Moldura
* Por
Núbia Araujo Nonato do Amaral
Morávamos
numa casa simples, melhor, modesta. A porta da frente era daquelas
cortada ao meio cuja fechadura era uma tramela
de primeira geração, na minha santa ingenuidade, era o que bastava
para um sono tranquilo.
O chão havia levantado abrindo uma cratera onde nossos barquinhos de papel afundavam solenes. O banheiro, lúgubre, escuro, daria um ótimo cenário para filme de terror.
A cozinha era comprida, um fogão, um armário e pendurado num canto, irresistíveis linguiças ou bananas, ou carne seca ou nada.
A sala era pequena, um sofá verde, se não me engano, depois o pessoal da produção confirma. Uma televisão coberta com um paninho, não tinha luz mesmo e um armário daqueles antigos, cheio de gavetas e só.
O único quarto da casa tinha uma cama, um guarda roupas de cortininhas e uma penteadeira que eu adorava, achava aquilo lindo! A parede do quarto era colado a um poço, úmido de dar dó.
Uma vez vi um homem flutuando na janela, achei que fosse minha imaginação. Na frente da casa um canteirinho de margaridas e mais adiante bem ao alcance de meus olhos, mãos e pernas, o bendito quintal do turco!
E assim, feito freio de caminhão, lembrei dos olhos de minha mãe fixos no batente da porta esticando um suspiro comprido…
Criança é bichinho egoísta, molda o mundo atropelando
o outro.
*
Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário
Quando meninos temos uma imagem nítida de tudo, e somos capazes de detalhar coisas de décadas, enquanto fatos bem mais recentes ficam misturados.
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