visões se ocultaram;
Meus pobres versos perdidos
Todos, todos acabaram;
De tantas rosas brilhantes
Só folhas secas ficaram...

 S. Paulo, 1850.

* Poeta, professor, orador e político, membro da Academia Brasileira de Letras.


Vida de cachorro


* Por Clóvis Campêlo


O meu amigo Renato Rodrigues reclama, com razão, que as ruas do bairro da Boa Viagem estão infestadas de fezes de cachorro. Nem todos os cachorreiros têm a consciência de que devem limpar o cocô dos seus animais. E, como se não já bastassem os esgotos estourados, Boa Viagem é só excrementos.

Embora não crie nenhum desses bichos, todos os dias costumo passear com Romeu, o cachorro maltês de Pedro, o meu neto. Já criamos uma rotina que é por ele cumprida com muita alegria. Afinal, ninguém gosta de viver trancado o dia inteiro dentro de um apartamento.

Nesses passeios, Romeu satisfaz as suas necessidades diárias e se desestressa no contato com outros cães. É impressionante como cada vez mais as pessoas dividem a existência com esses animais, pequenos ou grandes e nem sempre dóceis. Existe hoje um verdadeiro comércio que gira em torno dessas criações. Produtos criados especificamente para o consumo dos cães, e que vão de rações, passam por biscoitos, roupas e até cervejas e refrigerantes. Também já estão no mercado planos de saúde e funerários para cães e outros animais, hospitais veterinários e lojas pet shop cada vez maiores e mais completas. Incrível e impressionante como o sistema sempre encontra novos guinchos para se expandir e lucrar.

Voltando a Romeu, porém, nem sempre esses passeios são amistosos e pacíficos. Algumas vezes, por razões que a própria razão desconhece, os animais se estranham e se agridem. Foi o que aconteceu no encontro entre Romeu e Jean Pierre, um cão da raça basset, no calçadão de Boa Viagem, que se engalfinharam numa briga feroz. Depois da rusga, a jovem senhora proprietária do cãozinho cuja raça é oriunda da França, o repreendeu com severidade. Não me pareceu, no entanto, que Jean Pierre tivesse compreendido a bronca, muito mais interessado que estava em continuar a briga com Romeu. Coisa de cachorros, imagino.

Já noutro dia, encontro com Paulo e seu cãozinho, John Lennon, esse sim, muito mais amistoso. Deram-se bem, ele e Romeu. E descubro que Paulo, assim como eu, também é beatlemaníaco. Estava com uma camiseta que fazia referência aos shows de Paul McCartney no Recife, em 2012. Como ambos fomos aos shows, conversamos sobre isso: a excelente qualidade dos músicos que acompanhavam o velho Maca naquela ocasião; o boa forma do velhinho roqueiro, após três horas de show sob o intenso calor recifense, com o qual, com certeza, ele não estaria acostumado; a sua presença de palco e a sua empatia com o público, numa demonstração evidente de que aquela é realmente é a sua praia. Descubro que Paulo mora na mesma rua em que eu moro, e percebo que aquela pode ser uma nova amizade que está se iniciando, alimentada pela paixão pelos Beatles e pelo amor aos nossos cachorros. Coisa de urbanóides, com certeza.

Em janeiro, eu e o cachorro vamos nos separar. Meu neto vai morar em João Pessoa e Romeu o acompanhará. Talvez eu venha a arrumar outro companheiro para os passeios diários. Gostaria que fosse um cão preto, talvez até um vira-latas. Vou chamá-lo de Tubarão.

Recife, dezembro 2015

* Poeta, jornalista e radialista.