Sem despedidas
As
amizades (tenho escrito isso com grande freqüência) são privilégio
e bênção, embora aconteçam de forma natural, não raro, até, à
nossa revelia. Mas é possível sermos amigos de alguém a quem nunca
vimos, com quem jamais conversamos, e ainda assim esteja sempre
presente ao nosso lado, se manifestando nos momentos que mais
precisemos (ou simplesmente queiramos) e a respeito de quem
conheçamos as mais triviais informações biográficas? Minha
resposta é: sim!
“Mas
como?”, perguntará, intrigado, o leitor, não vendo como isso seja
possível. Asseguro, todavia, que isso não só está no terreno das
possibilidades, mas ocorre com maior freqüência do que você possa
supor. É o caso da minha amizade espiritual com dezenas de milhares
de escritores. A imensa maioria deles, inclusive, morreu muitos anos
antes do meu nascimento, alguns até séculos, quando não milênios
(como Homero, Virgílio, Píndaro e Horácio, por exemplo) e, no
entanto, estão comigo constantemente.
Devo-lhes
não apenas minha forma de encarar e de fazer literatura, mas de
entender o mundo, as pessoas, os sofrimentos e alegrias, a felicidade
e a dor, enfim, a vida. Não se trata de nenhum exercício de
mediunidade, óbvio. “Converso” com eles mediante as ideias,
conceitos, emoções e pensamentos que eles tiveram e, generosamente
registraram e legaram à posteridade. Trata-se, na verdade, não de
diálogos, mas de ilustrativos monólogos, em que somente esses meus
mestres, meus gurus, meus “amigos” espirituais “falam”.
Nossos
encontros cotidianos são sempre informais, sem cerimônias e nem
salamaleques, como devem ser os contatos com pessoas que privem da
nossa intimidade pelas vias sagradas da amizade. Não visto trajes
especiais, por exemplo, para essas reuniões. Não raro elas ocorrem
comigo vestindo confortável roupa caseira (um pijama, por exemplo),
ou, dependendo da estação do ano, até mesmo uma bermuda ou sumária
sunga. Eles nunca repararam nesse aspecto.
Ademais,
esses diletos amigos jamais assumem ares pedantes e nem polarizam a
palavra. “Falam”, apenas, quando quero que falem e abordam, via
de regra, os temas específicos que quero que abordem. E nunca me
falharam. Sempre que quero saber de alguma história instigante,
convoco alguns deles, que podem ser, por exemplo, Fedor Dostoievski,
ou Leon Tolstoi, ou Máximo Gorki, ou Gogol, ou Puchkin, quando não
Honoré Balzac, Victor Hugo, Eça de Queiroz, Guy de Maupassant,
Mário Vargas Llosa, Gabriel Garcia Márquez, José Saramago ou Edgar
Alan Poe. São tantos! E tão versáteis! E tão criativos!
O
amigo ao qual mais recorro nessas ocasiões, todavia, é o “Bruxo
do Cosme Velho”, Machado de Assis, que sempre tem um personagem
marcante a me apresentar, como Capitu, Bentinho, Escobar, Dom
Casmurro, Brás Cubas, Helena e tantos e tantos outros, que me marcam
com seus dramas, aventuras e atitudes. Isso sem falar dos que ele
manipula à perfeição, como perito títere de marionetes, na
centena de contos seus que leio, releio, treleio, esmiúço e
analiso, já que este é o gênero da minha predileção e, portanto,
minha especialidade literária.
Recorro,
também, com freqüência, a filósofos e ensaístas, como Henry
David Thoreau, Montaigne, Ralph Waldo Emerson, Francis Bacon, Blaisé
Pascal, Octávio Paz (do qual me delicio, de lambuja, com seus
mágicos poemas), Bertrand Russell e tantos e tantos e tantos outros,
que não menciono nominalmente para não maçar você, paciente e
fiel leitor.
Todavia,
meus contatos mais freqüentes são com poetas. São, por exemplo,
com Fernando Pessoa, meu heteronímico e notável guru. São com
Mário de Sá Carneiro, com Florbela Espanca, com Johann Wolfgang
Goethe, com Lamartine, com Shelley, com Rilke, com T. S. Elliot, com
Walt Whitman, com Gabriela Mistral, com Pablo Neruda.
Mas
que os brasileiros não fiquem com ciúmes (nunca ficam). Estou,
sempre, me encontrando (com devoção e deleite) com Cecília
Meirelles, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Mário
Quintana, Vinícius de Moraes, Ledo Ivo, Guilherme de Almeida, João
Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, Alphonsus de Guimaraens, Castro
Alves, Olavo Bilac, Adélia Prado, Talis Andrade, Luís Augusto
Cassas, Fabiana Bórgia, Suzana Vargas, Paulo Mendes Campos, Lindolfo
Bell, Paulo Bonfim, Corrêa Junior, Patativa do Assaré e tantos, e
tantos, e tantos outros. Esses encontros são orgias de emoção e
sensibilidade.
Jorge
Luís Borges escreveu, se não me falha a memória em sua “História
da eternidade”: “Homero e eu separamo-nos nas portas de Tanger.
Creio que não nos despedimos”. Posso dizer que me separo,
diariamente, desses diletos amigos espirituais nos mais diversos
locais: no meu quarto, no meu gabinete de trabalho, nos separávamos,
tempos atrás, na redação do jornal em que eu era editor, trocamos
um até logo na minha biblioteca, na sala de espera do dentista, etc.
Nunca, todavia, me despeço. E não é por falta de educação da
minha parte. É porque lhes digo mero e trivial “até breve”, na
certeza de nos vermos no próximo dia.
A
propósito, deixei Jorge Luís Borges para o fim, mas não por tê-lo
em menor conta, mas exatamente por motivo oposto. Todos que me
conhecem, pessoalmente ou por leitura dos meus textos, sabem da
veneração que tenho por esse fantástico escritor argentino.
Separo-me dele, todos os dias, não nas portas de Tanger (é possível
que a separação ocorra, um dia, até nesse local), mas na soleira
do meu quarto, da minha biblioteca, da minha sala... Contudo, como
ele afirma ter feito em relação a Homero, “creio que nunca nos
despedimos...” Jamais vamos nos despedir!
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
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