A
fonte da juventude e a vaca perdida
* Por
Luís Peazê
“Esta
fonte foi encontrada graças a uma vaca perdida”, me contou o
analista do Tribunal de Justiça aposentado, Hilário Alencar, veja
só, um dos pais da Maldita, revolucionária rádio FM Fluminense,
tambor do rock para todo o país nos anos 80. - Vaca perdida? –
pensei logo, que sinergia com a minha ideia
de escrever sobre a falaciosa obsessão de Ponce de Leon com a Fonte
da Juventude numa ponta de terra recém-descoberta por Cristóvão
Colombo, que um dia se chamaria América, Estados Unidos.
Procurei
Hilário para conversar, porque sabia de sua amizade com um amigo
comum, o artista plástico Mário Benício, de Niterói, e o tal
de Facebook me revelou uma bela viagem que Hilário fizera com sua
esposa pela América, em maio passado. Eles saíram da Flórida,
foram para a Louisiana, depois Mississippi até o Texas, retornaram
pela Geórgia, indo a Carolina do Norte até saírem de volta ao
Brasil pela Flórida “again”.
Hilário,
como eu, gosta dos Estados Unidos e gosto não se discute. Curioso
foi ele utilizar várias imagens ilustrativas para expressar a
admiração por algumas peculiaridades do país. Enquanto eu costumo
dizer que até a sujeira nos Estados Unidos é limpa, tão limpa que
até faz mal, de tanta química (papo para outra hora), ele disse que
até o feio é bonito, nos referíamos aos espaços públicos,
cidades e bairros fora das grandes cidades. E de como o sistema
americano permite que a organização oportunize uma sensação de
conforto, de um modo geral, por onde você anda e o que faz. Mas e a
vaca? Sim, a vaca. Hilário me contou que era um sonho conhecer pelo
menos uma das “springs”, fontes abundantes localizadas da Flórida
central e norte. Chegando em uma fazenda, que oferece passeio a
visitantes que aluguem snorkel e pés de pato, para visitar a fonte,
Hilário estranhou o terreno plano, difícil acreditar que uma fonte
se instale ali pelas mãos da natureza. De repente, ao seguir o guia,
eles chegam a um ponto, em um buraco com uma escada de madeira e lá
no fundo um mundo mágico, outro planeta, com lago e tudo. Só vendo
para crer. Eu sou testemunha ocular. Conversando com o guia, Hilário
ouviu a história simplória que, se fosse contada por um mineiro de
Guidoval, não estranharíamos: aquela fonte, dizem, só foi
encontrada quando o dono da fazenda perdeu uma vaca e ao
procurá-la..., você já entendeu né?
A
vaca caíra no buraco e a fonte foi encontrada, tornando-se um ponto
turístico. Há inúmeras no estado. Quem sabe uma das muitas pistas
da Fonte da Juventude.
Conversei
com o historiador, Professor J Michael Francis, da Universidade de
St. Petersburg para tirar uma dúvida que trago desde o ginásio, de
que o espanhol Ponce de Leon morrera procurando a fonte da juventude
ao norte do Caribe. Tudo história mal contada.
Resumindo,
com as minhas palavras, o relato científico do Prof. J Michael
Francis, que aliás acabara de esclarecer para acadêmicos o
imbróglio falacioso sobre Ponce de Leon, por ocasião das
comemorações dos 500 anos do “Sunshine State”, apelido da
Flórida, o seguinte: A vaca foi para o brejo, para Ponce de Leon que
perdera a governança de Porto Rico, quando os espanhóis ainda
dominavam parte do Caribe. Então, o vaidoso navegante espanhol pediu
ao Rei de Espanha uma grana para ir com sua esquadra desbravar um
arquipélago, mais ao norte, próximo dos domínios britânicos.
As
más línguas dizem até hoje que ele queria encontrar a fonte da
juventude, falada aos quatro ventos pelos índios daquelas bandas.
Encontrou, a terra procurada, descobrindo que era uma ponta sólida
do continente. Ali ele fincou o pé, a bandeira espanhola e deu-lhe o
nome de La Florida. Era 1513. Mais tarde foram de fato encontradas na
Flórida várias fontes de águas minerais, nenhuma com os poderes
que os índios juravam ter, do rejuvenescimento. 200 anos depois,
durante a Guerra dos Sete Anos, a Inglaterra vencedora anexou a
Flórida aos Estados Unidos e os espanhóis receberam Cuba, em troca
de deixar o território para os vencedores.
E
por muito tempo, antes da implantação dos parques temáticos, do
Mickey Mouse ao Bush Garden e a fase relâmpago das orgias de Spring
Break, a Flórida era conhecida como a região das fontes de água.
Para
final de conversa, grande parte da história que aprendemos nas
escolas vem das crônicas; e as crônicas, desde milhares de anos,
sempre roubaram retalhos de relatos alheios (plágio), cimentados com
inverdades, interesses particulares e arroubos românticos, poesia em
forma bruta; uma linguagem anterior ao surgimento de qualquer
palavra. Que anda por lugares indizíveis, lida pela alma, captada
pela sensibilidade humana, inerte a qualquer semântica, sem o que
nos restaria apenas a aridez dos registros históricos oficiais.
Ponto:
a Flórida é originariamente espanhola, Cubana e Africana; é o
Sunshine State (estado do sol), as coqueluches de época lhe pregam
títulos e mais títulos, mas parece que o seu destino é nos remeter
à juventude, fase infantil.
*
Escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de "Por Quem os
Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Filiado à ABJC - Ass.
Brasileira de Jornalismo Científico. Presidente do Instituto Brasil
Costal – BRCostal. Diretor Presidente da Clínica Literária
www.clinicaliteraria.com.br
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