sábado, 11 de fevereiro de 2017

Fama ou reconhecimento?



"A fama é a soma de equívocos criados em torno de uma pessoa", escreveu, certa ocasião, o poeta austríaco, Rainer Marie Rilke. Absoluta verdade! Certamente, não foi esta a condição (ou seria recompensa?) que os intelectuais engajados na solução dos problemas do seu tempo buscaram  (ou buscam) da sociedade. Almejam, isto sim, o "reconhecimento" das gerações futuras, pelo que fizeram e deixaram como patrimônio cultural. Nem sempre (ou quase nunca) conseguem.

Quantos intelectuais campineiros, que estiveram na "crista da onda" não faz muito tempo, quando ainda em atividade, não acabaram esquecidos, tão logo morreram?! E, pior, alguns, ainda vivos, sentem hoje o travo amargo do esquecimento e do descaso, como se nunca tivessem existido! Quem perde com tal omissão (ou desinformação), é a sociedade, que deixa de se valer da experiência e das luzes desses intelectuais brilhantes. Arte e cultura são atemporais. Talvez esse esquecimento seja fruto do preconceito, dessa obsessão pelo "moderno". Modernidade, aliás, na maioria das vezes confundida com modismo.

Sempre que possível (e oportuno), tentarei, neste espaço (e nos outros tantos que disponho), senão resgatar, pelo menos lembrar dos nossos bons escritores (e são tantos!). Uma das razões é de caráter prático: para usufruir suas boas idéias, sempre bem vindas nesta época de aridez mental. Outra (por que não dizer?), é egoística: fazer desse exercício de exegese uma espécie de "exemplo", na vã ilusão de que, algum dia, em algum jornal ou revista da cidade ou do País, determinado cronista generoso me retire do ostracismo, a que certamente também serei relegado.

Estas considerações vêm a propósito de um telefonema de um leitor, há já algum tempo, me perguntando o que achava da pessoa e da obra de Paranhos de Siqueira (falecido em 6 de maio de 1988). Não conheci esse intelectual pessoalmente. Nos vimos por aí, pela cidade, uma vez ou outra. Trocamos sinais de cabeça, à guisa de cumprimento, e nossas relações restringiram-se a isso. Nunca fomos apresentados formalmente. Sequer chegamos a conversar, mesmo que sobre banalidades.  Desconheço se ele acompanhou minha trajetória pela imprensa de Campinas. Provavelmente não! À época em que Paranhos era um brilhante articulista do "Correio Popular" e do "Diário do Povo", eu estava ensaiando os primeiros passos como jornalista.

Acompanhei-o, no entanto, com grande interesse. Colecionei, avidamente, seus candentes artigos, nos quais me espelhei para escrever os meus. Tenho alguns dos seus livros, especialmente os de crônicas, como "Rosário de Lágrimas" (publicado em 1936, quando eu sequer havia nascido), "Horas Mortas" (de 1939) e o que reputo o melhor de todos, "Gente e Coisas da Minha Terra", de 1980. Este último, é um precioso documento, escrito com o texto leve e fluente do emérito cronista (aliás, sua característica), de um largo período da história recente da cidade.

Tenho um único livro de poesias de Paranhos de Siqueira, escritor que há tempos não tem sido citado uma só vez  na imprensa campineira, como se sequer tivesse existido (meu Deus, como a nossa mídia é carente de memória!). Trata-se de "Antes que Anoiteça", coletânea de 95 sonetos, dos quais escolhi (a esmo) apenas dois, para apresentar ao leitor. O primeiro, intitula-se "Poetas Antigos". Diz:

"Passei a noite inteira lendo versos,
--- poesia antiga de sabor sem par,
em que palpitam vozes de universos
que nem a Morte conseguiu calar.

Guerra Junqueiro...--- artífice invulgar
de alexandrinos celestiais, tão tersos
que hão de sempre existir e perdurar
na comunhão dos séculos dispersos.

Bilac, o velho Alberto de Oliveira,
o Saturnino, o mestre dos 'Grupiaras',
 --- dos grandes da poesia brasileira.

Valeu a pena ter ficado insone,
ébrio de gozo como as gemas raras
do simbolismo de Raul de Leoni..."

O segundo soneto que reproduzo é este "O Espelho":

"Entrei hoje em atrito decidido
com meu espelho de cristal vetusto.
Olhei-me nele, um tanto distraído,
e o diabo quase me matou de susto.

O danado queria, a todo custo,
sob a ilusão dos anos que hei vivido,
em vez do moço impávido e robusto,
mostrar-me um velho pela dor vencido.

E veio a bronca que nos pôs de mal.
Ele, afirmando que me foi leal,
e que o Tempo é que o físico dilui.

E eu, exigindo que ele me mostrasse,
no mesmo corpo, a mesma antiga face
do jovem desenvolto que já fui..."

Quem não conhece a obra (em prosa ou verso, não importa) de Paranhos de Siqueira, não sabe o que está perdendo. Trata-se de um intelectual que --- mais do que qualquer eventual e efêmera fama --- merece nosso eterno reconhecimento... E, sobretudo, nossa total gratidão!

Boa leitura!

O Editor.

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Um comentário:

  1. Somos sim, desmemoriados. Aqui em Montes Claros, sofremos da mesma amnésia.

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