Reduzido a pó
A
morte assusta todas pessoas, embora em graus variáveis, pelo tanto
de mistério que encerra. Alguns nem pensam nela e deixam que chegue
sem ansiedades e nem temores. Outros, ficam apavorados só em pensar
a respeito. Eu fico, confesso, e muito. Se me fosse facultada a vida
eterna, a receberia de muitíssimo bom grado, a despeito das dores,
decepções, angústias e tristezas pelas quais tivesse que passar.
Certamente passaria ou, quem sabe, ainda passarei.
Ninguém
tem noção exata do que se sente nesse momento fatal, quando a morte
põe fim à nossa tão rápida e fugaz passagem pelo mundo. Cada qual
se limita, à sua maneira, a imaginar como ele é. Há quem tenha fé
e creia numa vida espiritual e consciente, melhor do que esta. Outros
tantos, porém, entendem que se trata da absoluta extinção, do
corpo e do espírito, e que só sobreviverão obras – materiais ou
imateriais – que eventualmente deixarmos. Da minha parte, ora penso
de um jeito, ora de outro, sem nunca me definir. Certezas? Não tenho
nenhuma.
Pensar
na morte é reflexão incômoda, dolorosa e atemorizadora, sem
dúvida, mas que deve ser feita com serenidade e maturidade. Afinal,
dela ninguém nunca escapou e jamais escapará. É a grande
niveladora das pessoas. Atinge tanto o humilde quanto o poderoso;
tanto o néscio quanto o sábio; tanto o miserável quanto o
milionário. O escritor Graham Greene escreveu a respeito: “Todos
chegamos um dia como a água e nos vamos como o vento”. E não é o
que acontece?!
James
W. Kennedy dizia, com muita sabedoria, que “o que realmente importa
é o que acontece em nós, e não a nós”. É esta integridade de
espírito, esta riqueza interior, esta personalidade e confiança no
nosso talento e nas nossas ações que devemos cultivar, para nos
servir nos anos mais difíceis da existência.
Estas
têm que ser as armas ao nosso dispor para quando nossos músculos já
não obedecerem com prontidão as ordens emanadas pelo cérebro. Para
quando nossos olhos não enxergarem com a mesma acuidade da
juventude, para quando nossos ouvidos já não captarem os sons com a
mesma nitidez dos bons tempos e quando o nosso raciocínio levar um
tempo enorme para “esquentar”.
Envelheçamos,
sim, pois esta é uma fatalidade biológica. Mas o façamos com
picardia e, sobretudo, com dignidade, mesmo que isso nos custe um
esforço sobre-humano. É mister que se destaque que nossas dúvidas,
princípios e esperanças não são exclusivos, mas foram, serão e
são compartilhados por milhões, quiçá bilhões, de pessoas
ao redor do mundo através dos tempos.
Todos,
reitero, somos vítimas da efemeridade. Todos, sem nenhuma exceção,
trazemos em nós, em nossos corpos, em nossas vidas, mesmo que
pareçam grandiosas aos olhos alheios, as mesmas dúvidas, os mesmos
defeitos, as mesmas misérias e as mesmas covardias que tanto nos
envergonham, além do estigma da extinção. Afinal, "no tempo
não há lugar para o homem..."
Passado,
presente e futuro são uma só coisa, um "único rio",
cujas origens e destino estão no infinito. Ninguém sabe de onde
suas "águas" vêm e nem para onde vão. Por isso, até
hoje não sei com certeza se devemos comemorar ou lamentar, por
exemplo, um aniversário. Pelo sim e pelo não, prefiro seguir a
tradição e celebrá-los. Fico em dúvida, porém, se devemos
considerar uma vitória o fato de havermos sobrevivido a mais um ano
ou nos preocupar com a inexorável proximidade da morte.
Minha
intuição, e somente ela, leva-me a ficar com a primeira das
alternativas. É menos dramática e menos dolorosa. Afinal, o que é
a vida e o que é a morte? Tudo, aos nossos olhos, envelhece e um dia
vira pó: pessoas, coisas, cidades, pensamentos, sentimentos etc.
Devemos, porém, atentar que tudo, também, se renova, às vezes para
melhor, outras para pior, mas fica sempre novo. É a inflexível lei
da vida.
O
romancista sul-africano, Stuart Cloete, constatou no livro “Balada
Africana”: “Ao redor de nós, há vozes que nos chamam. A voz do
filme, a voz do rádio, da televisão, da imprensa e da propaganda –
e nenhuma delas faz sentido. Não há imagem. Há apenas confusão;
e, esmagado entre a pedra de moer de uma economia que se desmorona (e
que fica por cima), e os mecanismos de fuga (que ficam por baixo) de
uma indústria de diversões que surgiu brotando do desesperado
desejo do homem no sentido de fugir de si próprio e ir para o reino
da fantasia, o espírito humano está sendo reduzido a pó”.
Não
raro, todavia, a decadência está, apenas, em nosso interior, por
enxergarmos tudo com lentes desfocadas. Temos é que acertar o foco
se aspirarmos a felicidade (eu, pelo menos, aspiro). Se as lentes
forem escuras, veremos tudo sombrio e sem luz. Usemos as naturais,
para enxergarmos melhor e mais longe.
Mauro
Sampaio esclarece tudo o que eu quis dizer (e não fui tão hábil),
neste profundo poema, intitulado “Cidade Velha”:
“Cidade
velha, ou o velho está dentro de mim
a
imaginar o fim de tudo
sem,
entender que o fim na verdade sou eu?!
Estes
sulcos na rua
estes
cães tão magros e imundos,
não
seriam muito mais meus conhecidos
do
que penso que o são?
Estes
sulcos, já não os vi no meu espelho?
Estes
cães, não os trago na alma?”.
Perspectiva.
Tudo é, portanto, questão de perspectiva, de ângulo, de foco com
que nos encaramos, e ao próximo e a tudo o que nos rodeia. E claro,
também, ao tempo, ao espaço, ao universo, ao passado, ao presente,
ao futuro, à vida e, sobretudo, à morte. Perspectiva. Questão de
perspectiva.
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Já escrevi isso aqui: quando menina, não queria ter filho para não obrigá-lo a passar pelo medo da morte.
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